Mostra de SP 2018 | ‘Garotas em Fuga’ traz uma trama envolvente com muita sensibilidade

Trancada em uma instituição psiquiátrica contra sua vontade, Kathy (Lisa Viance) é uma adolescente de 17 anos bastante reservada. Após um incidente no local, a garota decide fugir atrás de seu pai, o único que pode tirá-la de lá. Nabila (Yamina Zaghouani) e Carole (Noa Pellizari), colegas de quarto de Kathy, a acompanham nessa aventura, porém, uma simples road trip acaba tomando proporções inimagináveis em Garotas em Fuga.

Pela primeira vez na direção de um longa, Virginie Gourmel faz um excelente trabalho. O filme mostra assuntos pesados como a automutilação, depressão, suicídio, bullying e abuso de remédios, e mesmo assim, Gourmel nos traz um ritmo leve e muitas vezes descontraído. Desde roubar um carro até um sequestro, acompanhamos a fuga do trio e esses tópicos vão se enquadrando nas três meninas como suas particularidades, e não problemas a serem abordados.

O foco é, claramente, Kathy. Desde o começo torna-se perceptível que sua rebeldia é mais uma resistência à cuidados e afetos. Abandonada pelo pai, a garota com depressão e problemas de automutilação não confia em ninguém e nega todo tipo de ajuda em relação a isso. Aos poucos e com muita cautela, vemos Kathy lentamente se abrindo e aceitando o que ela realmente precisa. Pelo contrário, Nabila e Carole acabam sendo deixadas de lado, assim como os seus problemas (abuso de drogas e bullying com o peso de Carole), fator que não altera o resultado do filme já que as duas são abandonadas por Kathy, que continua a fugir com seu “meio-irmão”.

Para compor o escape, cenas curtas de cervos são usadas de forma simbólica, podendo significar tanto a liberdade quanto o temor. Ao considerar que vários momentos do trio acontecem na floresta, assim como Kathy em frente aos próprios animais, esses fragmentos fluem de modo sutil. A música composta para o filme, ainda, toca somente em momentos específicos, sendo ouvida apenas em instantes de grande euforia, ocasiões que não parecem reais para as personagens.

Assim, acompanhamos a aventura de três garotas em fuga, mas principalmente, testemunhamos um ótimo desenvolvimento na personalidade de Kathy. Ao passar de uma personagem que recusava ajuda e negava seus transtornos, a garota enfrenta sua maior angústia enquanto vai se autodescobrindo durante os 95 minutos de projeção. Com esse progresso, torna-se evidente que o final do filme é muito mais do que ele mostra, propondo uma reflexão.

A estreia de Virginie Gourmel na direção de um longa não é nada menos que esplêndida. Garotas em Fuga acerta na sensibilidade e no ritmo, e vai muito além dos contratempos enfrentados pelas três adolescentes em sua aventura.

4.5

RESUMO:

Com um ritmo agradável, Garotas em Fuga acerta em termos de sensibilidade e vai muito além do que um simples escape de uma instituição psiquiátrica.

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Rafaella Rosado

Jornalista em formação e apaixonada pela sétima arte desde pequena, quando achava que era possível ver todos os filmes do mundo. Acredita que o cinema é uma forma de viajar e conhecer outras realidades sem sair do lugar.