Crítica | ’22 de Julho’ é um drama tenso, mas que não alcança todo o seu potencial

Paul Greengrass é um diretor conhecido pela qualidade de imersão que seus trabalhos conseguem ter sob o espectador. Diretor de dois dos melhores exemplares da série de filmes Bourne e do imersivo Capitão Phillips, o que Greengrass entrega em 22 de Julho talvez não seja o esperado vindo de uma pessoa com uma mente tão aberta para a ação. Entretanto, isso não quer dizer que o resultado seja ruim.

Situado na Noruega, o filme retrata o atentado ocorrido no dia 22 de julho que resultou na morte de 77 pessoas e mais de 200 feridos. E é desse ponto de partida que o filme têm seu primeiro defeito: ser totalmente falado em inglês. Escolha questionável do diretor – apesar de possuir uma equipe norueguesa durante todo o processo de produção – que fez parceria com a Netflix para a distribuição do longa pelo mundo. Empresa que, ultimamente, vêm focando seu conteúdo original em produções faladas em línguas não-inglesas.

Greengrass tenta tirar o foco da língua inglesa presente no filme entregando uma excelente direção. Ele inicia o longa colocando o espectador dentro do atentado, não deixando sequer 1 momento para respirar. Os primeiros 40 minutos são totalmente direcionados aos dois ataques ocorridos naquele dia, um deles na zona de edifícios governamentais de Oslo, capital da Noruega, e o outro na ilha de Utøya. A câmera na mão é usada para trazer um sentimento de desespero ao espectador, juntamente da coragem do diretor ao não ter pudor de quem está assistindo, mostrando detalhadamente todos os atos do assassino. É brutal, intenso, e um forte início que, infelizmente, não carrega o mesmo ritmo até o final.

 

Após o fim do primeiro ato, o filme diminui o ritmo consideravelmente. O foco é dividido entre um dos sobreviventes e sua família, um interesse amoroso do personagem, o culpado pelo atentado, o advogado encarregado de defende-lo e o primeiro-ministro do país. É uma enorme quantidade de núcleos que, em alguns casos, não são bem desenvolvidos.

O protagonismo é dividido entre o assassino Anders Behring Breivik (Anders Danielsen Lie) e o sobrevivente Viljar (Jonas Strand Gravli). A frieza de Anders é muito bem representada pelo ator, e que também é vista pela direção de fotografia impressionante que o filme possui. As cores frias e acinzentadas se assemelham ao que o segundo e terceiro ato carregam. Tudo é muito denso, apático, e mostra a tristeza e o choque que muitos dos personagens estão sentindo.

Ao se tratar de Viljar, o filme acompanha a recuperação do personagem, tanto no hospital, quanto fora dele. Todo o medo e apreensão que ele está sentido é mostrado perfeitamente pelo ator, que em seu primeiro papel, já mostra um grande talento em cena. Viljar possui um sentimento de vingança pelo que aconteceu, e a cena em que é posto cara a cara com o assassino é um forte e tocante desabafo desse sentimento que vêm carregando desde o ocorrido.

O excesso de núcleos, e a falta de desenvolvimento de alguns deles, como é o caso do interesse amoroso de Viljar, parecem servir apenas para aumentar a duração do longa. Durante suas 2 horas e 24 minutos, o filme se perde ao tentar debater assuntos demais, sem a profundidade necessária. A política do país, justificativa de Anders ao cometer o atentado, é pouco discutida, dando mais atenção à reação da população e sobreviventes, e as decisões tomadas em relação a prisão ou internação do culpado.

22 de Julho é tenso em seu primeiro ato e tocante nos dois restantes, com uma boa direção, e parte técnica excepcional. Porém, peca pelo excesso de histórias que se propõe a contar e o idioma questionável escolhido para ser falado. É sentido o peso da direção de Greengrass em alguns momentos, mas o sentimento de que o filme poderia ser muito mais é maior. Vale o tempo investido, mas é preciso ter em mente que, talvez, o que será visto não está a altura do que é esperado.

3.5

RESUMO:

22 de Julho é um tocante retrato de um evento aterrorizante que marcou a Noruega, mas que não alcança as expectativas.

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Gabriel Granja

Jornalista apaixonado pela sétima arte. Acredita que o cinema tem o poder de mudar pensamentos, pessoas e o mundo. Encontra nos filmes e séries um refúgio para o caos da vida cotidiana.