Crítica | ‘Felicidade por um Fio’ acerta ao falar da transição capilar de uma mulher negra

Representatividade é uma palavra frequente no vocabulário da Netflix. É notável a tentativa da empresa em trazer diversos títulos de filmes e séries que exalem esse elemento para o público. E isso é, claramente, um ponto positivo dos produtos que vêm sendo inseridos semanalmente no catálogo do serviço. Felicidade por um Fio é o mais novo filme original Netflix que busca dar olhares à um assunto que não é discutido com frequência no cinema e televisão, a transição capilar.

Adaptado do livro “Nappily Ever After” e dirigido pela primeira mulher cineasta da Arábia Saudita, Haifaa Al-Mansour, Felicidade por um Fio segue a história de Violet Jones (Sanaa Lathan), mulher bem-sucedida que trabalha em uma agência de publicidade e que tem, aparentemente, a vida perfeita com um trabalho perfeito, namorado perfeito, e principalmente, cabelo perfeito. Até que tudo desmorona quando um esperado pedido de casamento não acontece.

A premissa pode parecer simples e, a princípio, até boba, mas o filme não se mantém na primeira base e tenta mostrar o lado da vida de uma mulher negra que não costuma ser visto. Violet mantém uma rotina de cuidados com seu cabelo desde sua infância. Sempre cuidados por sua mãe (Lynn Whitfield), a moça sempre foi muito preocupada com beleza capilar e, muitas vezes, era impedida de ser criança para que seus cabelos se mantivessem perfeitos. Essa realidade é muito bem mostrada por uma cena em que Violet desobedece às ordens de sua mãe de não entrar na piscina.


O filme se mantém forte quando foca em Violet e sua transição capilar. A personagem decide se libertar dessa pressão com a perfeição raspando sua cabeça e criando uma vida nova a partir dali. Toda a representatividade envolvida nesse assunto é muito bem-vinda e traz um retrato realista da vida de muitas mulheres. Os diálogos são bem escritos, e o filme procura tratar o tema com delicadeza, simplicidade e, muitas vezes, com humor. Funciona, e deixa o filme gostoso de acompanhar.

Porém, por mais o que o assunto seja de relevância e o tom usado para representa-lo seja um acerto, o filme peca ao ser dividido em 6 partes com cada uma representando uma fase do cabelo da protagonista. Essa divisão faz parecer que a ideia original era criar uma série de TV desenvolvendo cada uma das fases capilares de Violet, em diferentes episódios, mas que foi deixada de lado na metade e tudo foi reunido em um filme de 1h30min.

Os problemas voltam a aparecer quando o filme torna o romance seu foco principal. A vida amorosa da protagonista possui bastante atenção, e em alguns momentos, mais do que deveria. A aparição de Richard (Ernie Hudson) seria interessante se o roteiro desenvolvesse o relacionamento do personagem com Violet, mas no fim, ele aparece e sai do filme com a mesma facilidade a qual entrou.

O relacionamento com seu ex-namorado Clint (Ricky Whittle) é problemático pelo mesmo motivo. Não há um desenvolvimento de nenhum relacionamento envolvendo Violet, o único pertinente é o de amizade com a filha de Richard. Os momentos entre as duas rendem bons diálogos e reflexões para o espectador, reforçando que o filme funciona bem mais quando foca nos problemas e dilemas capilares.


Ao final, Felicidade por um Fio é um filme que poderia ser muito mais, mas acaba ficando na zona de conforto. Ele funciona ao tratar de transição capilar, mas desliza nos momentos românticos. Se o filme focasse somente no drama principal da personagem ele seria muito maior, e mais impactante. Mas, não ofende, diverte, e é uma boa distração para um domingo de chuva.

3

RESUMO:

Felicidade por um Fio poderia ser maior e mais impactante, mas diverte, e funciona ao retratar a vida de uma mulher em transição capilar.

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Gabriel Granja

Jornalista apaixonado pela sétima arte. Acredita que o cinema tem o poder de mudar pensamentos, pessoas e o mundo. Encontra nos filmes e séries um refúgio para o caos da vida cotidiana.