Laranja Mecânica: um método fascista

Análise do filme Laranja Mecânica, de Stanley Kubrick. Contém spoilers.

O filme

Em Laranja Mecânica, Alex (Malcolm McDowell) e sua gangue barbarizam pelas madrugadas. Adeptos da “ultraviolência”, espancam mendigos, brigam com gangues rivais e invadem casas com o intuito de aterrorizar inocentes e estuprar. Alex e seu grupo não respeitavam nada, impulsionados por um prazer perverso, desconheciam qualquer limite, unidos se sentiam invencíveis e onipotentes.

Em muitos momentos, o filme é extremamente sexualizado com muitas insinuações, símbolos fálicos mais ou menos explícitos, no bar em que o protagonista e seu bando frequentam há manequins de mulheres nuas, bebem leite de seus seios. Apesar da brutalidade, a gangue age e fala de uma forma infantilizada por meio de gírias estranhas, propiciando um toque perverso ainda maior.

Durante o dia, Alex e seus amigos são jovens comuns de classe média que frequentam a escola, com uma família relativamente estruturada. No decorrer da história, Alex comete uma série de excessos, inclusive com um dos membros de sua gangue. Um dia, ele se sente desafiado por um dos componentes do grupo, o qual acredita ter sido sarcástico com ele. Depois disso, o castigou com um corte na mão.

Em uma noite, decidem invadir outra casa. Deste vez Alex entrou sozinho, e lá havia apenas uma mulher, que se arriscou a lutar com ele. Durante a briga, Alex a feriu mortalmente, e assustado, tentou fugir. Seu grupo estava na porta aguardando, mas acertaram o seu líder com uma garrafa de leite na cabeça e o deixaram para ser capturado pela polícia.

Na cadeia, para cumprir a sua pena em pouco tempo, Alex  se submente a um novo tratamento, o método Ludovico. Essa terapêutica tinha o intuito de curar a marginalidade e a perversão dos prisioneiros, tornando-os dóceis e reabilitados para a sociedade. O jovem delinquente foi exposto a uma série de filmes com uma temática violenta e brutal; com espancamentos e estupro coletivo. Durante todo o experimento, Alex ficou amarrado com uma camisa de força e com presilhas atreladas aos olhos para que estes permanecessem abertos o tempo todo.

No princípio, o protagonista se excitou com as cenas, mas logo em seguida, ficou transtornado, chegou a implorar para interromperem o filme. O curioso é que o elemento mais perturbador tenha sido a Nona Sinfonia de Beethoven como trilha sonora dos filmes. Para Alex, era insuportável associar essa sinfonia magistral com todas as crueldades exibidas.

Depois de cumprir o tratamento em menos de duas semanas, o rapaz foi considerado curado. Entretanto precisava passar por uma prova final. No auditório da prisão foi testado e assistido pelos guardas e funcionários. Na primeira etapa foi xingado, humilhado, espancado e obrigado a lamber a bota do seu algoz. Na última etapa, uma moça seminua ficou parada na sua frente lhe tentando, apesar do impulso em tentar toca-la, ele não consegue e acaba passando mal.

O método Ludovico, nada mais é do que uma espécie de lavagem cerebral somada a técnicas de condicionamento. Os cientistas criaram uma forma de associar os comportamentos violentos e sexualizados de Alex com sensações fisiológicas desagradáveis, como o enjoo e a paralisia. Cada vez que ele tivesse pensamentos agressivos, esses mecanismos condicionados entravam em ação.

Enfim, Alex foi libertado e muitas coisas haviam mudado desde a sua prisão, ocorrida há dois anos. Ao chegar em casa se depara com um novo inquilino, seus pais alugaram o seu antigo quarto para ele. Além disso, seus pais estavam felizes com o novo hospede e passaram a trata-lo como um filho, inclusive o inquilino é bem parecido fisicamente com Alex.

Sem ter aonde ficar, decide seguir sozinho a própria sorte. Aos poucos, o errante protagonista reencontra as figuras de seu passado abusadas por ele, dessa vez, terão a oportunidade de se vingar dos crimes de Alex e o torturarão sem piedade, desde o mendigo espancado gratuitamente no começo do filme, até seus antigos amigos, agora policiais, o surraram implacavelmente.

Completamente abandonado, encontra a casa que invadiu com os seus amigos e lá foi acolhido. O dono da casa o reconhece a aproveita a chance de torturá-lo ao som da Nona Sinfonia. Preso em um dos quartos, Alex surtou, se jogou pela janela e foi internado no hospital.

Depois do escândalo, o governo foi condenado pela mídia por ter utilizado o método Ludovico, mostrando-se um fracasso. Entretanto, para aplacar as acusações, o ministro falou pessoalmente com Alex e fazem um acordo. Após o trauma da tentativa de suicídio, a lavagem cerebral perdeu o efeito, o protagonista volta a ter pensamentos perversos e com a garantia de que terá um emprego e uma vida digna.

O fascismo em Laranja Mecânica

Laranja Mecânica nos proporciona uma ótima reflexão referente a políticas fascistas, aparentemente bem intencionadas, preocupadas em controlar o crime e a marginalidade. De fato, Alex e seu grupo de delinquentes representavam uma ameaça social considerável, uma espécie de sintoma resultante das falhas e dos excessos civilizatórios, seja pela libertinagem vivida por eles ou pelo moralismo social.

Ao capturarem o protagonista, apesar de ter sido voluntário do experimento, o governo enxerga uma oportunidade de elaborar uma técnica adestradora de criminosos, em que Alex seria a primeira cobaia a ser testada. Apesar da finalidade aparentemente benéfica, não existe uma preocupação em educar ou reabilitar os criminosos. Não é dada importância aos aspectos psicológicos dessas pessoas.

Ao sair da cadeia, as vítimas de Alex não hesitam em mal tratá-lo, por ser um ex-presidiário, ainda que teoricamente curado da sua perversão, ele não é mais considerado um cidadão, apenas um corpo destituído de direitos e da sua própria existência.

Assim como no caso das vítimas de Alex, o fascismo surge e ressurge a partir de um sentimento de vingança dentro de um contexto de crise. Talvez um dos grandes fascínios do fascismo seja essa permissão em descarregar um sadismo contido dentro de nós sem termos que nos preocupar com o outro ou em respeitar as diferenças. No filme há uma inversão importante, as vítimas se tornaram os abusadores de seu abusador. Nelas o fundo são tão cruéis quanto ele, o espírito do fascismo está em todos, cabe a nós controla-lo.

Depois de quase 47 anos, Laranja Mecânica se mostra atual e um dos grandes clássicos do mestre Stanley Kubrick, adaptado da obra de Anthony Burgess. A atuação de Malcolm McDowell foi tão grandiosa que o ator ficou marcado por esse papel, participando apenas de mais algumas produções famosas como Calígula.

O roteiro se mostrou fiel ao livro com algumas pequenas diferenças entre eles. Talvez a maior discrepância seja o final do filme; no livro há ainda mais um capítulo, entretanto a edição americana escolheu cortar esse capítulo, o que pode ter influenciado na adaptação de Kubrick.

A maior lição que pode-se extrair desse clássico é o equívoco em tentar transformar pessoas “ruins” em “boas” pelo meio da força e do adestramento. Ao tentarmos eliminar a perversão nos tornamos fascistas e ainda mais perversos.

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Psicólogo clínico, apreciador de filmes, séries e literatura desde criança. Esforça-se em fazer relações entre entretenimento e psicanálise, suas duas maiores paixões.