Crítica | Better Call Saul 4×10: ‘Winner’ é um divisor de águas para Jimmy, Mike e a série

Logo na primeira cena de Winner, uma cena bastante característica dos flashbacks de Jimmy (Bob Odenkik) em Better Call Saul se repete. Enquanto Chuck McGill (Michael McKean) está sério, seu irmão se diverte de forma descontraída. Outro ponto bastante específico desta relação também é exposto. Logo após Jimmy assassinar uma música do Abba “The Winner Takes It All” no karaokê, Chuck sobe ao palco sob resistência, mas ofusca o irmão com uma performance surpreendente.

O flashback é colocado aqui de forma muito perspicaz. É uma forma de olhar para o passado, mostrando a forma como a relação entre os irmãos se dava. Eles estavam ali comemorando o fato de Jimmy se tornar, finalmente, um advogado. Chuck sempre foi um dos grandes motivos para Jimmy se tornar um homem da lei, mesmo que a lei, para ele, seja um meio de provar sua capacidade para o irmão.

Também há uma rima narrativa com o futuro de Jimmy. Na ordem dos advogados, em sua apelação, Chuck volta novamente a ser o centro das atenções, e a razão para o retorno do irmão mais novo aos tribunais. Durante todo o episódio, como parte do plano de Kim Wexler (Rhea Seehorn) para convencer a Ordem dos Advogados, vemos um coquetel para sensibilizar os membros do comitê, em memória do brilhante advogado que ele foi. É como se todo o arco mostrado durante essas quatro temporadas, que girou em torno desta relação entre eles, estivesse sendo fechado para uma nova etapa.

Da mesma forma, a jornada de Jimmy durante essas quatro temporadas se completa em WinnerUm ponto muito importante a destacar aqui é o paralelo que é traçado entre ele e uma nova personagem apresentada, Christy Esposito. Durante a escolha do jovem que iria ganha uma bolsa da HHM, Jimmy pediu a Howard (Patrick Fabian) que fosse feita uma nova votação.  Somente ele escolheu a menina, que depois descobrimos ser uma espécie de “Jimmy Sabonete” de sua geração, com a qual ele se identifica.

Após quatro temporadas completas, está mais do que certo que Better Call Saul não é uma série sobre Saul Goodman, ou apenas um prequel sobre como todo o universo de Breaking Bad surgiu. É um estudo de como um personagem essencialmente bondoso se corrói por dentro, quase que morrendo por dentro, dando lugar a uma nova persona, de forma paulatina. A paciência com a qual os criadores Vince Gilligan e Peter Gould traçaram o caminho para que Jimmy cruzasse a linha foi uma jornada paciente e que, finalmente, atinge o seu ápice.

A cena final de Winner é mais do que emblemática. É um renascer obscuro para Jimmy, que após convencer os membros do comitê de maneira emocionante, mostra que aquilo fazia apenas parte do jogo. O “It’s all good, man”, expressão já explicada e dita pelo protagonista algumas vezes, agora deixa de ser apenas uma fala, ou um trocadilho. Aqui ela toma forma e faz nascer definitivamente (com nome comercial e tudo) o Saul Goodman como conhecemos.

Se tem uma série que consegue provocar uma reflexão sobre o efeito das atitudes na vida de uma pessoa, ela é Better Call Saul. Olhando para o futuro, quando vemos Jimmy em Omaha vivendo como Gene, pensamos em toda a sua jornada, desde suas pequenas transgressões, passando pela correspondência na HHM, sua vida frustrada como advogado, a fase Saul Goodman, e por fim, uma vida de exílio tenso e melancólico. É verdade que Walter White é um dos personagens mais bem escritos e complexos das Eras de Ouro da TV. Mas, Jimmy McGill caminha nessa direção, ainda que sem o devido reconhecimento.

Mais que um buraco no chão

Outra jornada muito bem definida para esta temporada de Better Call Saul foi a de Mike Ehrmantraut, que deu a Jonathan Banks uma oportunidade não proporcionada em Breaking Bad. Mesmo sendo um personagem querido pelo público, a série de origem não se aprofundou tanto em seu caráter quanto em Better Call Saul, e da mesma forma, a quarta temporada foi a que melhor definiu sua pessoa, e também é um divisor de águas para Mike.

Algumas reclamações sobre a temporada residem no fato de que a construção do laboratório demande tantos episódios. Isso acontece de fato, mas a participação de Mike na temporada se trata de uma relação entre escolhas e consequências.

Nos primeiros episódios, Mike não quer ser apenas um consultor de segurança que recebe o cheque e não faz nada. Então ele decide visitar as instalações da Madrigal, além de provar toda a sua capacidade operacional. Isso o coloca em uma posição de confiança para com Gus Fring (Giancarlo Esposito), que precisa construir o laboratório para ampliar os seus negócios.

A princípio, a trama do laboratório parecia deslocada e aparentemente inofensiva. Vemos Mike recrutar alguns engenheiros para conhecer a lavanderia, até que Werner e sua equipe sejam contratados. É impressionante os rumos que esse arco toma. De aparentemente descolocado e inofensivo, a trama assume um contorno extremamente tenso e dramático, a partir da relação construída entre o engenheiro e o “consultor” de segurança.

As pistas falsas também foram responsáveis pela virada que a jornada de Mike possui. Desde o início, a peça problemática da equipe era Kai, tido como aquele que causaria problemas para Gus. Mas o roteiro soube despistar todas as expectativas, trazendo o problema para Werner, que ingenuamente só queria ver a esposa e voltar após um puxão de orelha, não compreendeu a gravidade da situação.

Vince Gilligan e Peter Gould colocaram público diante de um beco sem saída em Winner. Uma vez que a confiança de Gus Fring é traída, o que acontece é inevitável. A amizade entre Mike e Werner e o destino do engenheiro não foram suficientes para que o trabalho não fosse feito. Mike deveria fazer o que tinha que ser feito, e no final das contas, o máximo que ele pode fazer foi uma concessão para que o alemão ligasse para a esposa.

Mais uma vez o peso das consequências recaem sobre as escolhas feitas pelos personagens, com a coerência lógica construída dentro do universo de Breaking Bad/Better Call Saul. Inevitavelmente, Mike iria cruzar a linha em algum momento. Inevitavelmente, Werner não sairia impune dessa. Inevitavelmente, agora, Mike se torna uma nova pessoa, mais assustadora, com a qual Gale cruza no fim do episódio. O silêncio e a expressão de Jonathan Banks são suficientes.

Últimas palavras

* Como é bom ver Michael McKean mais uma vez em Better Call Saul. Sua presença sempre estabeleceu a tensão entre os irmãos McGill, e desta vez, um momento diferente e mais tenro marcou a participação de Chuck.

* Uma das participações mais bacanas que a série costuma mostrar é a equipe de filmagem de Jimmy. Eles já haviam aparecido na farsa que ajudou Huell a sair da cadeia. Agora, eles aparecem durante o coquetel em memória de Chuck, fazendo parte do serviço de buffet da festa.

* Ainda sobre a equipe de filmagem, sabe como os nomes dos personagens aparecem creditados em todos os episódios? Camera Guy, Soung Guy e Make-Up Girl.

* A reação de Kim ao cinismo de Jimmy é um misto de decepção e perplexidade. Mesmo promovendo uma série de eventos que induziram os membros do comitê a votarem favoravelmente, no fundo, ela demonstra bastante decepção com a atitude dele.

* Se a jornada de Jimmy na quinta temporada é uma incógnita, pelo menos já temos uma definição quanto ao grande embate do quinto ano da série. A rivalidade entre Lalo e Mike deve ser explorada, e o membro da família Salamanca parece querer reunir todas as informações possíveis sobre as operações de Gus Fring. A conferir.

* A última cena entre Mike e Werner é uma daquelas que ficarão marcadas na memória.

* Tony Dalton é uma ótima adição ao elenco de Better Call Saul. Sua participação no episódio é praticamente um curta-metragem de perseguição entre Lalo e Mike. É um verdadeiro jogo de gato e rato, e as cenas em que eles tentam conseguir o que querem, cada um a seu modo, além da fuga do estacionamento, são as melhores do episódio.

* O arco de Nacho (Michael Mando) não foi explorado nesse episódio final, e parece que sua participação na temporada atendeu ao propósito de trazer outros Salamancas para o jogo, como os ameaçadores primos e o recém chegado Lalo, agora que Hector está fora do jogo.

* Um easter-egg: o caderno de Gale está com ele, na visita ao futuro laboratório.

Obrigado a todos por nos acompanhar nessa jornada! Para conhecer nossas críticas de séries e filmes, clique aqui.

Até a próxima temporada!

5

RESUMO

Winner é um verdadeiro divisor de águas em Better Call Saul, com Mike e Jimmy sendo levados para caminhos sombrios.

DEIXE SEU COMENTÁRIO

Léo Barreto

Carioca, apreciador de filmes e séries em tempo integral, quando o Bernardo (filho dele) deixa. Iniciou sua admiração pela sétima arte com os clássicos da sessão da tarde e se apaixonou pelo mundo das séries quando o Voo 815, da Oceanic, caiu misteriosamente em algum lugar no meio do nada...