Crítica | Better Call Saul 4×09: ‘Wiedersehen’ e o significado da lei

O que a lei significa para Jimmy McGuill? Nem ele sabe. Desta forma, Wiedersehen colocou o protagonista, que tem passado toda a temporada se dando bem com sua lábia, em uma encruzilhada. Isso porque, a temporada toda girou em torno do que Jimmy iria fazer enquanto não voltaria a ser advogado, e como esse tempo iria exercer influência em seu caráter. Mas, e agora?

A resposta sincera que a banca avaliadora deveria ter ouvido de Jimmy seria que a lei era uma forma de conseguir a admiração de Kim e Chuck. A propósito, a lei era tudo para o seu irmão. Você pode até não ter gostado do caráter esnobe e por muitas vezes arrogante do personagem, mas se tem uma coisa que sempre esteve acima de tudo para Chuck, era a lei.

Ao invés disso, Jimmy fala sobre a sua faculdade e todo esforço para se formar em por correspondência (o que seria muita mais fácil hoje em dia) e entrar para a Ordem dos Advogados. Ele também fala em seu belo discurso de todos que ajudou. Essa é a temporada que ele mais está enrolando os outros, mas no momento crucial, isso não adiantou.

Ora, a lei para Jimmy é um meio, não um fim. Não é um ideal. A lei é a forma com a qual ele poderá ser aceito em seu núcleo familiar e amoroso. E no meio do caminho, por conta desse anseio, tudo vem desembocando em um espiral de pequenos acontecimentos que tornam sua jornada em direção a Saul Goodman. A série tem nos mostrado isso, episódio a episódio, através de pequenos desvios de conduta. Mas é a lei, e sua essência, que provavelmente irá impulsionar definitivamente essa mudança.

A discussão entre Jimmy e Kim coloca a relação dos dois novamente em uma posição curiosa. “Você está sempre numa pior” é a constatação realista e fria de Kim.Mas não mentirosa. Temos que admitir, ela é quem mais fez coisas boas por Jimmy, o apoiando moralmente, e quem invariavelmente retorna para acolhe-lo. O que será que ela quer dizer quando questiona Jimmy  sobre ele ainda querer ser advogado? Qual será o coelho que sairá de sua cartola dessa vez?

O espírito altruísta de Kim é responsável por moldar esse caráter bondoso, mesmo que para isso ela aplique golpes, como aquele das cenas iniciais do episódio. É o que a leva ao tribunal para defender os párias (ou nem tanto) da sociedade, resgatando sua paixão pelo direito. A propósito, Kim parece ter muito bem definido, para si, o que é a lei, e o que ela significa para si. É justamente, também, aquilo que deverá definir o seu futuro.

Rota de colisão

A tensão entre Gus Fring e os Salamanca é recorrente, e continua a reverberar. É interessante a forma como Vince Gilligan e Peter Gould introduziram o novo personagem, Lalo. Isso coloca os Salamanca em uma posição de ameaça, ainda. Além disso, é o que torna a necessidade de precaução de Fring ainda maior.

Esse núcleo parece estar disposto a fornecer os melhores fãs-services da temporada e amarrar completamente todo o passado de Breaking Bad. Já era sabido que o “ding-ding” de Don Hector estava chegando. Mas a atenção com a qual a direção e o roteiro dão ao surgimento do famoso sininho dão ao episódio mais reverência ao universo de BB do que realmente um acréscimo a trama.

Porém, o mais interessante aqui é analisar as intenções de Lalo. Ele propõe a Fring uma parceria para romper com Don Eladio. Ora, na verdade, devido ao seu caráter ainda incerto, me parece muito mais uma tentativa de entregar Fring de bandeja ao chefe do Cartel, em uma armadilha. Já sabemos que isso provavelmente não ocorrerá, mas é interessante acompanhar esse movimento.

Deixou passar, Mike

Para quem está ambientado com a duração de um empreendimento de construção civil, fica fácil supor que a obra do laboratório de Gus não levaria apenas alguns meses. O que está acontecendo com Werner é o efeito do isolamento refletido diretamente em sua saúde. A essa altura do campeonato, ele já sabe que não possui um empregador que aceitaria uma simples demissão. A fuga é uma medida desesperada.

Mas, de que forma isso contribui para o desenvolvimento de Mike na história? Do ponto de vista narrativo, a construção do laboratório não possui grande importância, uma vez que sabemos muito bem que ele irá operar, e como isso acontecerá. No entanto, o desenvolvimento do personagem é beneficiado, com Jonathan Banks tendo a oportunidade de ir um pouco mais além em sua atuação, geralmente presa ao que o Mike tem a oferecer.

Essa temporada tem proporcionado isso a Mike, desde sua relação com o grupo de apoio, passando pela mudança de emprego e conquista da confiança de Gus, até agora, com maiores responsabilidades e tendo que decidir entre decisões racionais e emocionais, a partir de sua relação de amizade com o engenheiro. E isso foi construído justamente para gerar um conflito, que é apenas mais um entre os tantos que veremos no encerramento desta temporada.

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RESUMO

Criando situações de conflito em diversos núcleos, Wiedersehen coloca Jimmy McGuill em situação desconfortável e surpreende ao não apontar o caminho natural que a quarta temporada de Better Call Saul havia traçado.

Léo Barreto

Carioca, apreciador de filmes e séries em tempo integral, quando o Bernardo (filho dele) deixa. Iniciou sua admiração pela sétima arte com os clássicos da sessão da tarde e se apaixonou pelo mundo das séries quando o Voo 815, da Oceanic, caiu misteriosamente em algum lugar no meio do nada...