Dicas de Terror | Uma dobradinha indepentente: ‘Resolution’ e ‘O Culto’

Temos aqui uma dobradinha produzida por uma dupla de cineastas produtores de filmes independentes, Justin Benson e Aaron Moorhead. Antes de tudo é preciso que se mencione que em ambos os filmes, o termo “filme independente” é algo que realmente conduz a essência dessas obras. Muitas vezes é possível enxergar – com certo desprazer em alguns casos – a influência que muitos estúdios, motivados pelo retorno financeiro dos filmes, exercem sobre o trabalho de diretores dotados de assinatura e estilos cinematográficos próprios, mas que acabam por produzir obras genéricas e que não contém as características desses artistas.

Por um lado, essa lógica é compreensível, uma vez que o cinema, além de tudo, é uma indústria e conta com filmes cada vez mais caros. Por isso, é mais do que natural que os estúdios, responsáveis pelo investimento, controlem suas obras, optando por caminhos não tão arriscados e que assegurem altos números no que se diz respeito à bilheteria para garantir que os filmes paguem os custos de sua produção – prevenindo prejuízos – e que gerem lucros, garantindo assim o futuro dos mesmos no ramo cinematográfico.

O problema é que quando a indústria é inundada com obras que não se arriscam, o público é o maior prejudicado ao ser obrigado a assistir continuamente mais do mesmo, sem originalidade. Portanto, é sempre um respiro quando um diretor independente, sem vínculos com estúdios ou empresários que controlem suas obras, nos presenteia com um filme original.

Resolution (2012)

Não é correto afirmar, porém, que todos os filmes independentes são bons simplesmente pelo fato de serem independentes. Nem o oposto, que seria afirmar que todas as obras milionárias que tenham grandes estúdios nos bastidores são obras ruins. O que podemos dizer com veracidade é que quando não há influência de terceiros, o responsável pela obra pode gravar tudo aquilo que tem vontade e isso o permite expressar todos os seus sentimentos na obra audiovisual. Claro, tudo o que sua criatividade e recursos – muitas vezes limitadíssimos – possam permitir.

Nesse caso, temos dois filmes cujos responsáveis esbanjam talento e força de vontade. Graças a isso, Benson e Moorhead entregam obras fantásticas que, apesar de serem compostas por diversos elementos narrativos, podem ser categorizadas como obras de horror.

Em Resolution (2012), acompanhamos dois amigos, sendo que um deles, motivado pelo estado precário e autodepreciativo do outro, acaba por manter seu companheiro trancafiado em uma casa no meio da floresta, para que ele possa se desintoxicar das drogas que estão acabando com sua vida. Os problemas começam quando coisas estranhas – e inexplicáveis – começam a acontecer com os dois.

Resolution (2012)

O filme possui um ritmo lento e cenas bastante enigmáticas. É o tipo de obra que te faz se perguntar se está de fato acontecendo algo na tela, pois ao mesmo tempo que aparenta que nada está ocorrendo, as suspeitas vão crescendo a cada frame graças a pequenos detalhes que surgem inesperadamente. Trata-se de um filme com uma premissa simples, mas que vai se tornando complexo conforme vai se desenvolve. Uma história com estranhas reviravoltas, e que levanta mais perguntas do que responde.

Com uma direção de fotografia simples e rudimentar, inclusive contendo cenas com bastante granulação graças ao baixo orçamento, Resolution possui uma direção bastante sagaz, que sabe aproveitar essa aparência a seu favor. Com certeza vale a pena ser assistido.

Quanto a segunda obra, O Culto (The Endless), bem mais recente (2017), vemos as consequências dos eventos narrados no primeiro filme. Uma sequência responde algumas das questões levantadas em Resolution, mas não todas. Aqui, os diretores atuam como protagonistas. Eles mais uma vez fazem jus à nomenclatura de cineastas independentes, pois estão envolvidos em todas as fases da produção, inclusive como atores, o que nos diz muito sobre os famosos “faz tudo” envolvidos nessa categoria.

O Culto (2017)

O longa conta a história de dois irmãos, que após muito tempo, resolvem retornar à comunidade onde cresceram. A questão é que quando jovens, os dois abandonaram essa região por alegarem que os seus moradores participavam de um estranho culto que prestava homenagem a seres alienígenas, onde as pessoas viviam de forma alienada e eram inclusive castrados em prol de seu misterioso credo.

Porém, quando os irmãos se veem novamente na comunidade, se depararam com pessoas que aparentemente não participam de culto nenhum. Pelo contrário, eles se mostram como verdadeiros bons anfitriões e os recebem com grande hospitalidade e amizade. Mas como nem tudo são flores, coisas estranhas também começam a acontecer nessa segunda empreitada e a dupla se vê metida em complexos problemas, algo que vai muito além de um misterioso culto na floresta.

A direção de fotografia de O Culto é amarelada, com pouca saturação e sem vida, o que ajuda a contar uma história ambientada em uma realidade apática e sem esperança, algo que representa de maneira fiel ao estado de espírito dos personagens. Os movimentos de câmera também constituem outro fator elogiável do longa, bem como os extensos planos sequência, que criam expectativa e nos fazem conjecturar acerca do que está para acontecer.

O Culto (2017)

Nos dois filmes, graças ao baixo orçamento, algumas cenas que contém efeitos visuais possuem pequenos problemas que podem tirar o expectador momentaneamente do filme, porém, não chega a ser algo extremamente grave, pois a direção é bastante inteligente quanto a forma de posicionar a câmera e os atores em relação ao espaço, assim, tornando as cenas, mesmo que com efeitos em computação gráfica, o mais natural possível.

Resolution e O Culto são filmes de horror com suspense e drama, mas são longas para serem apreciados com paciência e muita atenção, uma vez que muitas pistas são espalhadas ao longo do enredo e o quebra-cabeça que é montado no final não responde a todas as perguntas que são feitas. Isso, por si só, é mais um dos atrativos dos filmes. Afinal, quem não gosta de um pouco de mistério?

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Jeziel Bueno

Cineasta independente e amante de filmes e séries. Nutre uma intensa paixão pela habilidade que só o ser humano tem de transmitir os aspectos de sua alma por meio da Arte...