Crítica | ‘Venom’: Tom Hardy é o que há de bom em uma história de origem genérica e cheia de clichês

Há um período anterior ao grande boom de filmes de super-heróis que certamente não foi marcado obras memoráveis do sub-gênero em questão. Antes do pontapé inicial dado pela Marvel com Homem de Ferro (2008), ou até mesmo a bem sucedida trilogia da DC sobre o Cavaleiro das Trevas, iniciada em 2005, tivemos uma série de filmes esquecíveis como Demolidor, o Homem Sem Medo (2003), Mulher-Gato (2004), Elektra e o famigerado Quarteto Fantástico, ambos de 2005. É claro que existem exceções, como a trilogia Homem-Aranha de Sam Raimi, que só não foi excelente como um todo por conta do terceiro filme, que curiosamente nos mostrou a primeira versão cinematográfica do Venom.

Mas, o que exatamente isso tudo tem a ver como Venom, nova produção da Sony Pictures que chega aos cinemas hoje (4)? Todas as histórias em questão reúnem uma série de características em comum: histórias de origem longas e desajeitadas, falta de um conflito que forneça sustentação ao roteiro, diálogos mal escritos e protagonistas que, mesmo se esforçando, não conseguem levar o filme adiante.

Venom não é exatamente igual a esses filmes em todos os aspectos, mas replica em muitos momentos essas características . Sua história de origem, apesar de demorar para engrenar e apresentar inúmeras conveniências de roteiro, não se leva tão a sério, o que é um ponto positivo. Não chega a ser um humor involuntário, pelo menos na maior parte do tempo. Entretanto, a trama genérica se encarrega de estabelecer um antagonista com um desenvolvimento muito parco, enquanto dá atenção ao protagonista sem aprofundá-lo como poderia, mesmo com o carisma de Tom Hardy, que se esforça mas não é beneficiado pelo roteiro.

No filme, Hardy vive o repórter Eddie Brock, que após se envolver em assuntos obscuros, acaba perdendo o emprego. Após uma série de eventos, ele acaba sendo “escolhido” pelo simbionte Venom, uma arma letal que veio parar na Terra após um experimento científico no espaço, e se associa à sua persona.

De fato, o melhor do filme é a relação entre Brock e Venom. A partir do momento em que o simbionte passa a habitar o corpo do repórter, tudo fica mais interessante e divertido. Ver Hardy surtando com sua nova característica e se adaptando a ela confere bons momentos. O problema é o caminho percorrido até ai. A campanha de publicidade do filme vendeu a figura do Venom nos trailers e imagens, mas até que você o veja na tela, em sua plenitude, muita coisa acontece. O roteiro parece querer explicar demais, e acaba transformando o primeiro ato do filme em um ato problemático. E quando uma coisa começa mal, é difícil corrigir.

Há muito Tom Hardy em tela, e se o ator vem passando muito tempo com o rosto escondido em seus últimos papéis (Dunkirk, O Regresso e Mad Max que o digam), aqui ele consegue imprimir uma personalidade interessante ao personagem. Os diálogos, muitas vezes sofríveis, não ajudam muito, mas as cenas de ação que envolvem Brock são boas e chegam a empolgar, como uma intensa perseguição de moto na cidade.

Por outro lado, a ação que envolve o simbionte é confusa e até mesmo, em alguns momentos, caótica. A fotografia que privilegia os tons de azul tornam o filme escuro e frio, mas grande parte da ação se passa a noite, dificultando a compreensão e sendo até um artifício para esconder os efeitos. A criação do Venom em CGI não é ruim, mas também não impressiona, pelo grau de artificialidade que é passado. Além disso, a última sequência e clímax do filme, em especial, possui uma quantidade tão grande de cortes que fica difícil se situar o que acontece em tela.

O elenco de Venom não tem a oportunidade de mostrar um grande trabalho, muito por conta do roteiro. Pelo menos temos aqui Michelle Williams, uma ótima atriz que apesar dos pesares, até convence dentro do que é possível, dando leveza à sua personagem, uma vez que o filme carrega um quê de jocosidade. Porém, Riz Ahmed é um antagonista unidimensional e extremamente canastrão. É aquele tipo de vilão que faz o mal pelo mal, como um cientista por trás de uma organização que utiliza a ciência para fins obscuros. Você com certeza já viu esse filme outras vezes.

O diretor Ruben Fleischer, responsável pelo divertido Zumbilândia (2009) não consegue acertar o tom do filme, também prejudicado pelo roteiro. Além dos diálogos mal construídos, o filme apresenta muitas coincidências e clichês. Fica difícil acreditar que, para ser executado, alguém precise ser levado para uma floresta e bater um papo com quem vai atirar, para no final, não ser morto, é claro. É o tipo de situação muito genérica, que o público pode antecipar o que acontecerá, sem sustos. Além disso, a falta de violência do filme é frustrante. Um filme sobre o Venom poderia ser no mínimo, visceral, mas a classificação indicativa do filme (12 anos) torna as sequências que poderiam ser sangrentas sem sangue e sem sal.

Da mesma forma, uma vez que o filme estabelece que os simbionte sabe tudo sobre seu par compatível, em determinados momentos ele parecer não saber quem são as pessoas. Como assim? Sem falar na compatibilidade de corpos. A história deixa claro que não é qualquer pessoa que é compatível para a simbiose, mas quando o roteiro precisa estabelecer essa compatibilidade, o faz da forma mais conveniente possível.

Se a intenção de Venom era apresentar um personagem complexo e expandir o panteão de vilões e anti-heróis do Homem-Aranha, a missão foi cumprida apenas parcialmente. Já sabemos quem é Eddie Brock e seu simbionte, e uma das cenas pós-créditos evidenciam a intenção do estúdio em realizar uma continuação. Porém, para revisitarmos o personagem, haverá a necessidade de uma história mais envolvente, além de bons antagonistas e, quem sabe, um herói.

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RESUMO

Mesmo com a boa relação entre Tom Hardy e o seu simbionte, Venom tropeça em uma trama genérica, repleta de clichês e conveniências.

Léo Barreto

Carioca, apreciador de filmes e séries em tempo integral, quando o Bernardo (filho dele) deixa. Iniciou sua admiração pela sétima arte com os clássicos da sessão da tarde e se apaixonou pelo mundo das séries quando o Voo 815, da Oceanic, caiu misteriosamente em algum lugar no meio do nada...