O contágio do ódio e a autocracia fascista em ‘A Onda’

O texto/análise abaixo contem spoilers do filme A Onda.

Em A Onda (2008), de Dennis Gansel, um professor de uma escola alemã é escalado para lecionar sobre autocracia. Sem outra alternativa, Rainer (Jurgen Vogel) aceita a tarefa. Durante a primeira aula, ele define esse sistema político, que consiste em regimes totalitários e ditaduras. Mas, o ponto mais importante da autocracia é o poder direcionado exclusivamente na figura de um líder. Ainda na aula de abertura, um dos alunos acredita na impossibilidade do retorno de um sistema autoritário.

Essa questão motivou o Rainer a elaborar uma experiência, em que os alunos deveriam obedece-lo sem questionamentos. No princípio, as regras são simples, os alunos precisam chama-lo de senhor Wenger, como uma prova de respeito. Ao se pronunciarem, precisam ficar em pé e as carteiras ficarem enfileiradas. Um aspecto importante da autocracia é a forma como tende a surgir, geralmente em um contexto de crise. Seja pela desigualdade social, inflação alta, nacionalismo exacerbado, entre outras questões.

Os dias foram passando e aos poucos Rainer foi impondo novas regras, buscando criar uma união entre os alunos e uma disciplina rígida. Para promover uma maior proximidade entre eles, os agrupou em duplas, um com notas boas e outro médias baixas, criando assim uma cooperação. Outra atitude do professor foi criar uma rivalidade com a classe que estuda anarquia, movimento social radicalmente oposto à autocracia.

Outra medida colocada por Rainer foi o uso de uniformes, todos na classe deveriam usar uma calça jeans com uma camisa branca, peças simples e baratas para que todos pudessem ter fácil acesso. Por outro lado, usar uniformes é uma forma de eliminar as desigualdades e as diferenças subjetivas de cada um. Não bastando todos os regulamentos criados, ainda faltava um nome e um símbolo para o grupo, depois de uma eleição, a maioria decidiu que se intitulariam como “A Onda”.

De fato, em um primeiro momento, a formação do grupo por meio dos princípios da autocracia produziram efeitos positivos. Os alunos se tornaram mais unidos, uns protegendo os outros, as médias escolares subiram consideravelmente, principalmente dos alunos com mais dificuldade. Todos estavam se sentido protegidos e amados uns pelos outros, como uma fraternidade. Entretanto, os que se recusam a seguir as normas, como a do uniforme, acabaram sendo excluídos.

Como funciona a mente grupal?

Em uma de suas grandes obras, “Psicologia de Grupo e Análise do Ego”, de 1921, Freud analisa os fenômenos grupais a partir dos comportamentos inconscientes dos sujeitos. A primeira questão primordial para que um grupo opere é a de que haja uma espécie de “mente grupal”, ou seja, dentro de um grupo todos agem e pensam de uma mesma forma como se fossem células compondo um corpo, apagando assim os aspectos subjetivos individuais. Dentro de um grupo é possível realizar uma série de comportamentos, os quais não seriam possíveis caso estivessem sozinhos; ao pertencer a ele, o grau de consciência de uma pessoa pode ser rebaixado, permitindo se livrar momentaneamente da moralidade, da responsabilidade e ser motivado a cometer as maiores barbáries.

Nessa condição, o sujeito é capturado e hipnotizado pela vontade do grupo, perdendo assim a sua capacidade crítica, predominando assim uma personalidade inconsciente. Grupos costumam ser volúveis, facilmente irritáveis e descontrolados, heroicos e covardes ao mesmo tempo.

Segundo Freud, um dos elementos mais importantes na manutenção de um grupo é a figura do líder. Quanto mais baixo for o nível intelectual dos componentes do grupo, mais fácil será manipula-los e mantê-los hipnotizados. O indivíduo, a partir do poder do líder e do grupo, abandona o seu ideal de eu e o projeta no grupo e nos valores deste.

Um outro mecanismo importante é a identificação. As pessoas tendem a se identificar com quem possui aspectos em comum, por exemplo no caso dos sujeitos que compartilham da mesma religião. O líder tem um papel importante no grupo, pois é aquele que direcionará o investimento energético dos membros para alguma finalidade. Por algum tempo, os sujeitos se esvaziam dos seus desejos e necessidades particulares e deslocam para o grupo. Em muitos momentos no filme percebemos isso. Parte dos alunos não gostam de certas regras, mas se submetem a vontade da maioria.

Em A Onda, aos poucos, a experiência sai do controle e parte dos alunos cometem atos de vandalismo e picham vários lugares da cidade com o símbolo da Onda. Em um incidente, compram briga com uma gangue de anarquistas e vão se tornando cada dia mais violentos e fanáticos. É interessante pensar que o experimento autocrático durou apenas uma semana e em pouquíssimo tempo, uma classe de alunos abraçou tão rapidamente os princípios de um regime fascista.

No último dia do experimento, o professor finge motivar os discípulos a ampliar o movimento, dominar a Alemanha e acabar com os políticos, sem perceberem o quanto vão se engajando nestas atrocidades. No final do discurso, o professor mostra para eles como aderiram o fascismo tanto quanto os alemães na década de 1930. Por último, declara o encerramento da experiência. Uma parte dos estudantes recusou o término, um deles estava armado e ameaçou atirar caso não continuassem com a Onda. Outro aluno duvidou que a arma fosse de verdade e foi baleado.

Para terminar a tragédia, o estudante armado se suicida, e o professor foi responsabilizado por todos os crimes dos discípulos, sendo consequentemente foi preso. É importante observar que no começo, Rainer parecia ter o domínio sobre o experimento. Entretanto, após alguns dias, foi seduzido pelo poder adquirido. No último dia, apesar de ter retomado a consciência e reconhecer que havia ido longe demais, já era muito tarde.

Aprendendo com os fatos

A Onda é um filme baseado em fatos, mas ao invés da experiência ter ocorrido na Alemanha, ironicamente ela foi realizada nos Estados Unidos e durou apenas 5 dias. Ainda que não tenha tido um desfecho tão trágico quanto o do filme, os alunos americanos esboçaram reações similares como as mostradas no filme.

A lição que aprendemos com essa história é de que regimes autoritários podem surgir em qualquer lugar. A partir do momento em que vivenciamos uma experiência de crise, seja política, social, ou econômica, nos sentimos desamparados e carregados de ódio. Com a chegada de um líder, capaz de nos unir a um grupo, nos sentimos ilusoriamente mais fortes e confiantes, mas em troca, abrimos mão da nossa liberdade e do senso crítico. No fundo, todos nós possuímos um aspecto fascista dentro de nós, sob certas circunstâncias, caso não tomemos cuidado, este monstro pode ser despertado.

No caso do Brasil, há alguns anos temos assistido ao levante de um movimento fascista, aparentemente adormecido desde o fim da ditadura militar, em 1985. Desde meados de 2013, estamos em uma crise interminável em relação a várias perspectivas, seja referente a política, economia, valores éticos e morais. Faltando alguns dias para as eleições presidenciais, vemos o infame Jair Bolsonaro liderar as pesquisas de intenção de voto, com chances consideráveis de se eleger. Esse candidato representa o que há de mais execrável na política, propaga o ódio sendo a favor do armamento da população, além de homofobia, racismo, machismo entre outros tantos preconceitos e ainda o denominam como “mito”.

Caminhamos sem rumo, seguindo cegamente um transtornado e ainda há quem diga ser impossível o retorno de um governo fascista. Independente do país ou do tempo, o autoritarismo é uma ameaça real. Como diria o escritor Charles Bukowski: “Onde quer que a multidão vá, corra na outra direção. Eles estão sempre errados. Por séculos estiveram errados e sempre estarão errados”.

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Dante Carelli Ferrara

Psicólogo clínico, apreciador de filmes, séries e literatura desde criança. Esforça-se em fazer relações entre entretenimento e psicanálise, suas duas maiores paixões.