Crítica | Better Call Saul 4×08: ‘Coushatta’ é um dos episódios mais inspirados da temporada

Uma das melhores coisas sobre Better Call Saul, além da jornada de Jimmy McGuill, é o desenvolvimento dos personagens nunca antes vistos em Breaking Bad. Em Coushatta, esse aspecto é colocado no centro do episódio, que equilibra bem os seus núcleos e constrói uma história que é revelada aos poucos, para culminar em um verdadeiro gran finale.

Outro ponto a ser observado na série é que, a despeito da série de origem, onde era constante a imprevisibilidade de vida ou morte, Better Call Saul se preocupa em construir conexão entre os personagens. É como se o enredo de Peter Gould e Vince Gilligan investisse em situações mais reais, por isso é comum vermos cenas dos bastidores de tribunal ou longas sequências do dia a dia dos personagens. Neste episódio, a conexão entre Jimmy e Kim Wexler chega a um nível onde será impossível não haver consequências para o futuro dos dois.

Roteirista do episódio, Gordon Smith tem em seu currículo outra obra-prima de Better Call Saul: Chicanery. Aqui, a história é muito bem equilibrada, contada com bastante competência e paciência pelo diretor Jim Mckay. Ele busca não apenas trazer para o episódio uma abertura “a la Gilligan”, quando vemos o plano de Jimmy e Kim sendo construído dentro de um ônibus. A maneira como os atores parecem afetados com as situações que acontecem atualmente – em especial Kim e Nacho – e a maneira como a direção nos mostra o que quer dizer (quando você vê Nacho e as identidade falsas sabe imediatamente que elas e o dinheiro são parte de um plano de fuga, sem uma única palavra) contribuem decisivamente para uma combinação entre boa escrita e condução da trama.

Kim é a personagem que mais desperta simpatia nesse universo. Sabemos que ela é uma boa pessoa, embora tenha corroborado com algumas falcatruas de Jimmy, e que continue a apoiá-lo. Isso permite uma conexão com a personagem que desperta não somente uma curiosidade, mas uma forma de temor pelo seu futuro. Muitos fãs de Better Call Saul chegaram a especular onde estaria a advogada anos depois, quando Walter White emergiu em Albuquerque. Na maioria esmagadora das opiniões, algum esquema de Jimmy poderia causar a ela problemas em sua profissão, e até mesmo sua vida, sendo morta ou presa.

Mas a despeito de qualquer culpa direta associada ao futuro Saul Goodman, Kim é fiel ao seu caráter e natureza forte. Ela é resolvida o suficiente para tomar suas próprias decisões, para o bem ou para o mal. A frase “vamos fazer isso de novo” não passa de um novo significado, para nova direção que ela vinha buscando durante a quarta temporada. Talvez não seja a que ela gostaria que fosse, mas é algo que lhe excita (em todos os sentidos).

Todos os riscos assumidos por eles, a partir do plano, são expostos por Jimmy, quase que didaticamente falando ao público. Isso serve para enfatizar o grau de capacidade que a dupla possui. Fazer novamente, para Kim, significa desanuviar a sua mente do cada vez mais enfadonho mundo jurídico-bancário do Mesa Verde (realmente é um porre), o que os episódios anteriores já haviam mostrado com suas idas ao fórum para defender clientes ao melhor estilo Saul Goodman.

Cabe ressaltar outro ponto. A bússola moral de Jimmy é constituída por dois alicerces fundamentais: Chuck e Kim. O primeiro está morto, e a devoção ao irmão, associada ao desejo de querer mostrar a capacidade de ser advogado, sempre fizeram de Jimmy alguém que quisesse legitimar suas ações e seus negócios, mesmo com a persona de “Jimmy Sabontete” dentro de si. O outro pilar é Kim. Com a sua intenção de tornar-se mais cinza, é provável que esse sinal verde para as picaretagens sejam tudo aquilo que Jimmy, inconscientemente, queria.

No fim, o que restará de Saul Goodman em Albuquerque? Apenas uma parede esburacada e um escritório abandonado. Como Kim Wexler se encaixa nessa equação é o grande mistério da série, e uma das coisas que todo entusiasta desse programa deseja saber, especialmente pelo fato de que a maioria dos personagens como Jimmy, Mike, Gus, Hector Salamanca, entre outros, já tem o seu destino definido.

Isso nos leva diretamente ao outro lado da história, que envolve o Cartel. Depois de sofrer sérios ferimentos (que a direção capta em forma de cicatriz), Nacho está de volta, aparentemente em uma situação melhor. Ele tem uma casa mais luxuosa, duas mulheres lhe esperando a noite, além de uma grana escondida em um cofre bem protegido. Na contabilidade, é ele quem assume o posto de Hector, mas a vida definitivamente não é fácil para ele.

Aparentemente mais escaldado e endurecido pelos tiros que levou, além é claro da sombra da tentativa de assassinato que cometeu contra Hector, Nacho agora se coloca em uma posição de liderança que será abalada. É curioso o fato de que, no mesmo episódio em que ele cobra de Krazy-8 uma postura mais agressiva e comanda as ações, a chegada de Lalo, nos últimos instantes, causa uma intimidadora presença, além da esperança de um personagem interessante para o núcleo. A primeira impressão causada pelo ator Tony Dalton foi boa.

A parte mais deslocada do episódio ficou por conta do núcleo envolvendo a construção do laboratório de Gus Fring. Já temos um punhado de episódios em que tanto Fring, quando Mike, se veem presos (literalmente) em uma trama de uma nota só. Porém, se há algo positivo aqui, até porque também estamos falando de vínculo, é a interessante aproximação de Ehrmantraut e Werner.

Com a obra bastante atrasada, o relaxamento na boate serve para criar uma aproximação entre os personagens, além de criar um pequeno conflito envolvendo o problemático Kai. O engenheiro tem papel fundamental para o andamento desse projeto, e também não sabemos o seu destino. Mas talvez, se o episódio transitasse apenas entre os núcleos de Nacho e Kim, não faria tanta diferença assim.

Últimas palavras

* A equipe de filmagem de Jimmy está de volta. Como sempre, ele não tem muita paciência com o trio, mas é divertido vê-los em ação.

* Huell é uma figura de extrema importância aqui, e muito do episódio gira em torno dele. E ele não aparece. E isso é incrível.

* Bob Odenkirk imitando um pastor do Sul dos Estados Unidos é algo, digamos, impagável.

* É incrível que mesmo com a personalidade durona de Mike sempre sendo mostrada, seu lado humano, seja com a neta e nora, ou até mesmo em uma conversa de bar, sempre venham a tona de forma muito competente na atuação de Jonathan Banks, que tem um material muito melhor para atuar na série derivada.

* O site falso que simula as doações para Huell me lembrou na hora sabe o que? SaveWalterWhite.com. Tudo que é criado por alguém surge a partir de uma experiência passada, e certamente o site usado para lavar dinheiro em Breaking Bad pode ter sido resultado de uma memória que Saul teve do passado.

* Pela primeira vez, Jimmy e a Sra. Nguyen (Eileen Fogarty) tem uma conversa sem que ela esteja irritada com ele. Ela se refere a Kim como sua esposa, e ele diz não saber se ela é sua mulher, namorada…ele não sabe. Parceiros de negócios? Talvez seja isso que o episódio nos mostrou.

BETTER CALL SAUL 4X08: COUSHATTA
4.5

RESUMO

Kim Wexler estabelece um novo status quo em “Coushatta”, o que será decisivo para legitimar as ações ilícitas de Jimmy McGuill em Better Call Saul.

Léo Barreto

Carioca, apreciador de filmes e séries em tempo integral, quando o Bernardo (filho dele) deixa. Iniciou sua admiração pela sétima arte com os clássicos da sessão da tarde e se apaixonou pelo mundo das séries quando o Voo 815, da Oceanic, caiu misteriosamente em algum lugar no meio do nada...