Crítica | ‘Buscando…’ é um suspense atual e surpreendente

Não é a primeira vez que tentam inserir o gênero “screenlife” no cinema. The Den (2013) foi o pioneiro ao trazer um filme inteiro visto e acompanhado por meio de uma tela de computador. Amizade Desfeita (2014) deu mais visibilidade ao gênero despertando a curiosidade do público, e sendo o primeiro a ter uma campanha de marketing pesada em cima. A recepção da audiência foi mista, mas que foi o suficiente para gerar uma continuação que será lançada ainda este ano. Buscando… foge do que as duas últimas produções propuseram. Enquanto elas focaram no terror para trazer o “screenlife” à vida no cinema, Buscando… foca no suspense.

Primeiro longa dirigido por Aneesh Chaganty, o estreante diretor traz um olhar atualizado para o gênero e vai além do que foi visto anteriormente. Procurando não se prender somente a tela do computador, o filme procura contar sua história a partir de outros dispositivos também, como smartphones, televisão, câmeras de segurança, e por aí vai. O diretor brinca com a tecnologia atual, tornando a experiência mais imersiva e de fácil identificação.

A trama acompanha a trajetória do viúvo David Kim (John Cho, em seu melhor papel) em busca de sua filha desaparecida. Logo nos minutos inicias, o filme estabelece uma conexão emocional com o público de forma perspicaz e inteligente. Sem uma única palavra sendo dita, a conexão é feita por meio de imagens, vídeos, e uso da interface do antigo Windows XP em que a familiarização acaba sendo imediata. Dito isso, o público é transportado à um universo familiar, mas acompanhado de um ponto de vista totalmente inovador.

É interessante notar que, ao ser obrigado a investigar a vida online de sua filha, David Kim navega por plataformas e sites presentes no nosso dia-a-dia, e que o filme acaba se beneficiando por não trocar os nomes ou tentar dar uma modificada no design original por causa de direitos autorias. O cuidado para deixar cada detalhe o mais realista possível é essencial para que a história se desenrole sem problemas de entendimento ou desconhecimento de algo que está sendo mostrado. Afinal, é um filme narrado inteiramente com a linguagem da internet, se o que está sendo mostrado em tela não é de fácil reconhecimento do público, o filme não funcionaria.

O roteiro é algo à parte e eleva ainda mais a qualidade da obra. Recheado de reviravoltas, Buscando… não deixa a peteca cair em nenhum momento e não se deixa escorregar no buraco do previsível. Nada é o que parece ou está em tela por acaso. Todos os pontos são ligados, não há furos, nem detalhes mal contados. O “screenlife” oferece uma nova forma de acompanhar a história fornecendo pistas nos cantos de tela que somente os mais atentos irão descobrir.

E é esse motivo que nos leva a ressaltar a edição. Ela é repleta de camadas para inserir todas as abas e aparelhos eletrônicos em que o personagem está inserido em cena. Enquanto, por exemplo, vemos o personagem por meio de uma câmera de FaceTime, há ao fundo uma janela de iMessage sendo usada, e mais ao fundo ainda outra janela com diversos sites abertos. Todas essas camadas são usadas a favor do filme, e muitas vezes, usadas para nos fazer conhecer um pouco mais do personagem sem que precise usar diálogos falados para isso. As diversas vezes que vemos David Kim digitando uma mensagem, apagando, e logo após digitando uma nova é um exemplo disso.

O filme busca trazer pequenas discussões colocadas pontualmente em cena com relação ao mundo virtual. Desde catfishing, até assuntos mais sutis, Buscando… tenta impulsionar várias discussões relevantes sem parecer forçado ou fora de hora. Uma pequena cena que mostra a reação da internet ao caso do desaparecimento de Margot (Michelle La) exemplifica perfeitamente isso. Rápida, cômica, mas ao mesmo tempo incômoda, o diretor coloca uma faísca aqui e ali sobre essas discussões sem deixar expositivo.

Ao final da projeção, Buscando… se consagra como um das maiores surpresas e um dos melhores filmes de 2018. Imprevisível e criativo, o longa é um frescor para o gênero do suspense e um novo impulso para alavancar o “screenlife” em Hollywood. Vale ficar de olho nos próximos trabalhos de Aneesh Chaganty.

BUSCANDO...
4.5

RESUMO

Imprevisível e criativo, Buscando… é um frescor para o gênero do suspense, com uma kinfuagem atual e temas relevantes.

Gabriel Granja

Jornalista apaixonado pela sétima arte. Acredita que o cinema tem o poder de mudar pensamentos, pessoas e o mundo. Encontra nos filmes e séries um refúgio para o caos da vida cotidiana.