Crítica | Castle Rock: 1ª temporada é uma rica adaptação da obra de Stephen King

Uma curiosa série baseada nas obras de Stephen King com certeza irá agradar aos admiradores do autor – em específico, aqueles familiarizados com suas obras, particularmente os conceitos abordados na série “A Torre Negra” – mas à primeira vista, poderá desagradar outros públicos. Talvez esse não seja o termo mais correto, confundir é a melhor palavra, especialmente no que diz respeito a conclusão da narrativa e aos eventos que ocorrem nos dois episódios finais da primeira temporada de Castle Rock, do Hulu.

Esta é uma das características de King em sua época de ouro – mais precisamente entre as décadas de 1970 e 1980 -, conhecido por desenvolver histórias extremamente bem escritas, com desenvolvimentos de personagens únicos e brilhantemente apresentados, mas que em não raras ocasiões, apresenta problemas na resolução de suas tramas.

Castle Rock é uma das cidades criadas por King em suas obras literárias, mas não é a única, e outras cidades vizinhas a esta (Chester Mill de “Under The Dome”, por exemplo), também são citadas durante a série, bem como vários personagens e histórias do autor.

Contudo, conforme o enredo vai se desenvolvendo e os personagens vão conquistando o público, easter eggs envolvendo “Cujo”, o sobrenome dos Torrance (de “O Iluminado”) e vários outros, acabam funcionando como um interessante pano de fundo e não como o atrativo principal do que está sendo contado.

Andre Holland em “Castle Rock” (Hulu)

Aqui, vemos o melhor de King, quando nos apresenta diversos personagens ordinários em situações extraordinárias. Os personagens são escritos de maneira bastante sensível e humana, mas também sob um prisma peculiar, o que gera empatia com o expectador e nos faz torcer por eles em seus dilemas e momentos de dificuldades.

A trama começa quando o diretor da prisão de Shawshank comete suicídio de maneira bastante impactante, lançando seu carro em um desfiladeiro sobre o rio e decapitando-se no processo. Depois disso, enquanto a cidade ainda se recupera desse trauma, um rapaz é encontrado em uma ala abandonada da prisão. Ele então é mantido sob custódia do presídio.

Porém, um novo problema é levantado. O garoto (interpretado por Bill Skargard em uma performance bastante diferente de seus recentes trabalhos em Hemlock Grove e It, A Coisa) guarda uma atmosfera de mistério ao redor de si e a única coisa que fala é o nome de Henry Deaver (André Holland), um antigo morador da cidade, que após ter sido responsabilizado pela morte do pai, o respeitado pastor local, parte do lugar para viver a vida como advogado de defesa.

Andre Holland em “Castle Rock” (Hulu)

Graças a esses peculiares eventos, Henry Deaver retorna à sua cidade local e aos seus traumas de infância, ao mesmo tempo em que diversas coisas (muito) estranhas começam a acontecer. Novamente somos bombardeados com os diversos elementos que sempre compuseram as obras de King. Não é de hoje que o trabalho do autor é adaptado para o audiovisual (seja na TV ou no cinema), mas sempre que isso acontece surge algo que vale a pena ser visitado.

Obras de Stephen King são odiadas ou na maioria dos casos – amadas. Um dos autores mais prolíficos da atualidade, responsável por obras imortais como “Carrie, a Estranha”, “O Iluminado”, “A Espera de um Milagre” e muitos outros, seu título como Mestre do Terror não existe à toa.

O elenco está todo alinhado, tendo destaque para o protagonista vivido por André Holland, que consegue carregar a responsabilidade de reproduzir o olhar curioso do expectador diante de cenas tão absurdas, mas que ao mesmo tempo, traz consigo uma noção de humanidade diante de tudo aquilo; esse personagem é o indivíduo normal reagindo a tantas situações estranhas. Já seu contraponto, o personagem de Bill Skargard, é misterioso e uma vez que permanece a maior parte do tempo em tela calado, seu personagem se comunica com o olhar, sempre enigmático e escondendo algo.

Sissy Spacek em “Castle Rock” (Hulu)

Outra personagem que merece uma atenção especial é Ruth Deaver, a mãe de Henry, vivida por Sissy Spacek (que eternizou Carrie nos cinemas em 1976), ao demonstrar com sensibilidade incrível a realidade dolorosa de uma pessoa com Alzheimer, mas que não se deixa levar por clichês fáceis e entrega uma personagem complexa e humana, com virtudes e falhas. Talvez, o episódio protagonizado por essa personagem e que conta seu passado entrando em conflito com sua realidade atual, seja um dos episódios de séries mais bem produzidos dos últimos anos.

Outros personagens marcantes podem ser vistos na amiga de infância de Henry: Molly Strand (Melanie Lynskey), uma mulher comum com estranhas habilidades psíquicas, o ex-xerife Alan Pangborn (Scott Glenn), a sarcástica Jackie (Jane Levy) e no carcereiro do presídio Dennis (Noel Fisher).

Scott Glenn em “Castle Rock” (Hulu)

Sob um panorama geral, Castle Rock é uma série impactante que irá proporcionar momentos de muito suspense, drama, cenas bastante violentas, mas que também fará com que os expectadores se emocionem e se importem com personagens ricos e únicos, que contam com um toque especial que só as obras de Stephen King podem proporcionar.

CASTLE ROCK - 1ª TEMPORADA
4.5

RESUMO:

Impactante e cheia de personagens instigantes, Castle Rock é uma ótima produção e conta com um toque especial, que só as obras de Stephen King podem proporcionar, a partir do universo característico das obras do autor.

Jeziel Bueno

Cineasta independente e amante de filmes e séries. Nutre uma intensa paixão pela habilidade que só o ser humano tem de transmitir os aspectos de sua alma por meio da Arte...