Uma árvore ‘analista’ em ‘Sete Minutos Depois da Meia Noite’

O texto/análise abaixo contem spoilers do filme Sete Minutos Depois da Meia Noite (A Monster Calls).

Conor (Lewis MacDougall) é um adolescente de 13 anos que está atravessando um período conturbado de sua vida. Na escola ele sofre bullying diariamente e sequer consegue reagir frente ao abuso. Sua mãe (Felicity Jones) está com um câncer em um estágio avançado. Seu pai, na maior parte do tempo, está ausente e sua avó (Sigourney Weaver) é extremamente implicante com ele. Uma noite, o menino estava na sua escrivaninha sonolento e uma imensa árvore (dublada por Liam Neeson) falante invade o seu quarto. Após prendê-lo em seus longos galhos, lhe avisa que fará outras visitas e lhe contará três histórias.

A primeira delas é sobre um reino próspero governado por um rei. Ele e sua esposa tiveram três filhos, mas todos eles morreram em batalhas, restando apenas o filho de um deles. Diante de tantas perdas a rainha não suporta o trágico destino e morre. Depois de alguns anos, o rei se casa novamente com outra mulher, com fama de ser uma bruxa. Um dia ele morre e sua esposa se torna a rainha, já que o neto do rei ainda é muito jovem.

A forma como a árvore narra, dá a impressão que a rainha envenenou o rei. Algum tempo depois, o príncipe se envolve com a filha de um fazendeiro, mas a rainha tenta seduzi-lo, pois como ela não é sua avó, se casar com ele poderia ser vantajoso, porém o príncipe a recusa e foge com a sua amada. No cair da noite, repousam debaixo de uma árvore, no dia seguinte a moça estava morta e ensanguentada. No reino, como todos sabiam que a rainha queria se casar com o príncipe, supuseram que ela havia assassinado a mulher. Nesse momento, a árvore salva a rainha e a esconde dos habitantes, e em seguida o príncipe assume o trono.

O garoto questiona a árvore do porquê dela ter resgatado a rainha e explica que, na verdade, apesar da rainha ser realmente uma bruxa malvada, ela não matou ninguém. Já a filha do fazendeiro foi morta pelo próprio príncipe, com o intuito de revoltar os moradores do reino e perseguirem a rainha. Apesar da fraude, o príncipe governou o reino com êxito. Conclusão: não existem pessoas totalmente boas ou ruins, a maioria delas caminha em um meio-termo e a verdade costuma ser fragmentada, pode ser vista sobre várias perspectivas. A bruxa pode ser interpretada como a avó do menino, apesar de seu jeito rígido e ríspido, no fundo ela se preocupa em cuidar de Conor e de sua mãe. Portanto, apesar de sua personalidade mais dura, ela tenta ajuda-los.

A segunda história contada em Sete Minutos Depois da Meia Noite trata da rivalidade entre um boticário, que se recusava a aceitar o progresso da industrialização da cidade e, portanto, vivia no bosque, e um pastor que pregava a favor do avanço da ciência e do desenvolvimento tecnológico. No decorrer do tempo, o pastor denegriu o boticário, afirmando que seus métodos eram arcaicos. Com a imagem prejudicada, o boticário se isolou na floresta e permaneceu por lá. O pastor teve duas filhas e era um pai dedicado. Um dia elas adoeceram e nenhum tratamento surtia efeito algum nas meninas.

Sem opções, o pastor foi pedir ajuda ao boticário, que lhe negou o auxílio. Desesperado, o religioso implorou pela ajuda, disse que falaria bem do boticário aos moradores da cidade e que se preciso fosse, abdicaria de toda a sua fé. Mesmo assim, o boticário não o amparou e disse para ele que se o pastor era capaz de largar suas crenças, então ele não tinha nada. No dia seguinte, suas filhas faleceram. Logo depois, a árvore decide destruir a casa do pastor com a ajuda de Conor.

O adolescente, em seguida cai em si e percebe que destruiu toda a sala de estar da casa de sua avó, em uma mistura de surto e sonambulismo. Apesar dela ficar chocada com o vandalismo, não o pune. Nessa história, a árvore lhe passa a lição da importância de ter fé na cura dos problemas, ainda mais com tudo que Conor tem passado. A destruição da sala revela a sua desorganização e confusão de sentimentos perante tantas turbulências.

A terceira história é a mais curta, em Sete Minutos Depois da Meia Noite. Dessa vez, é a própria narrativa de Conor. Ele é um homem invisível que já não suportava mais essa condição; na verdade ele não era invisível. Ele era ignorado por todos e concluiu que se ninguém o olhava, como poderia de fato existir e, em seguida, atacou o seu agressor. Anteriormente lhe dissera que não lhe agrediria mais, pois percebeu que Conor queria ser espancado, consequentemente o agressor falou que seria pior se ele desprezasse o perturbado adolescente. Conor quase foi expulso da escola, mas foi perdoado pela coordenadora.

Olhando parra dentro de si mesmo

Perto do fim de Sete Minutos Depois da Meia Noite, sua mãe revela para o garoto que o tratamento não funcionou e não há mais nada a ser feito. Desesperado, Conor procura a árvore monstruosa e se queixa para ela, pois esperava que fosse salva. Porém, seu mundo desmorona, enquanto tudo é tragado pelo chão. Nesse momento, a árvore obriga o garoto a falar sobre uma quarta história, o que ele estava realmente sentindo.

Apesar da confissão arrancada a fórceps, Conor percebeu o seu conflito. Ao mesmo tempo em que desejava a sobrevivência de sua mãe, por outro lado, queria vê-la partir e assim dar um fim ao seu sofrimento. Finalmente a sua verdade havia sido revelada. O garoto se sentiu culpado pela morte da mãe, como se o seu desejo proibido pudesse causar tamanho estrago. Mas a sua árvore “analista” lhe conforta com a ideia de que esse desejo é extremamente humano, porque não há vontade real de matar a mãe, mas simplesmente de matar a dor. Depois da declaração de Conor, a árvore o parabeniza pela coragem em admitir o conflito. No fundo, a árvore representa uma parte do eu do protagonista, um recurso psíquico para ajudá-lo a suportar as dificuldades.

Uma das questões mais importantes para a Psicanálise é a dificuldade dos sujeitos em olhar para os seus conflitos, pois eles “acreditam em verdades agradáveis e deixam de reconhecer a verdade dolorosa”, como diria a sábia árvore. Na tentativa de evitar sofrimento, busca-se esconde-la dentro de si, no inconsciente, entretanto apesar do conteúdo do conflito permanecer camuflado, o sintoma é manifestado. Conor, ao sentir culpa, se submetia ao bullying como uma forma de punição e masoquismo. Depois de espancar o seu colega ou destruir a sala de sua avó, esperava receber um castigo severo.

Sete Minutos Depois da Meia Noite se mostrou muito competente de forma geral. Com um roteiro sensível e bem escrito, tratou de questões psicológicas complexas. As atuações dos atores foram ótimas, tanto a interpretação do protagonista Lewis MacDougall, ou de Felicity Jones como sua mãe, e também pela ótima dublagem de Liam Neeson como o monstro.

A animação gráfica das histórias contadas pela árvore foram muito bem trabalhadas e com um traço delicado. Não se pode esquecer também da brilhante direção de Juan Antonio Bayona, que nos mostrou que as vezes nossos monstros internos também nos ajudam a enxergar os nossos piores medos.

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Dante Ferrara

Psicólogo clínico, apreciador de filmes, séries e literatura desde criança. Esforça-se em fazer relações entre entretenimento e psicanálise, suas duas maiores paixões.