Maniac | Primeiras Impressões sobre a nova minissérie da Netflix

Talvez a palavra que resuma os dois primeiros episódios da nova série da Netflix, Maniac, seja confusa. Não a ponto de possuir um roteiro mal escrito, com ferramentas de narrativa mal desenvolvidas criadas por um autor sem inspiração ou sem o domínio necessário para se escrever uma boa trama. O sentido de confusão apresentado no começo da empreitada a ser desenvolvida por essa minissérie tem relação com a atmosfera que ela se propõe a estabelecer para contar sua história.

Antes que se comece a discutir sobre os personagens, é preciso abordar o contexto no qual eles estão inseridos. A princípio fica difícil precisar em que época acontece a história, uma vez que o cenário se parece com a época contemporânea, mas com uma tecnologia com cara da que víamos nos anos 1980. Os computadores são de modelos antigos, pertencentes às longínquas épocas dos disquetes, bem como as interfaces digitais, sempre com gráficos pixelados e rudimentares, sem o aspecto mais ‘clean’ e complexo que temos hoje.

Contudo, essa tecnologia se mostra bastante presente na realidade dos personagens, uma vez que oferece serviços incomuns até para os dias de hoje, como por exemplo uma máquina que perambula pelas calçadas com o objetivo de limpar os dejetos deixados por animais de estimação. Ou também, pela existência de robôs que simulam companhias humanas, em momentos de interação simples como jogar xadrez na praça.

Todos esses simbolismos que a tecnologia nos apresenta não são gratuitos. Eles possuem um importante significado que é reforçado com o enredo, a dificuldade de se conectar. E é aí que está o cerne da série. Ou pelo menos é isso que os dois primeiros episódios demonstram, mesmo que esse fato não tenha ficado bem definido,  já que Maniac se mostra como um enigma difícil de se decifrar.  Temos pistas, mas é impossível adivinhar que rumos a história pretende seguir.

A obra de Kary Fukunaga – responsável pela direção e produção executiva da série – marca a estreia de Jonah Hill e Emma Stone na Netflix, e os dois apresentam um incrível potencial, cada um à sua maneira. E são feitos formas bastante distintas, por sinal.

Hill entrega Owen Milgrim, um homem bastante melancólico, com um forte caso de esquizofrenia e problemas de interação social com colegas de trabalho e sua família. Paralelamente a isso, vemos o personagem interagindo com a figura de seu irmão, ou melhor, as duas versões dele, ambas interpretadas por Billy Magnussen. A versão real é um irmão mais velho que o constrange e o pressiona para tirá-lo de sua zona de conforto. Já a versão ilusória, que somente ele é capaz de enxergar, se apresenta com bigode e discute com Milgrim acerca dos diversos aspectos de sua vida, bem como cria ilusões e paranoias em sua mente, inclusive relacionadas a uma suposta missão de salvar o mundo.

É interessante ressaltar a atuação de Jonah Hill, que aposta em uma abordagem extremamente sensível. O personagem raramente se exalta e se mantém em tela com uma expressão quase que permanentemente, em estado de tensão. Isso fica nítido no olhar e nas micro expressões do ator. Dessa forma, sempre sabemos quando ele está desconfortável com alguma coisa – o que acontece na maioria das cenas – e em grande parte dos momentos, já pode se perceber o que ele está pensando antes mesmo que fale alguma coisa.

Já Emma Stone também não deixa a desejar. Na pele de Annie Landsberg, ela vive uma garota que já levou poucas e boas da vida. Uma mulher que após tantos traumas e decepções, ligou o piloto automático para continuar vivendo. Sua dor é tão grande que para passar o dia que ela desenvolve o vício em uma droga experimental, que lhe permite passar horas e horas fora da realidade. Contudo, quando é obrigada a interagir com as pessoas, ela se mostra alguém com sérios problemas no trato social, sempre agressiva e fechada. Conforme o enredo vai avançando, somos apresentados a alguns dos fatores que a tornaram essa pessoa frustrada, fria e fracassada.

A trama gira em torno desses dois personagens, quando se veem cobaias de um tratamento experimental realizado por uma grande empresa de produtos farmacêuticos, com a finalidade de realizar uma experiência envolvendo o conteúdo da mente dos pacientes e suas ‘realidades’. Apesar de possuir um humor sarcástico e seco, não é propriamente uma comédia escrachada, nem tampouco um drama intenso. Maniac é algo híbrido que permeia entre esses dois gêneros.

Maniac possui dez episódios e foi lançada pela Netflix hoje, dia 21 de setembro.

Jeziel Bueno

Cineasta independente e amante de filmes e séries. Nutre uma intensa paixão pela habilidade que só o ser humano tem de transmitir os aspectos de sua alma por meio da Arte...