Crítica | ‘Ferrugem’ trata um tema importante de forma superficial

Ao tratar de assuntos que possam ser gatilhos para muitas pessoas, é preciso tomar cuidado em excesso na maneira em como o tema será abordado. Além disso, é necessário se aprofundar no conteúdo analisado para tentar evitar que um tópico sério seja usado apenas para chamar atenção em um enredo. Este, infelizmente, não é o caso de Ferrugem, que acaba ficando apenas na superfície ao invés de gerar uma reflexão ou incentivar um debate.

Dividido em duas partes, o longa conta a história de Tati (Tifanny Dopke), que tem sua vida destruída após um vídeo íntimo seu com o ex-namorado viralizar. Em sua segunda parte, no entanto, o filme foca em como o responsável pelo ocorrido lida com a culpa de acabar com a vida da protagonista.

O filme começa com um visual bem elegante, com iluminações neon e uma ótima direção de Aly Muritiba. Rapidamente, torna-se perceptível a rigorosidade ao se tratar da parte técnica do longa, assim como a falha em tenta-la equilibrar com seu conteúdo. Além da construção da história que leva ao conflito inicial ser pobre e não convencer, a narrativa perde cada vez mais o ritmo e esquece o que realmente importa.

Na primeira parte, é mostrado o uso excessivo do celular por todos os adolescentes, com o foco em Tati. Conhecemos um pouco da garota antes do seu vídeo viralizar, como também o modo que ela enfrentou o bullying pela atitude sem o seu consenso. Em comparação ao filme como um todo, essa parte é apresentada muito apressadamente e algumas cenas parecem colocadas de repente, atrapalhando a fluidez do longa. Assim, o tema nunca é de fato absorvido pelo espectador, já que o filme perde tempo se concentrando somente na estética.

Lamentavelmente, com o foco passando a ser o culpado pela exposição em uma viagem em família, a segunda parte parece totalmente desconexa com o restante do longa. Logo, o filme abandona toda a discussão que se iniciou no começo sobre as mídias sociais e o bullying: esquecemos tudo que foi abordado até então e até Tati, que é a vítima, é posta em segundo plano para dar atenção ao garoto completamente apático e desinteressante. Mesmo tomando o tempo da maior parte do filme, não o conhecemos muito bem e nem ao menos sabemos quais foram suas motivações para expor a amiga. O filme também perde pontos ao tentar dar espaço para o restante da família e, assim, a vida de todo mundo parece importar mais do que a de Tati.

As atuações ainda deixam a desejar, e parecem nunca atingir um ponto certo. Em algumas ocasiões, os personagens aparentam ser muito indiferentes levando em conta o que está acontecendo, e em outras, mais dramáticos do que o necessário. É algo difícil de deixar passar já que a trama se torna mais sobre como os personagens lidam com a situação do que o problema em si.

Ferrugem acaba por se sustentar apenas na direção e na fotografia, destacando-se, principalmente, por sequências em que a câmera segue a vítima pela escola na altura de seus ombros. O estilo lembra muito Elefante (2003), de Gus Van Sant, enquanto na segunda parte, o enredo se assemelha com o de Paranoid Park (2007). Seria ótimo se Aly Muritiba tivesse conseguido alcançar um resultado como estes, consequentemente fazendo um paralelo com os dois filmes que fosse além da estética.

Ao final das contas, Ferrugem é só mais um filme que tinha um grande potencial, mas que foi desperdiçado devido à narrativa que se perde e à superficialidade em como o tema é tratado. Além de ser esquecível, ele usa um assunto necessário a ser debatido para no final deixar apenas uma sensação nula no espectador.

FERRUGEM
2.5

Resumo

Mesmo com grande potencial e um tema de extrema relevância, Ferrugem acaba ficando apenas na superfície ao invés de gerar uma reflexão ou incentivar um debate.

Rafaella Rosado

Jornalista em formação e apaixonada pela sétima arte desde pequena, quando achava que era possível ver todos os filmes do mundo. Acredita que o cinema é uma forma de viajar e conhecer outras realidades sem sair do lugar.