Crítica | Atypical: 2ª temporada expande seu universo sem perder relevância

Atypical é o perfeito exemplo de como se tratar de um assunto sério com naturalidade e humor sem parecer ofensivo ou irresponsável. Desde sua primeira temporada, a série sempre foi direta com o que procurava ser: uma “dramédia” que retrata a vida de um garoto autista em busca de sua independência, e a rotina familiar de quem convive com uma pessoa com esse tipo de deficiência intelectual. Em nenhum ponto a produção quis ser maior do que realmente é. Ela sempre quis tratar o autismo de forma honesta e natural, do jeito que deve ser.

O novo ano se inicia mostrando o impacto que o caso de Elsa (Jennifer Jason-Leigh) com o barman Nick (Raúl Castillo) teve em sua família. Distante dos filhos e, principalmente, de seu marido, Elsa começa uma jornada de mudanças em si mesma, para conseguir reconquistar a confiança e o amor de todos ao seu redor.

É interessante notar que a série não procura apedrejar ninguém por suas atitudes. Em nenhum momento Elsa é mostrada como a vilã da história. Muito pelo contrário, a forma com que é retratado o arco da traição da personagem é para que consigamos entender suas atitudes, apesar de não concordarmos. E é neste ponto que a série mais se destaca, na capacidade de nos fazer sentir empatia e identificação pelos personagens.

Sam (Keir Gilchrist) continua sua jornada de busca pela independência e de um bom convívio social. Todos os episódios iniciam com reflexões ao longo de uma sessão de terapia, muitas vezes relacionada à pinguins, mas que fazem bastante sentindo se comparadas ao que ele está vivendo no momento. As conversas entre ele e Zahid (Nik Dodani) no horário de trabalho são a combinação perfeita de excelentes diálogos e humor. Vale destacar o episódio em que Sam tenta dormir na casa de Zahid. É sua primeira vez dormindo fora, e a direção da série é primorosa ao colocar em tela diversas sequências de imagens cortadas rapidamente para demonstrar como um simples evento como esse pode ser desesperador na vida de autista.

O desenvolvimento de Casey (Brigette Lundy-Paine) é mais um grande acerto da temporada. Com sua vida mudando completamente ao ingressar em uma nova escola, a personagem se vê em uma situação em que acaba perdendo um pouco de sua essência. Cabe ao seu namorado Evan (Graham Rogers) fazer ela notar essa perda. A personagem, desde o primeiro ano da série, sempre foi a mais interessante juntamente de Sam, nesse segundo ano ela ganha um destaque ainda maior muito bem-vindo. A atriz sabe representar o amontoado de sentimentos de Casey com simplicidade e naturalidade. Sua atuação é certeira para que a identificação com o público seja imediata. Entretanto, a abordagem da bissexualidade dela é algo que fica um pouco jogado à princípio, mas que seu auge parece ter sido guardado para a temporada seguinte.

Um ponto que a série deixa um pouco a desejar é em ter deixado a terapeuta Julia (Amy Okuda) um pouco de lado. A dinâmica entre ela e Sam durante as sessões de terapia eram um dos destaques da primeira temporada, mas devido o desenrolar da narrativa, os encontros entre eles são reduzidos. Julia segue sua própria jornada de descoberta e amadurecimento, mas nunca deixando de se importar com Sam.

Todos os personagens amadurecem ao longo da temporada, todos erram, todos acertam e todos são colocados à frente de seus medos. É difícil de encontrar uma série teen ultimamente que acerte tanto em tantos quesitos e saiba desenvolver seus personagens corretamente. O último episódio é o perfeito exemplo disso, ele acerta em tudo, e sabe dosar muito bem momentos emocionantes e engraçados sem se embaralhar e acabar não acertando em nenhum dos dois.

Com 10 episódios desta vez, ao contrário dos 8 da temporada anterior, Atypical se mantém consistente e com uma narrativa contínua que nunca parece estar enrolando o espectador para durar mais. O acréscimo de episódios não fez mal a série, e por mais que seja curta, ela entrega o que promete e vai muito além. Ela finaliza abrindo grandes portas para o próximo ano, deixando o espectador com coração quente e ansiando pelo que está por vir.

ATYPICAL - 2ª TEMPORADA
4.5

Resumo

A segunda temporada de Atypical desenvolve bem os personagens e trata de um tema sério com naturalidade e humor, sem parecer ofensiva ou irresponsável.

Gabriel Granja

Jornalista apaixonado pela sétima arte. Acredita que o cinema tem o poder de mudar pensamentos, pessoas e o mundo. Encontra nos filmes e séries um refúgio para o caos da vida cotidiana.