Crítica | Ozark: 2ª temporada é mais ágil e mantém os nervos da família Byrde à flor da pele

A segunda temporada de Ozark veio com uma difícil missão, a de se igualar – ou superar – o belíssimo trabalho com sua estreia, no ano passado. Essa série, com óbvias similaridades com Breaking Bad, narra a história de Martin Byrde (Jason Bateman), um contador que se vê envolvido com o cartel mexicano. Ele tem a arriscada função de lavar o dinheiro oriundo do tráfico de entorpecentes sob a ameaça constante de ser assassinado, bem como ter toda a sua família morta ao mesmo tempo em que é obrigado a fazer das tripas o coração para interagir com os membros influentes de uma região dos arredores do lago Ozark.

A segunda temporada carrega alguns dos elementos que foram estabelecidos na primeira, mas também acrescenta outros até então pouco explorados e, de forma sublime, entrega uma temporada coesa e que mostra a que veio. O primeiro aspecto importante na narrativa é que, assim como na primeira temporada, ainda temos a atmosfera de medo presente a todo momento. Diferente de outras séries em que a estratégia fria e bem planejada guia a maior parte do clima dos episódios, em Ozark, o planejamento muitas vezes dá lugar ao improviso, uma vez que os protagonistas não têm sequer um momento de descanso. Sempre está acontecendo alguma coisa que pode acarretar na morte ou no sofrimento da família Byrde.

Apesar de estratégicos brilhantes, muitas vezes os protagonistas são obrigados a agir sem tempo de preparação para lidar com o problema direto que está bem a frente deles. É óbvio que seres humanos sob pressão por muito tempo começam a apresentar desgastes físicos e emocionais, e a sensibilidade do roteiro não ignora esse pensamento. Se na primeira temporada os personagens principais – especialmente Martin – se encontravam em uma situação desesperadora a fim de lidar com um problema que estava diante deles, nessa temporada, diante de uma possível vida de crimes – uma vez que eles são incapazes de enxergar uma saída – começam a se desgastar.


O objetivo principal da primeira temporada era lavar uma quantidade específica de dinheiro para provar a lealdade aos membros do cartel. Agora, cumprindo o papel de associados à organização criminosa, o objetivo está centralizado na aprovação e criação de um cassino na região, para manter os negócios de tráfico de drogas – e, consequentemente, a lavagem de dinheiro – em continuidade. Os laços familiares – algo tão fundamental na primeira temporada – começam a ficar menos estreitos. Os membros da família de protagonistas ainda se amam (e muito), mas nem sempre o amor é capaz de superar tudo. Mentiras, traições e maquinações são o tema principal dessa série, ao lado do sempre constante medo.

No núcleo central, vemos uma notória evolução no protagonista. Nos primeiros episódios, nos deparamos com um Martin Byrde focado em seu trabalho e em seu plano – após ele bolar um estratagema que o possibilitará fugir das garras do cartel – , mas que, distraído por causa de suas constantes maquinações e estratégias, acaba por deixar sua família e aliados de lado, o que começa a esfriar o afeto tão presente entre eles. Porém, o personagem não se mantém estático e após alguns eventos, se reencontra com seu lado humano e revê o que realmente é importante em sua vida.

O mais interessante é o potencial de atuação de Bateman. Seus diálogos mais extensos geralmente servem para explicar seus planos e artimanhas financeiras. Quando precisa falar de si próprio ou de assuntos de natureza mais pessoal, ele não fala. Ou pelo menos, não fala verbalmente, pois a maioria da comunicação do personagem está em seu olhar. E nesse aspecto, Jason Bateman mostra todo o seu talento, com nuances dignas do ator experiente e maduro que ele é.

Ao lado de Martin, está sua fiel companheira Wendy Byrde (Laura Linney), que também apresenta uma notável evolução na construção de sua personagem. Na primeira temporada, conhecemos uma mulher de família que, graças ao distanciamento do marido, se deixou levar e se envolveu em um caso extraconjugal, mas que quando posta à prova, se lançou de volta aos braços da família e de seu marido. Apesar dos problemas, a parceria dos dois começou a crescer indefinidamente, a ponto de deixarem de lado a traição e se unirem como unha e carne.

Nessa nova empreitada, Wendy se prova como uma excelente adição aos negócios de Martin. Graças à sua experiência na política, ela acaba por se envolver com os membros da alta sociedade e, utilizando-se de manipulação e artimanhas políticas, consegue reverter o improvável cenário relacionado à construção do cassino, a favor dos Byrde. O mais incrível é que ao mesmo tempo em que vemos Martin, o personagem tido como mais racional em contraponto aos aspectos emocionais de Wendy, se tornando mais emotivo e sensível, vemos a esposa começando a adotar uma personalidade mais racional e mais focada no seu ofício.

Martin finalmente se cansa do trabalho criminoso quando vê que aquilo aos poucos estava destruindo sua família e o transformando em algo que ele teme e odeia e Wendy, que outrora odiava esse mundo de atividades ilícitas e valorizava os bons costumes. Ele começa a o adotar como novo estio de vida, se adaptando a essa nova realidade e pegando o gosto pelo ofício de “sujar as mãos”. É Martin se transformando em Wendy e Wendy se transformando em Martin.


O núcleo dos filhos do casal Byrde se assumem mais uma vez como personagens individuais, ao invés de meras ferramentas do roteiro para complementar as ações dos seus pais. Charlotte (Sofia Hublitz) não é apenas uma adolescente mimada e chata, ela é uma pessoa normal, com medos, inseguranças e aspirações, mas também é uma adolescente. Cansada dessa vida de crimes, ela começa a colocar seus sentimentos amorosos pela família de lado e a tomar atitudes em prol de sua própria vida, mesmo que isso faça com que ela tenha que se distanciar de seus familiares.

Já Jonah (Skylar Gaerthner) se prova como uma pessoa que foi obrigada a amadurecer muito rápido e se inserir em um contexto de violência de maneira bastante precoce, mas que, apesar de tudo, ainda é um garotinho. Interessante também é ver como esse personagem é carismático a ponto de conquistar todos ao seu redor. A amizade com o veterano – e extremamente carismático – Buddy (Harris Yulin) é linda de se ver na tela, bem como a parceria com sua irmã ou com a forma prestativa que ele se mostra sempre que os pais tem alguma dificuldade na qual ele pode ajudar. Tudo isso sem nunca deixar de nos mostrar o quão frágil ele é, mesmo tendo que se mostrar forte. E ele se mostra bastante forte.

Particularmente, em um momento quando sua vida é ameaçada e ele, à luz dos eventos que tem acontecido em sua nova rotina, ele acha normal ter sua cabeça raspada por criminosos. Outro personagem que vale a pena ser mencionado é o próprio Buddy, um senhor de idade que a princípio não prometia muita coisa além de ser apenas um coadjuvante mal-encarado, mas que, após se tornar grande amigo e aliado dos protagonistas, acaba por se tornar uma valiosa adição à narrativa, especialmente no que se relaciona com o caráter dos protagonistas. Ele serve como um termômetro moral para eles refletirem acerca de suas ações, especialmente Martin. Destaque para a cena em que o protagonista apara a barba do ancião.

Ruth (Julia Garner) é uma figura extremamente enigmática e cujo arco narrativo é uma das melhores coisas na série. Ruth é forte, determinada e está sempre lutando com unhas e dentes contra a maldição de sua família, os Langmore. Agora, com o pai fora da cadeia, a pressão é grande para trair Martin Byrde (alguém que se tornou grande amigo para ela e, de certa forma, a figura paterna que sempre lhe fez falta) e roubar seu dinheiro.

A personagem se vê novamente com o dilema da primeira temporada: aliar-se permanentemente a Byrde ou trair sua confiança em prol da riqueza de sua própria família criminosa? Porém, dessa vez, somos capazes de enxergar por baixo da marra de moça durona e vemos as fragilidades da personagem quando é posta à prova em adversidades extremamente arriscadas.

Arcos que foram bem construídos e que trouxeram bastante desgosto e arrependimentos para os Byrde, foram os relacionados a dois personagens específicos, que fizeram os protagonistas refletirem acerca do seu próprio caráter, fazendo com que os mocinhos provem de como é ser os vilões por um momento. O pastor Mason (Michael Mosley) e Rachel (Jordana Spiro) foram provavelmente as pessoas mais prejudicadas pela vinda da família Byrde a Ozark e retornam para causar um rebuliço na vida dos protagonistas. E dessa vez, provavelmente deixar nos Byrde feridas que nunca mais irão se cicatrizar.


No contraponto, continuamos a acompanhar as ações nada sutis e cruéis de Jacob (Peter Mullan) e Darlene Snell (Lisa Emery) que mais parecem uma bomba relógio prestes a fazer explodir uma guerra entre os traficantes locais e os membros do cartel. Essa rivalidade entre os vilões de Ozark, tendo a família Byrde no meio, é um dos elementos que mais causam tensão durante toda a série, pois nunca sabemos quando um massacre poderá ocorrer. E, agora, como se os problemas corriqueiros não fossem suficientes, temos ainda a máfia para adicionar ainda mais perigo aos protagonistas.

Outro elemento interessante relacionado aos Snell a ser comentado é que nem mesmo eles estão sempre em acordo entre si, especialmente no tocante à personalidade geniosa – e orgulhosa ao extremo – de Darlene, a quem até o temido Jacob nutre medo e respeito. E quando dois titãs começam a disputar, o resultado só pode ser derramamento de sangue.

Temos também uma nova cara para o Cartel. Se na primeira temporada o responsável pelos ataques mexicanos ficava a encargo do assustador Del (Esai Morales), agora essa função fica sobre os ombros da advogada Helen Pierce (Janet McTeer) que possui uma abordagem extremamente diferente de tudo que já foi visto na série. Sem precisar provar o tempo todo o quanto é perigosa e sem precisar tomar atitudes explosivas como os Snell, a personagem carrega uma aura de medo ao redor de si, mas mantém a fala sempre calma e impassível, realizando suas ações com a precisão de um bisturi, mas sem diminuir nem um pouco a ameaça que traz consigo.


Já no FBI, continuamos acompanhando o enigmático agente Roy (Jason Butler Harner) e descobrimos o lado corruptível das autoridades quando o personagem, obcecado por solucionar o caso, começa a realizar investidas que passam por cima das leis que julga defender. isso é interessante e nos proporciona ver que Ozark não se trata de uma história sobre mocinhos e bandidos, e sim, uma história sobre pessoas.

O tom da série está um pouco mais ágil do que na primeira temporada, o que pode a princípio parecer até um pouco apressada, uma vez que na primeira o público tinha mais tempo para digerir as ameaças e perigos em que os personagens estavam metidos. Nessa segunda temporada, alguns perigos são desenvolvidos rápidos demais e solucionados rápido demais também. Isso pode deixar a desejar em alguns momentos. Porém, essa aposta funciona em várias situações, deixando os episódios com a sensação de que está sempre acontecendo alguma coisa. A direção de fotografia permanece com poucas cores e tons voltados para o azul, provocando uma fotografia fria e desesperançosa.

Um dos fatores que sempre causaram impacto e desconforto em Ozark foi a violência, e ela aparece nessa segunda temporada. De uma forma geral, a violência não chega a surgir ao longo dos episódios, dando lugar à uma violência sugerida, com cenas que mostram pouco. Porém, Ozark tem o costume de te fazer sempre suspeitar de que a agressividade está ali, mas não irá se mostrar para o expectador, apenas para surpreendê-lo quando simplesmente for exibida sem escrúpulos na tela. Se na primeira temporada, vimos um homem ser arremessado de um prédio e se estatelar sob o concreto da calçada sem cortes, a segunda reserva uma cena tão violenta quanto, com direito a gore explícito na tela.


A segunda temporada de Ozark carrega consigo a maioria dos elementos que foram estabelecidos na primeira, porém, apresenta um tom mais dinâmico e quase apressado. As atuações estão como sempre impressionantes e a direção acerta a mão em quase todos os momentos, criando uma experiência bastante divertida, com momentos de pura tensão, mas também com direito a reflexões bastante pertinentes no cenário em que vivemos. Os dez episódios passam extremamente rápido e deixam a sensação de “quero mais”. Série de primeiríssima qualidade e que possui potencial para várias temporadas no futuro.

  • OZARK - 2ª TEMPORADA
4.5

Resumo

A segunda temporada de Ozark carrega consigo a maioria dos elementos que foram estabelecidos na primeira, com um tom mais dinâmico e cheia de tensão.

Jeziel Bueno

Cineasta independente e amante de filmes e séries. Nutre uma intensa paixão pela habilidade que só o ser humano tem de transmitir os aspectos de sua alma por meio da Arte...