Crítica | 2ª temporada de ‘Anne with an E’ confirma a série como uma das melhores na Netflix

Criada por Moira Walley-Beckett, Anne with an E chegou discretamente ao catálogo da Netflix. Com pouca divulgação e não muitos comentários em sua semana de lançamento, a série foi conquistando seu público fiel aos poucos. Com a divulgação feita pelos fãs, e a insistência por uma renovação, a Netflix, em parceria com o canal CBC, trouxe a jovem Anne para seu segundo ano.

A história se inicia exatamente onde a primeira temporada terminou. Nela vemos Anne (Amybeth McNulty) recebendo hóspedes não muito confiáveis em sua casa, com intuito de ajudar a estabilizar a renda da família. Acompanhamos esse arco se desenvolver ao mesmo tempo que vemos Anne continuando com dificuldades na escola. É triste, e ao mesmo tempo encantador ver o contraste que a personagem traz. Ao mesmo tempo em que a vida da jovem é cheia de obstáculos e dificuldades de se encaixar, ela consegue continuar sonhadora e imaginativa mesmo diante de sua realidade.

A chegada dos hóspedes em Green Gables traz, pela primeira vez, um ar mais pesado para a série. Os dois personagens, Sr. Dunlop (Shane Carty) e Nate (Taras Lavren) são muito bem-vindos à trama. A tensão e o desconforto que a presença deles causa na casa é grande, tanto para o público, quanto para os personagens.

Ver a família correndo perigo de baixo de seus narizes é inquietante. Mas, o desfecho desse arco, apesar de eletrizante por inserir momentos de ação à série, acaba sendo um apanhado de coincidências e desdobramentos de roteiro para que tudo dê certo no final. Não é o final mais satisfatório, mas é algo que é possível relevar. Afinal, o ponto alto da segunda temporada não está nesse arco, e sim nas discussões que a série traz ao longo dos episódios.

Um dos acertos da temporada foi a adição do personagem Sebastian (Dalmar Abuzeid). Colega de trabalho de Gilbert (Lucas Jade Zumann), outro ponto forte do segundo ano da série, Sebastian chega para mostrar um dos grandes problemas da época em que a série se passa, o forte racismo existente na sociedade. O racismo é abordado de forma clara e direta ao ponto. Os roteiristas não procuram se esquivar e deixar subentendido o que está acontecendo ali. O preconceito existe, e é sob o olhar de Anne que vemos o quão absurda essa realidade era, e ainda é nos dias de hoje. A cena em que ela conhece Sebastian é uma das mais puras e bonitas vistas até agora.

Gilbert foi um dos personagens que mais cresceu nesse novo ano. Queridinho do público, ele justifica ao longo da temporada o porquê desse favoritismo por ser muito preocupado com os outros. A cena em que ele se encontra na situação de ajudar em um parto é um amadurecimento enorme para o personagem. A relação dele com Anne é algo a parte. A troca de cartas entre eles faz o espectador ansiar pelo reencontro dos dois. É o amor entre crianças sendo abordado de forma leve, e inocente como deve ser. Anne se recusa a aceitar que gosta do amigo, e é divertido acompanhar os dilemas que a personagem traz sobre o amor.

Nessa temporada, finalmente, conhecemos um pouco mais sobre Marilla (Geraldine James) e Matthew (R.H. Thomson). A partir do ocorrido com os hóspedes, e o impacto que isso trouxe na vida de Marilla, os personagens começam a ser destrinchados e é mostrado um pouco mais do passado conturbado dos dois. Apesar de contar uma parte do passado deles, o foco maior é colocado em Marilla, deixando Matthew um pouco de lado nesta temporada, porém ainda com bons momentos.

A série alcança seu auge no episódio focado em uma festa na casa de Tia Josephine (Deborah Grover). As crianças são convidadas à uma festa e é lá que elas vão conhecer um pouco mais da diversidade enorme de pessoas e possibilidades que habita o mundo. Além de ser belíssimo visualmente, e com uma direção de arte mais do que acertada, esse episódio é poesia em forma audiovisual. Cole (Cory Gruter-Andrew) é o foco do episódio. Pela primeira vez exposto a pessoas iguais a ele, é nessa festa que ele pode conhecer um pouco mais de si mesmo e descobrir o que realmente quer para sua vida. Bonito, poético, sutil e puro, o episódio se destaca por tratar de homossexualidade com a maior naturalidade possível, do jeito que sempre deve ser.

Anne with an E se destaca por tratar de diversos temas sérios, mas com o olhar inocente e único da personagem principal. Anne não enxerga o próximo como desigual a ela. Enquanto seus familiares, vizinhos, e até amigos veem o racismo e machismo como algo normal e a homossexualidade como algo errado, Anne vai além, se mostrando muito à frente de seu tempo. Ela dá lições de vida não somente aos personagens, como também ao espectador, se tornando uma das melhores personagens da televisão atualmente.

No meio de um amontoado de lançamentos originais Netflix que vem tomando conta da plataforma, Anne with an E é, com certeza, uma das, ou se não, a melhor série original disponível atualmente. Já renovada para uma terceira temporada, Anne se destaca por falar de assuntos sérios pelo olhar de uma criança que está começando a descobrir o mundo ao seu redor.

O novo ano de Anne with an E se destaca por tratar de diversos assuntos sérios, mas com o olhar inocente e único da personagem principal finaliza com belas lições e amadurecimentos, diferente da temporada anterior, que terminou pesada e com a vida dos personagens em risco. É a série perfeita para podermos ver o mundo por outros olhos, e nos sentir mais esperançosos para o nosso dia a dia. Que venham mais anos acompanhando a jornada de Anne.

ANN WITH AN "E"
5

Resumo

A segunda temporada de Anne with an E se destaca por tratar de diversos assuntos sérios, mas com o olhar inocente e único da personagem principal, com belas lições e amadurecimentos.

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Gabriel Granja

Jornalista apaixonado pela sétima arte. Acredita que o cinema tem o poder de mudar pensamentos, pessoas e o mundo. Encontra nos filmes e séries um refúgio para o caos da vida cotidiana.