Crítica | ‘Ghoul – Trama Demoníaca’: minissérie indiana de terror é uma grata surpresa da Netflix

É notável a tentativa da Netflix em apostar em títulos estrangeiros para o seu catálogo. A empresa pioneira em streaming vem procurando trazer produtos de diversos países na intenção de tirar seu público da zona de conforto americanizada em que se encontra. La Casa de Papel (Espanha), Dark (Alemanha) e até 3% (Brasil) foram apostas certeiras que caíram na boca do povo e não fizeram feio com a crítica. Ghoul – Trama Demoníaca.

Dessa vez, é hora da Índia tentar seu espaço. Ghoul – Trama Demoníaca é uma minissérie produzida por Jason Blum, fundador da Blumhouse Productions, produtora que trouxe à vida os elogiados Corra! (2017) e Fragmentado (2017). A trama segue a personagem Nida (Radhika Apte), que vive em um futuro distópico onde a Índia é controlada por militares extremistas e autoritários. Nida trabalha para esses militares, e após abdicar da relação com seu pai em prol do que esse regime propaga, ela se encontra começando um novo trabalho dentro de um centro de interrogatório militar.

A minissérie é, na verdade, um filme dividido em 3 partes. O roteiro foi escrito com intuito de ser um longa-metragem, mas ao comprar os direitos, a Netflix o transformou em uma minissérie de 3 episódios. Uma jogada de mestre, considerando que o público da plataforma, muitas vezes, prefere ter a opção de assistir algo dividido em partes de 40 minutos, do que assistir à um filme corrido de mais de 2 horas de duração.

Considerando as 3 partes da minissérie como os 3 atos de um filme, o primeiro episódio pode não ter a força que precisava para manter o interesse do público. Lento, pouco interessante, e sem um cliffhanger chamativo, o piloto falha ao se resumir no famoso “nada acontece”. Isso pode afastar muita gente, mas quem decidir continuar, vai ter uma grata surpresa.

Os dois últimos episódios são frenéticos, que diferente do primeiro, vão direto ao ponto que interessa: o terror. O clima muda totalmente após a chegada de um novo “terrorista” no centro militar. A partir daí, é fácil notar os diversos elementos de filmes de terror que são inseridos em tela, mas todos eles são dirigidos de uma forma que não fica batida, e conseguem fazer o mais importante, que é assustar. A direção foca no uso de câmera tremida nos momentos de tensão, e divide a tela com uso de câmeras de segurança para limitar a visão do espectador e deixar a experiência mais assustadora. É clichê, mas funciona.

Há boas atuações aqui, mas a atenção é toda voltada à Radhika Apte. A atriz rouba a cena sempre que está em tela e confirma que a escolha para protagonizar a minissérie foi certeira. Ela se destaca ao segurar boas cenas de ação e terror, nunca deixando a peteca cair.

O grande diferencial da trama é o uso do folclore árabe para criar a história. O roteiro é criado em cima do monstro folclórico Ghoul, que consome suas vítimas trazendo à tona o maior sentimento de culpa que a pessoa possui. O roteiro soube trabalhar muito bem com isso, e é interessante conhecer mais do folclore árabe que não é visto com frequência no meio Hollywoodiano. Dito isso, é notável perceber que o mais assustador da minissérie, não é necessariamente o monstro Ghoul, e sim, o contexto político que a trama apresenta, não muito diferente do que vemos na Índia atual. É proposital, corajoso, e abre portas para discussões importantes após o término dos 3 episódios.

Com muito gore, boas reviravoltas, e com uma forte e corajosa crítica social à Índia atual, Ghoul – Trama Demoníaca finaliza se tornando uma boa aposta da Netflix, mas que, infelizmente, vêm ganhando pouca atenção do público. Não inova o gênero, é um pouco lenta em sua primeira parte, mas faz um bom trabalho em assustar e entreter durante as 3 horas de exibição.

GHOUL - TRAMA DEMONÍACA
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Resumo

Apesar de apresentar problemas de ritmo em seu início, Ghoul – Trama Demoníaca acerta na utilização do folclóre árabe e no contexto político, que assusta tanto quanto o terror de sua mitologia.

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Gabriel Granja

Jornalista apaixonado pela sétima arte. Acredita que o cinema tem o poder de mudar pensamentos, pessoas e o mundo. Encontra nos filmes e séries um refúgio para o caos da vida cotidiana.