Crítica | ‘Sharp Objects’ é uma adaptação perturbadora e inquietante

Em 8 de julho de 2018  a HBO nos presenteou com mais uma belíssima obra a ser apreciada, analisada e debatida. Protagonizada pela estrela de Hollywood Amy AdamsSharp Objects é composta por um grande elenco e mostra um thriller arrebatador, perturbador, inquieto e com toques de filmes de terror, que nos faz nos envolver com a história desde o primeiro episódio.

Baseado em um livro de mesmo nome, escrito por Gillian Flynn, Sharp Objects narra os eventos vivenciados por Camille Preacker (Amy Adams), uma jornalista que é enviada por seu editor para cobrir um assassinato em sua cidade natal, Windgap. A princípio, este fato causa bastante resistência por parte da personagem, graças aos seus (terríveis) traumas vividos naquele lugar e o fato de ter que lidar com sua mãe excêntrica e autoritária.

Mesmo assim, a protagonista retorna à sua antiga cidade e munida com sua tenacidade e teimosia (ela é o retrato fiel do bom jornalista, daqueles que não medem esforços quando em busca de uma boa história) começa a cavar os esqueletos escondidos no armário de uma comunidade revestida por uma camada de hipocrisia sob a aparência de boa gente. O problema é que após ela iniciar a investigação – o que começa a incomodar a maioria dos cidadãos acostumados à vida pacata do local – novos crimes começam a acontecer, e a sombra de um assassino em série passa a perdurar sob as vielas e matas da comunidade.

A série é, sem dúvidas, uma obra que merece ser visitada por vários motivos que a diferem da maioria das séries convencionais de investigação policial. Existem produções muito famosas que apostam em uma trama bastante amarrada, com pistas sutis espalhadas ao longo dos episódios para que o expectador vá, aos poucos, montando um complexo quebra-cabeça. Há também séries com ritmo acelerado, com finais, cenas e episódios baseados em cliffhangers (ganchos para serem finalizados na cena ou no episódio seguinte). Outras investem no desenvolvimento dos personagens como tema central de sua narrativa. Sharp Objects aposta nessas três ferramentas para contar sua história.

Sempre sob o ponto de vista da protagonista, Sharp Objects nos mostra os pensamentos da personagem sob a forma de flashbacks que não são previamente anunciados. Eles simplesmente surgem durante as cenas, fazendo com que os eventos atuais se mesclem aos eventos do passado, o que por si só, já demonstra a excelência técnica da série, uma vez que a montagem e a edição são simplesmente impressionantes.

Se a melhor edição é aquela que o expectador não percebe, aqui a mão do editor vai além e torna a sequência de cenas tão natural que o expectador é capaz de se ver dentro da mente da personagem de Adams, navegando entre seus devaneios – muitas vezes extremamente dolorosos e melancólicos – em contraponto ao que está acontecendo no presente. Essa edição bem articulada é também bastante eficaz no que se diz respeito a provocar emoções no expectador. Fica bastante claro o que está passando na cabeça da protagonista, bem como quais sentimentos ela está sentindo.

Outros elementos técnicos bastante significativos são a edição e mixagem de som, que acabam por criar um clima bastante imersivo. O constante ressoar dos insetos da mata (bastante comuns em cidades circundadas por vegetação), assim como os ecos que ecoam na mente da protagonista são simplesmente ótimos de se ouvir.

A direção de fotografia é outro elemento a ser comentado e elogiado em Sharp Objects . Com uma paleta de cores mais voltada para os tons quentes e uma textura amarelada e doentia, fica estabelecido o clima que os personagens estão vivendo, sob a ameaça de tudo desmoronar e a constante falta de esperança, que não se resume apenas à ameaça de novos assassinatos, mas sim, há uma falta de perspectiva que reside na cidade. Fica aquela mensagem de que as pessoas que nascem ali irão crescer ali, e necessariamente também irão morrer ali, sem grandes mudanças em suas vidas, algo que também é reforçado pela atuação dos atores.

O ritmo mais lento em alguns momentos pode desagradar a alguns, porém, faz parte da proposta do texto, uma vez que a beleza da narrativa está nos detalhes que só se pode ver por meio da contemplação. Quanto a atuação, a escolha do elenco está sublime. Todos os atores estão muito bem alinhados, contudo, vale ressaltar alguns personagens em destaque. Amy Adams dá a sua jornalista uma identidade bastante pertinente, mostrando o retrato de uma pessoa que carrega o trauma de uma grande perda no passado em seu psicológico e também em seu corpo, tendo que lidar o tempo todo consigo mesma, ou pelo menos tentando, pois a personagem tem tão pouco amor próprio que passa a maior parte do tempo sob a influência do álcool para poder se suportar (e evitar a tentação de se cortar), suportar a perda da irmã e, conforme vemos nos momentos finais, o medo de se tornar algo parecido com sua mãe.

Temos também Patricia Clarckson, Adora Crellin, a problemática mãe de Camille, uma mulher sistemática, controladora ao extremo e tão obcecada por manter as “boas aparências” que coloca isso diante do bem estar de suas próprias filhas, mas que, apesar de toda a marra de pessoa endurecida pela vida, também demonstra em alguns momentos uma espécie de amor doentio. Sentimento que é justificado pelos seus próprios princípios distorcidos, ou seja, vemos em seus olhos, diálogos e na forma de agir, que ela realmente crê que o que faz é o certo.

Chris Messina interpreta o detetive Richard Willis, um detetive que vem da cidade grande para sofrer com o calor causticante da região e incomodar os bons cidadãos da cidade, bem como o cansado, mas otimista xerife Bill Vickery (brilhantemente interpretado pelo veterano Matt Craven). Mesmo com todas as adversidades, Willis tenta passar por cima do preconceito e concluir seu caso, o que não o impede de se envolver amorosamente com Preacker.

É necessário destacar o elenco juvenil de Sharp Objects, protagonizado por Sophia Lillis (que interpreta Camille mais jovem), Lulu Wilton (a irmã falecida de Camille, Marian Preacker) e pela brilhante Eliza Scanlen (Amma Crellin, a irmã mais nova – anda viva – de Camille), grupo este que, apesar de atuar em linhas do tempo distintas, desenvolve diante do público – com bastante verdade, diga-se de passagem – o que é de fato, ser adolescente e o quanto essa fase pode significar para os jovens um momento de constantes conflitos de sentimentos. A curiosidade sobre o mundo, dor, medo, abuso e também, o potencial que essa idade pode demonstrar para realizar feitos cruéis e desprezíveis, são mostrados por elas.

Outro fator a ser destacado em Sharp Objects é o final impactante, que apesar de ser quase impossível de ser previsto pelo expectador, não é gratuito, pois quando se analisa os eventos passados, pode-se justificar o arco final a partir das pistas sutis espalhadas ao longo do enredo. Mas a cereja do bolo, claro, é a cena pós créditos…

É importante registrar que Sharp Objects é uma belíssima obra que realmente vale a pena ser assistida. Criada por Marti Noxon, que também fez parte do talentoso time de roteiristas, a série é brilhantemente dirigida por Jean-Marc Vallée, que entrega uma produção realizada com um cuidado excepcional, contando uma história sensível, que vai causar no expectador empatia, medo e um misto de sentimentos. São oito episódios de quase uma hora de duração, mas que causam a impressão de serem mais curtos graças a primazia de sua produção.

SHARP OBJECTS
5

Resumo

com um grande elenco, Sharp Objects mostra um thriller arrebatador, perturbador, inquieto e com toques de filmes de terror, que nos faz nos envolver com a história desde o primeiro episódio. Realizada com um cuidado excepcional, a minissérie conta uma história sensível, que vai causar no expectador empatia, medo e um misto de sentimentos.

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Cineasta independente e amante de filmes e séries. Nutre uma intensa paixão pela habilidade que só o ser humano tem de transmitir os aspectos de sua alma por meio da Arte...