Crítica | ‘Os Inocentes’ acerta ao equilibrar ficção científica, suspense e romance

Resenha de :
Leonardo Barreto

Reviewed by:
Rating:
3
On 23 de agosto de 2018
Last modified:23 de agosto de 2018

Summary:

Os Inocentes consegue reunir ficção-científica, suspense, drama e romance em uma trama que consegue ser equilibrada e instigante.

Estamos em um época em que produções de cinema e TV estão apostando em histórias com adolescentes e jovens adultos, tendo como pano de fundo distopias, elementos sobrenaturais e ficção-científica. Com uma quantidade enorme de séries em seu catálogo, a Netflix consegue com Os Inocentes abraçar algumas dessas temáticas para construir uma trama instigante, em que o espectador engajado com produções como Stranger Things, The OA, Dark e Sense8 poderá se identificar.

A trama de Os Inocentes acompanha os adolescentes Harry (Percelle Ascott) e June (Sorcha Groundsell), que fogem de suas famílias repressoras para viver um grande amor. As coisas tomam um rumo inesperado quando eles descobrem a extraordinária habilidade de transmutação de June. Enquanto tentam manter sob controle esse estranho poder, um misterioso professor revela que June não está sozinha: há outras pessoas como ela. Ele também promete curá-la e ajudá-la a encontrar a mãe que a abandonou três anos antes.

O primeiro episódio da série procura envolver o espectador, acertando em cheio ao apresentar os personagens e situar o papel de cada um deles na trama. Ao longo dos episódios, a jornada de Harry e June vai ficando mais intensa, e o deslocamento que eles fazem em direção ao seu objetivo é essencial para movimentar a trama. No entanto, não espere uma narrativa muito ágil. Os Inocentes trata de valorizar a descoberta dos protagonistas e os elementos sobrenaturais vão sendo revelados aos poucos.

Ao mesmo tempo em que os jovens fogem, é bom frisar que os seus pais irão atrás deles, e eles também serão perseguidos por outros personagens, o que nos leva a uma oscilação em até quatro núcleos, que sempre movem a trama, embora os protagonistas sempre sejam, essencialmente, o centro das atenções.

Há uma oscilação evidente no ritmo da série. As vezes o dinamismo é capaz de empolgar, com momentos de bastante tensão e temor pelos personagens. Em outros, há uma sensação de que não há nada muito relevante acontecendo, analisando os oito episódios em uma perspectiva mais ampla. Porém, é justamente essa quantidade um dos maiores trunfos da série, que embora pudesse ter umas duas horas a menos nessa primeira temporada, não chega a provocar apatia ou desinteresse. Séries que optam por desenvolver uma narrativa mais cadenciada não são necessariamente arrastadas, e Os Inocentes não sofre desse mal.

A cinematografia da série é um aspecto que agrega bastante qualidade à produção. As cenas que se passam na Escócia e na Noruega utilizam belíssimos planos abertos, contrastando com os ambientes fechados em que alguns personagens estão presos. Há uma clara distinção visual entre as cidades, seja no local onde são realizados os testes, na cidade e no interior, lar dos protagonistas. Os Inocentes é uma produção feita para provocar imersão no espectador, combinando composições de cena acertadas e uma trilha sonora eficaz.

A direção de Farren Blackburn e Jamie Donoughue se encarrega de focar essencialmente no casal de protagonistas. Desta forma, a jornada emocional e o amadurecimento de June e Harry ficam em primeiro plano. Prova disso são os efeitos utilizados, econômicos no que diz respeito ao tempo de tela, mas muito bem executados quando necessário. O suspense sempre paira no ar, em uma prova de que uma boa ambientação é sempre apropriada, e o uso  diálogos expositivos, por exemplo, é algo que a série evita e acerta em cheio. Porém, a falta de pistas, sobretudo no meio da série, pode incomodar os mais ansiosos.

Uma questão importante sobre Os Inocentes reside na extraordinária habilidade de June. Sua capacidade de assumir outra identidade altera com quem ela se parece, mas preserva o que ela é. Desta forma, abre-se um espaço para um subtema que pode se ancorar nas discussões atuais de gênero, mas a série opta por não se aprofundar muito nessa questão. Mas é curioso observar a protagonista no corpo de um cara grande e barbudo, ou assumindo a forma de uma outra mulher, o que definitivamente perturba Harry em um nível que poderá fazer você rir de nervoso.

Outro ponto em que a série britânica acerta é a abordagem e a temática que não se limita a um romance adolescente raso. A mão chega a pesar um pouco do drama, mas o relacionamento de Harry e June é algo verdadeiramente interessante de se acompanhar, e ao passo em que o senso de urgência de suas ações aflora, ao sair do lugar comum que a série poderia facilmente ocupar. Esses são dois jovens que de uma vida de repressão passam a ganhar o mundo, conhecem diversos prazeres com os quais nunca haviam lidado, e isso é colocado em tela de forma acertada.

O nome de maior visibilidade na produção é sem dúvida alguma Guy Pearce. Sua presença é capaz de intimidar e as suas ações são ambíguas e confundem realmente o espectador. É necessário investir e mergulhar na série para descobrir aonde ele quer chegar. Porém, o talento dos jovens Percelle Ascott e Sorcha Groundsell impressiona. E a química entre eles também, cabe ressaltar, sendo algo que se desenvolve ao longo dos episódios. Groundsell, em especial, oferece cenas de muita entrega. O elenco de apoio também não deixa a desejar, com destaque para nomes pouco conhecidos para nós, mas que marcam presença positivamente, como Ingunn Beate Øyen, Laura Birn e o pitoresco Jóhannes Haukur Jóhannesson.

Em uma época em que nunca houve uma oferta tão grande de séries na TV e no streaming, Os Inocentes oferece um certo frescor, com uma trama que pode agradar aos fãs de ficção-científica e suspense, mas que é também um estudo de personagens que passam por uma fase de descobertas e amadurecimento forçada pelas circunstâncias. Há sim, surpresas e reviravoltas em algum nível, mas a jornada é especialmente o melhor da série.

Os Inocentes estreia na Netflix em 24 de agosto.

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Léo Barreto

Carioca, apreciador de filmes e séries em tempo integral, quando o Bernardo (filho dele) deixa. Iniciou sua admiração pela sétima arte com os clássicos da sessão da tarde e se apaixonou pelo mundo das séries quando o Voo 815, da Oceanic, caiu misteriosamente em algum lugar no meio do nada...