Um desejo errante em ‘O Homem Duplicado’

O texto abaixo contem spoilers do filme O Homem Duplicado.

Em O Homem Duplicado, de Denis Villeneuve,  Adam (Jake Gyllenhaal) é um pacato professor de história cansado de seu cotidiano. Suas aulas tendem a ser repetitivas e os dias esvaecem sem grandes emoções. Em casa, ele mantêm um relacionamento vazio com sua namorada Mary (Mélanie Laurent), baseado essencialmente em sexo.

Um dia, quando estava na sala dos professores, um colega lhe propõe para assistir a um certo filme. Sem grande entusiasmo, Adam segue a sugestão. Enquanto assistia ao filme em sua casa, nota um personagem muito semelhante com ele, depois de descobrir o nome do ator e pesquisa-lo na internet, percebe que de fato são idênticos, o ator se chama Anthony. Evidentemente, sabe-se que um dos dois não existe, afinal de contas, partindo da premissa que o protagonista não possui um irmão gêmeo ou um clone, logo um deles é ilusório.

A temática do duplo é antiga na literatura, desde o século XIX. Obras como O médico e o monstro (Robert Stevenson), O duplo (Dostoievski), William Wilson (Edgar Alan Poe), entre outras, já abordaram essa questão. O duplo é uma espécie de metáfora em que um aspecto psicológico de uma personagem pode ser materializado em um “outro eu”, criando assim um paradoxo. Em qualquer indivíduo, existem partes da personalidade que são conflitivas entre si; na literatura e no cinema, por meio da perspectiva do realismo fantástico, uma parte oculta do psiquismo é corporificada fantasiosamente, propiciando assim a existência de duas partes do mesmo personagem.

O Homem Duplicado está longe de ser um filme simples e convencional, começando pela sua narrativa não linear, a noção de tempo se perde. O filme tem um ritmo bem lento na maior parte das vezes com aceleradas repentinas, recheado de metáforas e cenas bizarras inseridas bruscamente como mensagens subliminares, principalmente nas que envolvem as aranhas. Além disso, a fotografia do filme tem uma aparência amarelada-esverdeada, contribuindo assim com um clima bastante onírico e surreal.

Após Adam se deparar com a existência de Anthony, ele consegue encontrar o número de telefone da casa de seu “sósia”, mas quem atende é a esposa de Anthony, Hellen (Sarah Gadon), que por sua vez, acredita que está conversando com o marido. Adam desliga o telefone e liga novamente, mas dessa vez quem atende é o próprio Anthony, que ficou confuso com a história contada por Adam. Hellen chega a ver Adam e fica perturbada ao ver como ele é idêntico ao marido, e em seguida conta para ele. Anthony, a fim de esclarecer a situação, marca um encontro em um hotel com Adam. Após se verem cara-a-cara, a conversa é rápida e Adam foge. Anthony ao seguir Adam, acidentalmente acaba conhecendo a namorada dele e se sente atraído por ela.

Em O Homem Duplicado, não há um esclarecimento de quem é o eu “verdadeiro”. Entretanto, há uma cena entre Anthony e sua mãe em que é possível deduzir isto. No diálogo entre eles, sua mãe lhe diz para desistir de sua carreira como ator. Se Adam é o eu fantasiado por Anthony, portanto Adam é a uma idealização ou uma alucinação. Enquanto o ator é cheio de si, agressivo, ativo e mais sexual; o professor é discreto, passivo, inseguro e controlado.

Na primeira cena do filme, Anthony está em uma espécie de bordel de luxo em que as moças fazem gestos e danças eróticas. Desde esse momento, já notamos o ator tenso, tentado. Talvez, a grande questão do filme seja o esforço de Anthony em tentar domar o seu desejo e evitar as suas traições a partir da serenidade de Adam.

Próximo do desfecho do filme, Anthony tem uma crise de ciúme, pois acredita que Adam teve relações com Hellen. Devido a isso, ele obriga Adam a trocar de papel, e ele aceita sem questionar. Quando Anthony tenta transar com a namorada de Adam, esta logo percebe a marca de aliança no dedo dele. Ao desmascarar a fraude, pede para ser levada para casa. No carro, eles começam a discutir. Depois dela chama-lo de criança, Anthony se enfurece, perde a direção do carro, e os dois capotam e morrem tragicamente.

Pode-se pensar que, na fantasia do ator, essa seria uma forma de matar a sua personalidade impulsiva e assumir o papel de Adam. Enquanto ocorre o acidente, Adam tem relações com Hellen, que em nenhum momento nota a presença do farsante. Na cena final do filme, o novo casal formado parece estar entrosado, levantando da cama para mais um dia. Depois de Hellen entrar em um quarto da casa, o professor a segue, mas no lugar dela há uma aranha gigante e o filme é encerrado abruptamente.

A metáfora das aranhas é um dos aspectos mais importantes do filme, pois pode-se pensar que elas são a representação do feminino, da mulher e do desejo do protagonista. Não é nada raro fazer a analogia da aranha com a vagina. Na primeira cena do filme, em que Antony está no bordel, no fim da performance da mulher, uma aranha saí de dentro de um prato e em seguida é pisada pela moça e o ator está com as mãos no rosto, o que revela mais uma vez a dificuldade do ator em controlar os seus impulsos sexuais.

Em uma outra cena, há uma mulher com uma aranha no lugar de sua cabeça. Na última cena, em que Antony vê a aranha gigante com uma expressão de alívio, talvez ele reaja sim, pois percebe que não consegue escapar de seu desejo. Pr mais que tente fugir, ele baterá na sua porta e lhe enfrentará face-a-face, mostrando ao ator que ele não dará conta de ser fiel à esposa. Apesar do eterno conflito, não se pode abrir mão totalmente do desejo, no máximo tenta-se barganhar com ele. É interessante ressaltar que em inglês o filme se chama Enemy (Inimigo). De fato, nenhum inimigo é pior do que nós mesmos. Anthony é a prova viva disso.

A crítica ficou bem dividida em relação ao filme. Alguns reclamaram a falta de clareza da história, com significados e metáforas vagas. Particularmente, acredito que essa falta de clareza do filme e a dualidade dos personagens interpretados por Jake Gyllenhaal são os diferencias e as maiores virtudes do filme, permitindo uma rica interpretação e discussão, pois não há um ponto de vista correto. Nos esforçamos apenas em compreender essa estranha realidade psíquica.

Dante Ferrara

Psicólogo clínico, apreciador de filmes, séries e literatura desde criança. Esforça-se em fazer relações entre entretenimento e psicanálise, suas duas maiores paixões.