Crítica | (Des)encanto: nova série de Matt Groening tem humor, aventura e algo a dizer

Resenha de :
Leonardo Barreto

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4
On 16 de agosto de 2018
Last modified:16 de agosto de 2018

Summary:

Desenvolvida por Matt Groening (Simpsons, Futurama), "(Des)encanto" traz em sua 1ª temporada aventura, humor e temas mais profundos como descoberta.

Um reino medieval com uma princesa beberrona, um demônio de estimação e um elfo. Assim está formado o trio de protagonistas de (Des)encanto, nova animação de Matt Groening (Simpsons, Futurama), que estreia na Netflix no próximo dia 16 e acompanha a história desses 3 amigos improváveis.

(Des)encanto segue as aventuras de Bean, uma princesa de 19 anos que foge do estereótipo tradicional e gosta de beber. Ela deseja se libertar de seu pai controlador, o tirânico rei Zøg de Dreamland. Com uma pequena ajuda de Luci, seu travesso “demônio particular” e o ingênuo e insaciavelmente curioso elfo chamado Elfo, ela começa a experimentar a vida em seus próprios termos com consequências inesperadas. Lutando para escapar de um casamento arranjado, Bean e seus amigos exploram terras repletas de gnomos, duendes, diabinhos, sereias, monstros do pântano e muito mais.

Admirador de histórias medievais, Groening se aventura por um território desconhecido, uma vez que suas animações anteriores tinham ambientação contemporânea (Simpsons) e futurista (Futurama). Com um espírito assumidamente cômico, (Des)encanto desenvolve sua história através de uma narrativa repleta de aventura, mas que carrega consigo subtemas bastante interessantes, através da peculiaridade de Bean, a protagonista. O amadurecimento e a descoberta que a jornada da personagem mostra tornam a sua história bastante  peculiar e surpreendentemente adulta.

Cada um dos sete episódios disponibilizados pela Netflix (a primeira temporada conta com 10 no total) mostram histórias individuais, que fazem parte da jornada da protagonista. O roteiro é bastante dinâmico, embora demore um pouco a direcionar aquilo que realmente deseja para o arco central. Ao apresentar personagens – para não dizer espécies –  tão diferentes, há uma diversidade visual muito interessante em tela, que remete à animações como BoJack Horseman.

Em termos de composição de cena e detalhes, a animação apresenta muitos detalhes em tela, evidenciado um capricho nas cores e na produção em si. Embora o traço tradicional de personagens como Homer Simpson e Fry estejam ali, (Des)encanto possui uma personalidade estética e temática bastante definida e é claramente mais ambiciosa nesse aspecto, em comparação as outras séries de Groening. A bela cinematografia não deixa a desejar, tanto nas cenas mais vistosas e exuberantes, quanto nas mais escuras.

Trio de protagonistas cativantes

O primeiro episódio de (Des)encanto trata de reunir um trio inusitado de protagonistas. Esse é justamente um dos motivos para acompanhar a série, que se por um lado pode desagradar aqueles que não gostam de histórias de fantasia, poderá fazer essa parcela do público se apegar exclusivamente aos arcos de Bean, Luci e Elfo, que são muito diferentes e possuem bastante coisas em comum. A animação peca apenas em não desenvolver tanto os seus coadjuvantes, com exceção do turrão rei Zøg, mas isso acaba não se tornando um problema.

A princesa Tiabeanie, conhecida como Bean, não se enquadra de maneira alguma nas regras vigentes. Casar? Nem pensar! Orfã de mãe, essas tais regras não se aplicam para a jovem que deseja sair pelo mundo e deixar para trás a sociedade patriarcal do reino, onde não conseguirá ir muito além do papel de princesa tradicional, coisa que ela definitivamente não é. O interessante é observar na personagem todo o ímpeto necessário para a sua rebeldia, ao mesmo tempo que carrega uma certa ingenuidade de quem é jovem e ainda está presa a um sistema.

Elfo também possui um arco interessante. Em sua terra, Elfwood, doces, sol e felicidade são o que se tem para viver. Mas, sair da zona de conforto é aquilo que o impulsiona, mesmo que para isso ele precise experimentar tristezas e decepções. O senso de não pertencer a um lugar e o anseio pelo novo o colocam em uma jornada que o aproxima muito de Bean, e que os tornam muito parecidos em sua essência.

Mais jocoso entre os três, Luci é o demônio que por muitas vezes é confundido com um animal de estimação. Bean é a sua primeira missão, então ele não  mede esforços para persuadi-la. É basicamente o diabinho que a leva a tomar decisões ruins, o que é parte dos momentos engraçados que a série proporciona.

Em linhas gerais, (Des)encanto é uma série que faz rir – embora não hajam tantas gargalhadas – mas também tem algo a dizer. Ao conduzir sua narrativa com uma profundidade inusitada, a animação merece a atenção do público que é entusiasta de histórias de fantasia épicas e medievais, e acima de tudo, com personagens fora dos padrões e deliciosamente desfuncionais.

Léo Barreto

Carioca, apreciador de filmes e séries em tempo integral, quando o Bernardo (filho dele) deixa. Iniciou sua admiração pela sétima arte com os clássicos da sessão da tarde e se apaixonou pelo mundo das séries quando o Voo 815, da Oceanic, caiu misteriosamente em algum lugar no meio do nada...