‘Corpo Fechado’ e a Filosofia

Não é preciso ser um grande fã de cinema para conseguir sentar na poltrona e se encantar com o cinema de M. Night Shyamalan, um dos grandes nomes do cinema do suspense da contemporaneidade.

Temas como espíritos, alienígenas e super-heróis já são suficiente para chamar a atenção de um grande púbico; misture isso com um grande mistério a ser solucionado e ótimas reviravoltas e já temos aí um diretor que merece notoriedade. Seu carinho e conhecimento pela sétima arte são explícitos em suas maiores obras.

Mas, por baixo do que acabamos de citar, existe uma pequena infraestrutura que serve como um poderoso e firme alicerce para as obras do diretor, um alicerce que combina o cinema com uma profunda experiência de viver. Todas as grandes obras de Shyamalan abordam temas como: Existência, Fé e Essência, e nos mostram como é difícil e trabalhoso segurar o peso da existência e como os homens podem se reajustar às mais distintas formas para viver e conviver. Ora! Não seriam essas as bases que encantam e assombram a vida do Homem?

Os filmes de Shyamalan, se contemplados com a devida atenção, se tornam um espelho muito bem construído de nós mesmos, e seus temas socialmente universais promovem uma profunda experiência, que não desgruda do telespectador, mesmo quando os créditos sobem e a vida tenta, de maneira desajustada, voltar aos trilhos.

Corpo Fechado é o filme em que esses elementos estão presentes em sua melhor forma. Shyamalan faz um verdadeiro passeio por distintas formas de pensamento e nos brinda com um filme digno de aplausos.

Corpo Fechado (2000)

Após o prólogo, onde conhecemos o pobre bebê Elijah Price (Samuel L. Jackson) que nasceu com uma doença degenerativa em que seus ossos são quebrados com facilidade, nos encontramos com o passivo David Dunn (Bruce Willis). O mundo comum nos é apresentado com um homem, aparentemente apático, que esconde a aliança para flertar com a mulher da poltrona ao lado do trem, mas numa atitude um tanto que dúbia, não vemos em David o desejo, ou melhor, o vigor pela conquista de algo novo, mas algo que mais se assemelha há uma tentativa de sentir alguma energia, uma profunda vontade de viver, de se enquadrar ao meio. Algo que lhe faz muita falta!

Agora o inevitável acontece, o trem descarrilha, a vida sai da rotina, um acidente mata milhares, mas, David Dunn, o Homem Comum, se torna o único sobrevivente do acidente; e sem nenhum arranhão.

Este é o momento em que nos transportamos para a obra e não retornamos mais. Sobre o que esse filme vai falar? Uma mutação genética? Um milagre divino? Sobre a adaptação dos seres ao meio? Ou sobre a importância de crer em Deus?

Por ser um homem aparentemente inquebrável, a inserção de David na vida Social não parece ser nada estável: Está divorciado, não ganha muito dinheiro e carrega consigo uma profunda apatia pela vida. David não se sente diluído no meio social, mas descolado dele, porém, tudo mundo com a chegada de Elijah Price e sua fantástica teoria sobre David.

Para Price, David é um Super-herói, pois, segundo ele, Super-heróis refletem uma profunda e verdadeira experiência que alguém já vivenciou, mas que hoje está empacotada, industrializada e vendida para a sociedade de consumo. Price arma David com ferramentas de percepção e pede que o mesmo apenas reconheça os sinais de sua essência.

Conforme David avança na trama, começa a se convencer de que é mesmo um super-herói e tem medo de que isso não seja apenas uma teoria ridícula de sua cabeça. Aqui, podemos traçar um paralelo sobre a forma de pensamento Grego-Aristotélica de pensar. Para Aristóteles, filósofo que viveu em cerca de 383 a 322 a.C, vivemos em um Cosmo finito e ordenado onde cada pequeno elemento deve viver para cumprir seu papel no Cosmo. Um homem, deve viver regido pelas tuas Virtudes e ser virtuoso significa saber como agir nos mais distintos momentos.

Corpo Fechado (2000)

Além disso, Virtudes significa encontrar o seu papel no todo cósmico, e sendo assim, o homem deveria viver buscando sempre elementos que visassem aprimorar as mesmas, chegando assim na Eudaimonia, que hoje, traduzimos informalmente por felicidade.

Como percebido, Arístoteles acredita que os homens possuem essência e respeitar essa essência significava: vida boa, ética, justa e bela. Podemos perceber características dessa linha de pensamento em David e Elijah. David é apenas um homem que não encontrou seu lugar natural e que sofre a pressão social. David está muito fora da Eudaimonia aristotélica e a sociedade o tornou apático e passivo. Pois, Aristoteles também dizia que uma boa Vida na Pólis, seria uma vida em que permitisse aos cidadãos encontrar tuas virtudes, mas que a maioria delas não iria fazer isso, e que a maioria dos homens iam estar fadados a viver em desarmonia com o Cosmo.

Mas as coisas começam a degringolar quando percebemos que David não está seguro de si, suas faculdades de super-herói começam a falhar e ele se recorda que quase morreu na adolescência em uma piscina. Ele começa a se sentir ridículo consigo mesmo, mas Elijah continua insistindo e sempre entrega para Dunn novos conceitos sobre o universo dos super-heróis.

David está quase convencido de abandonar a busca interna sobre sua essência, quando a FÉ de seu filho o coloca de volta na jornada.

Encontramos aqui mais uma linha de pensamento, de viés mais idealista, como a filosofia Cristã. Para os Cristãos, o objeto de pesquisa não está na natureza em si, mas sim no criador da mesma, este fala com você, mas não com palavras em sim com sinais, e devemos viver regidos pela vontade do criador, pois ele tem uma missão para todos nós.

As virtudes aqui têm um sentido diferentes: São condutas universais que Deus espera que seus filhos sigam, o inverso disso chamamos de pecados.

Corpo Fechado (2000)

Para os filósofos Cristãos, a avaliação divina não está mais na vida como um todo, mas em pequenas condutas que são regidas pela vontade dívida. Aqui você não necessariamente precisa se sentir bem para estar no caminho certo, como Cristo. A boa conduta geralmente vem acompanhada de dedicação e sofrimento.

Mas, o mais importante, Deus nos pede a Fé, umas das três virtudes Teologais. Fé significa a crença em algo que não se deixa revelar, pois o criador não se deixa revelar na vida natural.

Acreditar que seu pai é um super-herói, fez Joseph Dunn entrar em contato com a grandiosidade, com o milagre, com a sensação de força e onipotência e faz Dunn refletir que o que importa não é SER inquebrável, mas acreditar ser inquebrável. Na crença ele se torna forte.

David Dunn aceita seu destino e Shyamalan nos brinda com umas das cenas mais poéticas do cinema. Dunn entra na caverna escura, enfrenta seus medos internos e externos, confronta o vilão e volta revigorado. Finalmente se encontrou.

David agora é um novo ser, sua vida não é mais ruim, a tristeza foi embora, a felicidade é sua amiga. É hora de agradecer a Elijah pela ajuda.

Corpo Fechado (2000)

É chegado o Plot Twist, Elijah é na verdade um terrorista genocida, que matou milhões por não conseguir se enquadrar ao mundo da vida, por ódio. Aquele que víamos como arauto e mentor, se revela um camaleão, pois na verdade era o vilão da trama.

Esta inversão de papéis é o que nos desconforta e o que faz com que o filme não saia da nossa cabeça. Afinal, Elijah diz ter finalmente encontrado o seu lugar natural, o de vilão, que é o exato oposto do Herói. Mas Elijah não está em uma missão divina e muito menos em seu lugar natural, em qualquer forma de pensamento sentimos que ele está errado, mas, ironicamente, ele parece estar certo.

Shyamalan nos presenteia ao mostrar a dificuldade que temos em suportar o peso da existência e a dificuldade de nos enquadrarmos nas realidades que nos são apresentadas. Mostra a importância do ser e a importância da crença, mas, acima de tudo, mostra que o homem é apenas aquilo que acredita ser, tornando Corpo Fechado um filme de temática universal, provocativo, divertido e intrigante.

Matheus Amaral

21 anos, formado em Audiovisual, amante do cinema em todos os seus aspectos. Filósofo de bar. As vezes mistura as coisas...Desde pequeno assistia tudo o que via pela frente, cresceu lado a lado com o cinema e com as suas diversas vertentes.