Crítica | ‘Sicário: Dia do Soldado’ amplia a visão sobre o tráfico de drogas

Resenha de:
Leonardo Barreto

Reviewed by:
Rating:
3
On 7 de julho de 2018
Last modified:7 de julho de 2018

Summary:

Com uma ação visceral e estabelecendo novos rumos para seu universo, "Sicario: Dia do Soldado" não supera seu antecessor mas também se mostra um complexo e denso drama.

Lançado em 2015 e sem muito alarde, Sicario: Terra de Ninguém ofereceu uma visão crua sobre a guerra ao tráfico de drogas na fronteira entre os Estados Unidos e o México. Dirigido por Denis Villeneuve, o filme fez sucesso entre a crítica e garantiu uma continuação, Sicário: Dia do Soldado, que amplia sua premissa e traz um novo foco para a sua abordagem.

Em Sicário: Dia do Soldado, a luta contra o tráfico de drogas continua. O oficial da CIA Matt Graver (Josh Brolin) e o mercenário Alejandro Gillick (Benicio Del Toro) agora lidam com outro tipo de ameaça, o terrorismo. A nova missão, orientada secretamente pelo alto escalão do governo, consiste em sequestrar a filha caçula (Isabella Moner) de um barão das drogas mexicano. O objetivo é provocar uma guerra entre os cartéis mexicanos, que agora são considerados células terroristas.

Dirigido por Stefano Sollima, Sicário: Dia do Soldado não conta com a fotografia magistral do igualmente excelente Roger Deakins, nem com a trilha sonora do falecido Jóhann Jóhannsson. Esses são apenas alguns dos muitos aspectos que o filme tenta emular em relação ao primeiro longa, muito por conta da excelente ambientação provocada em seu antecessor. Sollima consegue extrair boas e viscerais sequências de ação, com destaque para uma cena bastante desconfortável e enervante, envolvendo um dos protagonistas. Porém, como um todo, o filme parece pecar pela falta de personalidade em muitos momentos.

Roteirista do primeiro filme, Taylor Sheridan retorna para escrever o segundo longa, em mais um filme que possui uma trama fronteiriça. Aqui, as ideias iniciais se configuram em um emaranhado de informações, assim como uma subtrama que se organiza para o entendimento do público na metade do segundo ato. A história inicialmente promete abrir um leque maior do realmente é, o que deixa algumas pontas soltas pelo meio do caminho.

Em Sicario: Terra de Ninguém, tinhamos de um lado Matt e Alejandro, agente e mercenário com seus métodos poucos ortodoxos. Do outro, a agente Kate, interpretada por Emily Blunt, era a representante do espectador. Sicário: Dia do Soldado não possui uma figura que sirva como compasso moral, o que possibilita um maior desenvolvimento dos protagonistas. No entanto, isso não acontece totalmente. Enquanto Matt ainda é visto com uma camada apenas, Alejandro possui um desenvolvimento e se apresenta de uma maneira totalmente diferente do frio e implacável personagem do primeiro filme. Isso não é totalmente ruim, pois aprendemos mais coisas sobre ele, mas é inegável que seu comportamento causa estranhamento e algumas decisões destoam da personalidade do personagem que conhecemos anteriormente. Ainda mais em um filme onde as regras formais inexistem, no cerne da missão dos personagens.

Se no primeiro filme, a luta contra o tráfico de drogas e os cartéis mexicanos eram o centro da questão, Sicário: Dia do Soldado abre espaço para novas discussões, como o tráfico humano, terrorismo e o legado familiar que o crime impõe. No entanto, nenhum deles é realmente desenvolvido de forma ampla. Os temas acabam servindo como pano de fundo para a real abordagem do filme, que também escolhe falar sobre a falta de oportunidades na fronteira e a sedução provocada pelo dinheiro oriundo das atividades criminosas.

Benicio Del Toro é um dois destaques do filme, com mais tempo de tela e entregando mais uma vez uma atuação misteriosa e com a mesma presença sombria, mas um pouco menos ameaçadora. Josh Brolin não compromete, mas também não tem a oportunidade de ir muito além. A grande atuação e surpresa fica por conta de Isabella Moner, uma jovem atriz que demonstra muita personalidade ao contracenar com dois consagrados atores. Outro jovem, Elijah Rodriguez também mostra suas qualidades no longa, que também conta com uma curta mas boa participação de Catherine Keener.

Embora siga um padrão estabelecido no primeiro filme, Sicário: Dia do Soldado entrega um resultado inferior ao seu antecessor. No entanto, o filme está longe de ser ruim, com uma trama que é igualmente densa e cheia de complexidade em vários aspectos. A abordagem dada a guerra às drogas e ao terrorismo é maior e abre espaço, inclusive, para o surgimento de uma boa e franquia de ação/suspense, que ainda tem muito o que discutir.

 

Léo Barreto

Carioca, apreciador de filmes e séries em tempo integral, quando o Bernardo (filho dele) deixa. Iniciou sua admiração pela sétima arte com os clássicos da sessão da tarde e se apaixonou pelo mundo das séries quando o Voo 815, da Oceanic, caiu misteriosamente em algum lugar no meio do nada...