Crítica | Luke Cage: 2ª temporada mantém identidade e supera a primeira

Resenha por:
Leonardo Barreto

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Rating:
4
On 21 de junho de 2018
Last modified:21 de junho de 2018

Summary:

Em sua segunda temporada, Luke Cage supera estreia na Netflix, apresentando uma trama envolvente, com ação, drama e boas atuações.

Quando estreou em 2016 na Netflix, embora tenha sido satisfatória como um todo, a primeira temporada de Luke Cage foi definida por um certo desequilíbrio em seus dois arcos. Enquanto a primeira metade definiu o herói como aquele que possui a identidade – estética e cultural – mais marcante entre os heróis de Nova Iorque, a segunda não contou com o antagonismo do talentoso Mahershala Ali, além da amplitude de temas explorados em seu início.

No entanto, a segunda temporada da série consegue subir um degrau, com uma abordagem mais dramática e urgente em sua narrativa, além de atuações sólidas e que são capazes de prender a atenção do espectador. Mesmo que ainda tenhamos que passar por 13 longos episódios (assistir tudo em um dia ou dois pode prejudicar a experiência), assim como em todas as temporadas solo dos heróis da Marvel/Netflix, o ritmo lento (que tropeça em um ou dois episódios) não prejudica as histórias, que são instigantes e vigorosas.

Na segunda temporada, depois de limpar o seu nome após Os Defensores, Luke Cage (Mike Colter) tornou-se uma celebridade nas ruas do Harlem com uma reputação tão à prova de balas como a sua pele. Mas ser tão conhecido só aumentou a pressão que ele sente para proteger a Comunidade. Com a ascensão de um inimigo novo, Lucas é forçado a enfrentar a linha tênue que separa um herói de um vilão.

Luke Cage – 2ª temporada. Créditos: David Lee/Netflix

Ao longo dos episódios, além de Cage, embora alguns coadjuvantes sejam esquecidos e algumas pontas fiquem soltas, os principais personagens da história possuem arcos interessantes e desenvolvimento adequado, dentro as possibilidades que a série apresenta. Além da responsabilidade do herói em sua comunidade, o mote central gira em torno de família e legado, explorando outros subtemas, como imigração, o papel do negro na sociedade, sexualidade, abuso e a ambiguidade que a lei e o crime possuem.

Mesmo que seja uma continuação que evidencia consequências diretas de Os Defensores, Luke Cage não se esquece dos acontecimentos da primeira temporada. Principalmente em sua primeira metade. Cornell Stokes (Ali) é constantemente referenciado, de forma orgânica. Muitos acontecimentos ocorridos no passado impactam os eventos que essa temporada mostra, e ao mesmo tempo, a trama assume uma identidade distinta neste segundo ano.

O arco do herói faz com que Luke Cage explore de diversas formas – e até divertidas – os poderes que possui. Há um interessante conflito moral, que coloca Luke em uma posição onde precisa decidir se quer ser um policial, vigilante ou justiceiro. Além disso, os limites que separam a lei e o crime serão testados como nunca, o que inclui alianças improváveis. Mike Colter parece bem mais a vontade no papel, e surpreendentemente oferece bons momentos dramáticos, quando atua com o falecido Reg E. Cathey no papel  do seu pai ausente, o reverendo James Lucas; e Rosario Dawson, que possui uma participação mais reduzida desta vez, como Claire Temple.

Luke Cage – 2ª temporada. Créditos: David Lee/Netflix

Nas cenas de ação, Colter ainda não possui uma desenvoltura muito vistosa, uma vez que seus poderes ainda se concentram em entortar armas, levar tiros e arremessar pessoas (agora ele dá uns tapas hilários na cabeça dos bandidos). Porém, nota-se aqui o peso do fardo em muitos momentos. Há situações que se desenham claramente para que vejamos o uso de sua força. Mesmo que Luke ainda esteja buscando se afirmar como herói do Harlem, ele está mais auto-suficiente do que nunca. Por sua vez, Colter possui um carisma inegável, o que possibilita a inserção do momentos mais leves, uma vez que a temporada vai ficando mais densa ao longo dos episódios.

Os crossovers que a série utiliza nessa temporada são pontuais e não soam como gratuitos. Além de algumas citações a personagens de outras séries, Colleen (Jessica Henwick) e Foggy Nelson (Elden Henson) tem pequenas participações que servem à narrativa, e não apenas para nos lembrar do universo conectado. O mesmo acontece com Danny Rand (Finn Jones), que além de não desagradar o público, o que já é uma grande coisa, oferece uma dinâmica interessante quando o Punho de Ferro age com Luke Cage nas mais diferentes formas, seja com seu dinheiro ou o próprio punho.

Luke Cage – 2ª temporada. Créditos: David Lee/Netflix

A força dos antagonistas

Uma das características mais notáveis dessa temporada está no fato de termos antagonistas fortes para Luke Cage. E que nem sempre vão encarnar o mal pelo mal. O desenvolvimento da história permite que haja um background para cada um deles, mesmo que em alguns casos, haja uma demora em conhecermos suas motivações. Mas elas existem e são exploradas.

Primeiro vilão a testar Luke Cage para valer, fisicamente,  John “Bushmaster” McIver é vivido de forma extremamente convincente por Mustafa Shakir. O personagem carrega um ódio dentro de si, que é externalizado através de ações extremamente violentas, assim como toda a temporada. A atuação de Shakir consegue cativar o expectador durante todo o tempo, mesmo quando as motivações começam a fazer falta para acreditarmos nele. Felizmente, em determinado momento, um flashback nos situa e faz com que a fúria visceral de Bushmaster ganhe corpo.

Com pretensões de ser a rainha do Harlem, Mariah Dillard se aproveita do vácuo de poder no Harlem’s Paradise, em uma ótima atuação de Alfre Woodard .Mesmo com alguns momentos de canastrice,  ela encontra o tom no decorrer da temporada e conquista um lugar de destaque no universo dos vilões da Marvel/Netflix. O mesmo vale para  Shades (Theo Rossi), que agora é o braço direito e interesse amoroso de Mariah, com um arco que se desenha de forma surpreendente.

Luke Cage – 2ª temporada. Créditos: David Lee/Netflix

Personagens femininas fortes

Embora Claire Temple receba pouca atenção desta vez (o que evita o desgaste da personagem e abre espaço para novas histórias), a segunda temporada de Luke Cage dá destaque para as mulheres. A começar por Mariah Dillard, que precisa resolver uma série de conflitos internos que envolvem traumas pesados, no que diz respeito as suas origens e o legado de sua família. Outra personagem que aparece com destaque é Tilda (Gabrielle Dennis), que reforça a discussão que existe durante a série, também sobre família e legado.

No entanto, não há como negar que Misty Knight rouba a cena todas as vezes em que aparece, o que é possível graças ao carisma e bom desempenho de Simone Missick. Seja interrogando pessoas, utilizando sua intuição investigando crimes ou lutando, suas cenas nunca são desinteressantes. Nesta temporada, a personagem passa por mudanças que a tornam mais forte. As consequências que afetaram sua integridade física em Os Defensores também são exploradas, às vezes de forma repetitiva, mas com o propósito de preparar um novo rumo para a personagem.

Porém, é nas referências e flashbacks da primeira temporada que Misty encontra base para moldar seu novo caráter. Muitas das ações do seu ex-parceiro, o policial corrupto Scarfe (Frank Whaley) são revisitadas, através de um outro prisma. Isso permite evocar, tanto nos vilões, quanto no herói e na própria Misty, um senso de justiça que transcende a existência apenas do bem ou do mal, fazendo com que esses personagens não estejam em zonas de conforto para tomar suas decisões.

Luke Cage – 2ª temporada. Créditos: David Lee/Netflix

Manutenção da identidade

Todas as características que definiram a primeira temporada estão de volta e ajudam a afirmar Luke Cage como uma série dotada de uma personalidade peculiar. A identidade visual mantém o mesmo padrão de fotografia, conservando os tons em amarelo e algumas movimentações de câmera interessantes, embora não existam planos tão inventivos.

A trilha sonora de Adrian Younge e Ali Shaheed Muhammad, com temas que vão do hip hop ao soul, com uma bem-vinda inserção do reagge, remetendo a chegada dos jamaicanos na série. E se o Harlem é praticamente um personagem, o que dizer do Harlem’s Paradise? A boate é palco para a apresentação de vários artistas, e os interlúdios dos episódios ganham corpo com incríveis números musicais, com artistas como Faith Evans, Joi & D-Nice, Gary Clark Jr., Esperanza Spalding, Christone ‘Kingfish’ Ingram, Stephen Marley, Jadakiss, KRS-One, Rakim, e Ghostface Killah.

No entanto, mais do que a estética audiovisual que torna a série divertida em muitos momentos, Luke Cage é consciente do peso dramático dos seus temas nessa temporada. Cheo Hodari Coker, o criador da série, consegue trazer à luz da discussão temas que reverberam não somente nos dramas pessoais dos personagens, mas como um todo, desenvolvendo-os de forma superior ao primeiro ano. Mesmo que, com isso, não se aprofunde tanto como poderia, o que pode ser justificável pela temática da série, que ainda é sobre um herói.

Luke Cage – 2ª temporada. Créditos: David Lee/Netflix

Ao final da temporada, o desenvolvimento paciente é justificado, com um final que recompensa as longas 13 horas, abordagem que já poderia ter sido revista pela divisão de televisão da Marvel. E se essa temporada não é a melhor dentre o universo dos heróis da Marvel (as primeiras de Demolidor e Jessica Jones ainda estão no topo), Luke Cage supera sua estreia na Netflix, apresentando uma trama envolvente, com generosas doses de ação, drama e boas atuações.

 

A segunda temporada de Luke Cage chega à Netflix em 22 de junho.

Léo Barreto

Carioca, apreciador de filmes e séries em tempo integral, quando o Bernardo (filho dele) deixa. Iniciou sua admiração pela sétima arte com os clássicos da sessão da tarde e se apaixonou pelo mundo das séries quando o Voo 815, da Oceanic, caiu misteriosamente em algum lugar no meio do nada...