Crítica | Westworld 2×04: O excelente ‘The Riddle of the Sphinx’ abre novos caminhos para a série

A estreia na direção da co-criadora Lisa Joy em Westworld não poderia ter sido melhor. Esteticamente impecável e com uma história tensa e instigante, The Riddle of the Sphinx nos deu um panorama diferente sobre a história do Homem de Preto/Willian (Ed Harris) e sua busca pela irmotalidade através da inteligência artificial. De quebra, esses 70 minutos abriram um leque de possibilidades para a série, nos fornecendo uma visão ainda mais ampla deste universo.

Em um episódio que poderia ser também uma das histórias de Black Mirror ou spin-off de Corra!, Riddle of the Sphinx deixou claro uma coisa. Para dar o protagonismo ao Homem de Preto e também concatenar a sua história com a jornada de Bernard (Jeffrey Wright), Dolores (Evan Rachel Wood) e Maeve (Thandie Newton) deveriam ficar de fora. E o resultado foi bom, ao contrário do que se poderia supor.

A direção cuidadosa de Lisa Joy é responsável por captar belíssimos planos, auxiliada pela bela fotografia de John Grillo. Destaque para a cena em que o Homem de Preto salva a mulher de Lawrence, na chuva, além da aterrorizante cena no laboratório 12 e na belíssima cena em que em um plano aberto, há um reencontro entre pai e filha (falaremos mais).

O inferno é aqui

Ao contrário do que acontece habitualmente nessa temporada, a linearidade desse episódio permitiu uma compreensão clara dos eventos. Mesmo com os flashbacks confusos de Bernard. A mensagem sobre o que se passa também fica claro no início, quando James Delos (Peter Mullan) treme suas mãos. Pelo que já fora dito no episódio Reunion, já era de se supor que a William estava por trás de um plano para ajudar o sogro que aparentava uma doença grave, em sua festa de aposentadoria.

Se você pretende enganar o diabo, você deve fazer uma oferta a ele” James Delos.

A referência ao inferno não poderia ser mais cristalina. O projeto de William não foi um sucesso e condenou Delos (de quem ele aparentemente não gostava tanto assim) ao mesmo ciclo infinito de vida e morte, em uma espécie de purgatório, como acontece com os anfitriões. A propósito, a atuação de Peter Mullan oferece um show a parte, dando total veracidade ao seu estado afetado. Desde o início, em um quarto extremamente limpo e branco, ao final, quando a fotografia capta em vermelho e preto o inferno que se tornou sua jornada sintética.

 

Ford na nuvem?

Há uma máxima sobre personagens morrerem que diz: se não há corpo, não há morte. E dessa forma Elsie (Shannon Woodward) retorna ao jogo  e descobrimos que ela não estava morta, mas mantida como refém, com algumas barras de cereal, é claro. Ok, depois de uma tensão que obviamente não iria adiante (ela não ia matá-lo), eles embarcam em uma jornada para desvendar os mistérios do laboratório 12.

Mais interessante do que o vai e vem na cabeça de Bernard é saber do que se tratam realmente esses projetos. Vejamos: depois deles saírem do laboratório onde a versão sintética de James Delos arde em chamas, eles chegam em um local onde haviam algumas bolas vermelhas impressas. Tudo o que ele fez, inclusive prender Elsie, foi motivado pelas ordens de Ford. Seriam essas bolas, consciências, e uma delas seria a do criador do parque? Mais do que isso, tal afirmação poderia levar o programa realmente a um novo patamar, onde há humanos, sintéticos e híbridos. E acho que não seria exagero admitir isso, pela forma como o onipresente Ford tem aparecido em Westworld.

O ato heroico não redime o Homem de Preto

Você se lembra quando Bernard reconhece James Delos como fundador do parque? Pois bem. Na primeira temporada, Ford e o Homem de Preto conversam. É ai que soubemos que eles estão ali há bastante tempo. Provavelmente, era de conhecimento do criador a forma como Delos havia cedido o controle de seus negócios. A experiência híbrida talvez não fosse. Fato é que, de alguma forma, tudo aponta para um embate derradeiro entre os dois.

Anteriormente, já se sabia que William queria destruir seu maior erro. Acreditava-se que fosse o parque, mas está claro pelo que fora dito por ele que a consciência humana em anfitriões foi sua grande falha. Motivado por consertar isso e ajudar Lawrence (Clifton Collins Jr.) a salvar sua esposa e filha, sua vitória em cima do Major Craddock (Jonathan Tucker).

A maior revelação, e que já havia sido teorizada na última semana, foi o parentesco de William com Grace (Katja Herbers). Aliás, Emily. Note que ele não se surpreende muito com a presença dela. Mais do que “quem ela é”, o que ela busca no parque é a grande descoberta que precisamos fazer. Será interessante ver a dinâmica entre ela e o Homem de Preto.  Pela forma como ela enfrenta e foge da Nação Fantasma, parece que Emily conhece bem o local.

Últimas palavras

* O título de episódio “O Enigma da Esfinge” se refere a um enigma da mitologia clássica: Qual criatura caminha sobre quatro pernas de manhã, duas pernas durante o dia, e três pernas à noite? A resposta: O homem, que engatinha de quatro quando bebê, caminha sobre dois pés quando adulto e depois usa uma bengala na velhice. Mas o que isso tem a ver com Delos? Ora, é justamente o ciclo que ele quer quebrar, o ciclo da vida. Mas o que ele encontra é a morte. Morte essa referenciada por William ao Major Craddock: “A morte é sempre verdadeira”.

* Em determinado momento, James Delos pergunta a William se ele está na Califórnia. “Se você não sabe, isso importa?”, diz Will. Na primeira temporada, Clementine diz a ele a mesma coisa em seu primeiro dia no parque, no episódio Chestnut, antes de oferecer sexo. É disso que Westworld se trata, afinal.

* Um dos anfitriões da Nação Fantasma é o mesmo anfitrião que se apresenta com Angela para Logan, 30 anos no passado, no episódio Reunion.

* Falando em anfitrião, aqueles sintéticos que trabalham nos laboratórios secretos são incrivelmente mais fortes do que os outros. O estrago foi enorme. Imagine eles lutando ao lado de Dolores e Maeve.

*  Quando o Homem de Preto vê vários anfitriões sob os trilhos da ferrovia, logo ele pensa que o sentido do trem está ao contrário. Ele diz que “o jogo de Ford tem vários competidores”. Será que existe mais alguém além dele jogando ou é meramente uma insinuação aos anfitriões? Isso é, no mínimo, interessante…

* A música “Play with Fire” dos Rolling Stones é a mesma que toca no toca-discos de James Delos – versão sintética. A trilha sonora dessa série rende uma bela lista no Spotfy.

* Quanto mais a série se desenrola, mais eu me lembro de Lost. Em determinados episódios da controversa série, o público era apresentado a ambientes ainda não vistos, transitando entre presente, passado e futuro. Sempre, é claro, com os mistérios que fazem os fãs teorizarem (e acertarem) sobre quase tudo.

Léo Barreto

Carioca, apreciador de filmes e séries em tempo integral, quando o Bernardo (filho dele) deixa. Iniciou sua admiração pela sétima arte com os clássicos da sessão da tarde e se apaixonou pelo mundo das séries quando o Voo 815, da Oceanic, caiu misteriosamente em algum lugar no meio do nada...