Crítica | ‘Deadpool 2’ mantém a insanidade e entrega uma sequência maior e melhor

Estabelecer franquias de sucesso não é algo fácil em Hollywood. Principalmente quando o primeiro filme de uma determinada série carrega consigo o fator surpresa, combinado com uma boa receptividade, algo que surgiu como consequência em Deadpool (2016). Quantas vezes não constatamos que o segundo filme não agradou tanto quanto o primeiro, e o terceiro acaba sendo o pior de uma trilogia? Contrariando isso, Deadpool 2 consegue estabelecer uma sequência digna da originalidade do primeiro longa de 2016 e agrada em cheio aqueles que aprovaram a nova versão cinematográfica do Mercenário Tagarela nos cinemas.

Rindo de si mesmo e nunca se levando a sério, a fórmula satírica e debochada se repete em Deadpool 2. Não há espaço para construções dramáticas ou motivações essencialmente plausíveis (o longa ri de si mesmo até nesse aspecto), embora o longa flerte com uma tentativa de maturidade em alguns momentos. Contudo, gostar do filme é uma questão de premissa. Se você embarcou nessa ideia lá em 2016, pode ter certeza que a segunda viagem por esse universo será ainda mais prazerosa.

O filme apresenta a história de forma simples e familiar. Wade/Deadpool (Ryan Reynolds) é pago para matar pessoas más, fato que é explicado na cena de abertura, onde o vemos por diversos locais do mundo, em diferentes tipos de situações. A maioria delas envolve membros mutilados, muito sangue e humor, fórmula que prevalece durante as quase duas horas de filme. No fim do dia, ele ainda é capaz de voltar para Vanessa (Morena Bacarin) e assistir televisão de chinelos e moleton.

Porém, se há situações bem familiares ao primeiro filme, o roteiro de  Rhett Reese, Paul Wernick e do próprio Reynolds se encarrega de estabelecer uma mudança que força o protagonista a transitar por novos caminhos. E isso acontece de forma inusitada e até mesmo trágica. Mas nem tanto, afinal de contas, esse é um filme do Deadpool.

A partir daí surgem situações que nos levam até a participação dos X-Men (como no primeiro filme), o surgimento de dois novos personagens (um deles é um vilão dos X-Men que faz o público enlouquecer), a chegada do ótimo antagonista Cable (Josh Brolin) e a criação da X-Force. Tudo é estabelecido quase que de forma episódica, mas os pontos vão sendo ligados organicamente – mesmo com todos os absurdos, há coerência – e se completam no ato final.

Um dos melhores diretores de ação da atualidade, David Leitch (John Wick, Atômica) se encarrega  de dar ao filme a visceralidade que ele necessita, sejam elas em plano sequência, no meio do trânsito em cima de um veículo ou até mesmo as mais intimistas, dentro de um cômodo. Dirigindo de forma muito competente as cenas de ação, ele ainda consegue extrair um humor onde há espaço para comédias em situações simples, e não apenas durante as lutas. A montagem, no entanto, não é tão precisa, para dar senso de continuidade durante algumas lutas e ações em movimento, mas não compromete.

Deadpool 2 explora novamente o fator de cura do anti-herói, da forma mais hilária possível. Também há um verdadeiro arsenal de piadas sobre a cultura pop, em especial, ao próprio universo dos X-Men (inclusive a bagunçada linha do tempo), Logan (e Hugh Jackman ), com algumas surpresas que são absolutamente impagáveis. Sim, você precisa entender muitas das referências. Também sobra espaço para zoar a Marvel e a DC, e se você tinha dúvidas sobre o Deadpool chamar o Cable de Thanos, ai vai um pequeno spoiler: ele faz isso e da melhor forma possível.

Além disso, Ryan Reynolds está disposto a qualquer coisa e dá tudo de si, sendo até, ele mesmo, alvo de piadas que incluem sua fracassada experiência no cinema como Lanterna Verde. Ele se entrega ao papel que lhe cai muito bem, e mostra que Deadpool foi uma de suas melhores escolhas no cinema.

Sobre a X-Force, talvez seja uma das maiores surpresas do filme e o trabalho de marketing em Deadpool 2 se mostrou bastante eficiente, ao nos dar uma visão nos trailers que não entrega nada do que realmente ela é, assim como em muitos aspectos do filme. Muitas surpresas ocorrem ao longo da projeção, sempre pendendo para o lado cômico.

A química entre o elenco é incrível. Deadpool e Cable em cena rendem momentos que vão da ação ao nonsense, com Reynolds e Brolin entregando, respectivamente, sarcasmo e brutalidade em doses muito bem calculadas. O vilão, aliás, carrega uma motivação sólida, estabelecida em poucas linhas de diálogo e ajuda o personagem a fazer sentido.  Zazie Beetz também impressiona como Domino, e a única falha do filme para com ela é não colocá-la em tela por mais tempo. O mesmo vale para a brasileira Morena Baccarin, peça importante no longa, mas com uma participação menor, embora compreensível por causa da trama. 

O elenco de apoio fornece momentos cômicos e há um pouco mais de espaço desta vez para T.J. Miller (Weasel), Leslie Uggams (Al Cega) e Karan Soni, que está mais engraçado do que nunca como o taxista Dopinder. Os membros da X-Force – Bill Skarsgård (Zeitgeist), Terry Crews (Bedlam), Lweis Tan (Shatterstar) e Rob Delaney, como o famigerado Peter – não possuem a participação que o público poderia imaginar, mas isso é uma das coisas mais engraçadas e inusitadas em Deadpool 2.

É preciso destacar, também, o trabalho do jovem Julian Dennison, como Russell, um mutante que tem problemas para lidar com os seus poderes. Ele acaba sendo o único personagem com um arco verdadeiramente dramático e que aproxima esse universo insano do mesmo onde habitam os X-Men, ajudando a balancear o o tom do filme. Ele e Vanessa acabam sendo as molas propulsoras do filme, impulsionando todas as narrativas.

Outro ponto a destacar, que deixou um pouco a desejar em Deadpool e melhora bastante nesse filme, são os efeitos especiais. Mesmo com toda carga de CGI utilizada, Colossus (voz de Stefan Kapicic) é mais bem construído dessa vez, enquanto os poderes da Míssil Adolescente Megassônico (Brianna Hildebrand) e da nova mutante, Yukio (Shioli Kutsuna), são bem retratados, assim como as perseguições, destruições e a tecnologia utilizada por Cable. Tudo é mais vistoso e interessante nesta sequência.

Muito já foi dito, também, sobre a bissexualidade, ou melhor, a pansexualidade de Deadpool. Algo explorado, inclusive, no primeiro filme, em formas de pequenas insinuações. Muito disso é embasado, também, na bipolaridade do personagem, algo que é mais latente nos quadrinhos (assim como a depressão) do que no cinema. Em Deadpool 2, isso volta a acontecer de forma mais intensa, apesar de seu amor por Vanessa ser algo bastante sólido. Porém, além de um momento especialmente hilário envolvendo ele e outro personagem, temos aqui um casal gay com outras duas personagens, algo não explorado em filmes de heróis e que mostra ousadia por parte do projeto.

Pode-se afirmar que Deadpool 2 é uma continuação que não deixa cair o nível e melhora em muitos aspectos. A ousadia e manutenção de um estilo ácido, sarcástico e sujo joga a favor e ajuda a construir um bom filme de entretenimento. Há filmes de super-heróis sombrios e realistas, além daqueles que convencionamos chamar de fórmula Marvel. Definitivamente, o “estilo Deadpool” não se encaixa em nenhum padrão. Isso é o que torna essa franquia boa e revigorante.

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Léo Barreto

Carioca, apreciador de filmes e séries em tempo integral, quando o Bernardo (filho dele) deixa. Iniciou sua admiração pela sétima arte com os clássicos da sessão da tarde e se apaixonou pelo mundo das séries quando o Voo 815, da Oceanic, caiu misteriosamente em algum lugar no meio do nada...