Crítica | Westworld 2×03: em ‘Virtù e Fortuna’, já não há mais fronteiras

Virtù e Fortuna é um daqueles episódios em que, logo no início, a atenção do espectador já é conquistada. Mesmo que tenha sido menor em uma escala de comparação com os demais episódios da segunda temporada de Westworld, um novo (e exótico) parque e a jornada de Dolores foram os principais alvos da narrativa.

Já sabíamos pela sinopse dos cinco primeiros episódios que o parque japonês seria revelado em breve. Porém, o vislumbre da Índia colonial do século passado, no parque chamado The Rajnão deixa de ser uma surpresa, até pelo fato de que, no filme de 1973 que dá origem à série, temos além do velho oeste, Roma e Idade Média. Isso amarra a cena do tigre encontrado morto no primeiro episódio, e também nos dá uma bela visão do local, com um design de produção impecável e belíssimos figurinos, destacados por uma fotografia diferente da usual.

A atriz holandesa Katja Herbers é uma das melhores coisa de episódio, com sua personagem Grace. Sabemos que, em uma primeira análise, ela não confia tanto nos anfitriões e já esteve ali outras vezes. Tanto é que já sabia o que deveria estar acontecendo durante a caçada. É provável que a personagem tenha uma participação importante mais adiante. Isso é, se ela tiver sorte com a Nação Fantasma.

Voltando um pouco, a cena em que ela atira em seu interesse romântico é importante por dois aspectos. O primeiro é sincronizar os eventos que acontecem em Westworld com os desse parque. Sabemos que os visitantes não podem ser atingidos de forma letal. Então, naquele momento, Ford ainda não havia feito a nova programação. Quando eles estão no acampamento e o anfitrião recita a icônica frase de Dolores “esses prazeres violentos tens fins violentos”, a história parece se situar na manhã seguinte ao massacre do fim da temporada passada.

O segundo e também importante aspecto é vermos os limites do parque sendo atingidos. Aliás, já não há mais fronteiras no complexo. Quem assistiu ao filme de 1973, escrito e dirigido por Michael Crichton, vai perceber uma certa semelhança, a propósito. Aliás, pode ser apenas uma impressão, mas o The Raj não pareceu ser tão extenso quando o velho oeste. Mas o que chama atenção é o fato de Grace conhecer bem o local, ao ponto de saber para onde ir. A propósito, a sequência culmina em uma cena incrível, com o tigre e Grace se embolando, caindo no lago.

Todos querem Peter Albernathy

Peter Albernathy agora é objeto de desejo em Westworld. A linha temporal que dá sequência ao massacre mostra Charlotte e Bernard reprogramando um anfitrião, também nos dá a visão de como eles se separaram. Sobrecarregado com informações que misturam as várias narrativas e o backup de dados feito por Charlotte, na primeira temporada, ele começa a falhar e há uma interessante a uma espécie de demência, complementado por um bom momento dramático entre Dolores e seu pai.

Voltando ao princípio, quando Dolores alterna sua jornada como Wyatt, desde o momento em que ela tenta convencer um novo grupo de Confederados a segui-la, até a chegada da equipe de segurança da Delos, basicamente o que se desenrola é um plano de defesa de território e uma batalha que não acrescenta muito a trama, embora seja muito bem executada e provoque certa tensão. No entanto, as suas consequências tem contornos interessantes.

Aparentemente, a decisão de Teddy em libertar os reféns que seriam executados pode fazer parte do seu desenvolvimento de personalidade. Estaria ele dando um passo acima, não obedecendo as ordens de Dolores, ou apenas variando a sua narrativa de bom moço? Lembremos que ela ainda não atingiu a plenitude (como Maeve) e sua liderança sobre ele não é exercida pelo controle de suas ações, e sim, por mera narrativa programada.

Já nas cenas que envolvem o trêmulo Bernard, estudando o comportamento de Albernathy, ele se torna conhecedor do arquivo dentro do cobiçado anfitrião, altamente encriptado. Mas essa não é a questão.  Sabendo dos planos da Delos e do desenvolvimento da plena consciência dos anfitriões em andamento, em algum momento ele vai precisar escolher um lado. Porém, o que temos aprendido nessa temporada é que o ponto de vista de Bernard é o menos confiável até aqui. Isso nos leva mais uma vez ao Bernard do presente. E é muito difícil que, na linha temporal do presente, Charlotte ainda não saiba que ele é um anfitrião. O diálogo entre eles deixa essa dúvida no ar.

A jornada de Maeve

A viagem de Maeve ao encontro de sua filha promete ser emocionante e conturbada. Mas antes de tudo, tem sido engraçado como Lee Sizemore tem sido subjugado, vestido como um camponês, visivelmente desconfortável. Lee também tem um bom momento quando assiste, inconformado, Hector demonstrar interesse romântico em Maeve, ao passo em que, para demonstrar isso, ainda utilize linhas de diálogo escritas por ele. E com isso conhecemos um pouco de seu passado, e compreendemos como os anfitriões estão se desenvolvendo.

É interessante notar que a capacidade de Maeve em controlar um anfitrião parece não funcionar com muitos deles. Ela consegue fazer isso com um Membro da Nação Fantasma, mas parece que muitos deles são demais para o seu novo truque. A fuga e a chegada aos porões da Delos para encontrar Armistice ajudam a criar um momento de tensão. E como é bom ver mais uma mulher badass de volta ao jogo!

Particularmente, nesse momento da história, prefiro essa improvável equipe do que o time liderado por Dolores. Pelo menos é a mais divertida. Ainda mais quando eles chegam até a neve, encontram um corpo e um samurai. Será que só o veremos novamente quando chegar o episódio que mostrará o Shogun World? É aguardar para ver.

Últimas Palavras

* A cítara que toca “Seven Nation Army”, do White Stripes, no The Raj, é mais uma das tantas referências à música pop em Westworld. A primeira coisa que veio a cabeça foi: será que temos sete parques ao invés de seis?

* Um aspecto do parque fica bem evidente no episódio: os anfitriões reconhecem os humanos, mas os humanos não sabem fazer essa distinção. Isso estabelece claramente a posição de vantagem dos andróides, algo que fora exposto décadas atrás, na cena em que Logan fica boquiaberto. Porém, não tem como evitar uma pergunta: como eles não reconhecem Bernard? Há algum DNA atrelado a ele?

* Olha…essa versão Clementine-zumbi foi assustadora:

* Ao contrário de Dolores, que tem acesso a todas as suas memórias, ou melhor, suas narrativas, Teddy não se lembra de Peter Albernathy e só conhece sua vida atual. Em outras palavras, se ele morrer, voltará a estaca zero.

Virtù e Fortuna são conceitos filosóficos adotados por Nicolau Maquiavel. Em O Príncipe, Maquiavel diz que um governante (ou líder) deve agir segundo a moral sempre que possível, mas deve infringi-la somente quando for isso necessário para a manutenção do poder. A regra, portanto, é a conquista e a manutenção do poder. A ele, porém, é atribuída a frase “os fins justificam os meios”, de forma errada. Seria essa, porém, uma alusão ao que vem acontecendo com Dolores?

* Sylvester e Félix estão de volta. E olha que curioso: os dois funcionários que reparam anfitriões no parque possuem nomes de dois gatos famosos da cultura pop. Aqui no Brasil, conhecemos Sylvester como Frajola, da série Looney Tunes. Já o Gato Félix (Felix the Cat) foi criado no fim dos anos 1910.

Léo Barreto

Carioca, apreciador de filmes e séries em tempo integral, quando o Bernardo (filho dele) deixa. Iniciou sua admiração pela sétima arte com os clássicos da sessão da tarde e se apaixonou pelo mundo das séries quando o Voo 815, da Oceanic, caiu misteriosamente em algum lugar no meio do nada...