Crítica | ‘Vingadores: Guerra Infinita’ não decepciona e entrega tudo o que promete

A campanha de marketing de Vingadores: Guerra Infinita não deixava dúvidas quanto a uma coisa: tudo o que foi projetado nesses 10 anos nos conduziu até esse momento. Os 18 filmes apresentados até então, com os mais diversos heróis, possuem tantas conexões entre si que em momento algum parecia possível convergir tudo isso em um momento único. Mas eles conseguiram.

Quando o Marvel Studios finalizou a sua primeira fase com Os Vingadores, em 2012, ficou provado que havia a possibilidade de reunir muitos personagens principais em tela, e dar a eles motivações e arcos interessantes. Com Vingadores: Era de Ultron, em 2015, a escala ficou ainda maior, ainda que o resultado não tenha sido tão satisfatório quanto o primeiro grande encontro dos heróis. Capitão América: Guerra Civil colocou novamente à prova a capacidade de promover esse complicado encontro de heróis em tela. No entanto, nada se compara a natureza grandiosa de Guerra Infinita. Ainda que seja a metade de uma história que será finalizada em 2019, o filme consegue entregar um desafio a altura da expectativa em torno de sua estreia.

A aventura épica reúne um sem-número de elementos capazes de encantar e amedrontar o espectador. Talvez, pela primeira vez, um filme da Marvel cause no público uma verdadeira sensação de ameaça e perda. Os primeiros minutos no filme não são brincadeira. Tememos pelos heróis que amamos admirar ao longo desses anos (e aqueles mais novos também) como se estivéssemos assistindo a Game of Thrones nos tempos em que absolutamente ninguém estava a salvo. De quebra, tome ai mais uma referência do mundo das séries: o fim desse filme é muito The Leftovers!

Contudo, Guerra Infinita não tem somente ares de tragédia e sabe mesclar humor e aventura, com bastante ação e um peso dramático surpreendente. Sangue, suor e lágrimas (e joias) definem esse filme. Ainda estamos falando de um longa da Marvel e todos os heróis das antigas estão lá. E os novos. Ainda temos um clima divertido e momentos de show off que fizeram o público do cinema vibrar como um gol, embalados pela trilha sonora de Alan Silvestri. Mas há também um clima soturno que pela primeira vez permeia um longa do estúdio. A perplexidade que os minutos finais causam na platéia comprovam que a estratégia de impactar, pelo menos no primeiro momento, funciona. É mais ou menos a mesma reação que as pessoas tiveram em 1980, após assistirem Star Wars: O Império Contra-Ataca. E para não deixar de lado outra referência, os times dos heróis lembram, e muito, a estrutura de uma outra aventura épica: O Senhor dos Anéis – O Retorno do Rei.

Além disso, Vingadores: Guerra Infinita não se resume apenas ao maniqueísmo. A luta do bem contra o mal puro e simples abre espaço para discutir motivações e pontos de vista. Pode um vilão ser o herói de sua história? Com um pouco de fundamentalismo em mente, é bem provável que o carismático (e odiado) vilão desse filme te convença.

Thanos é o dono de Guerra Infinita

Além de reunir dezenas de heróis e vilões, dando a cada um deles tempo de tela adequado à narrativa, Vingadores: Guerra Infinita tinha como missão introduzir um antagonista grandioso, de dimensões inter-galácticas. A jornada de Thanos redefine o conceito de vilão no Marvel Studios. Em termos de poder, já nas cenas iniciais, ele coloca todos os antagonistas dos filmes anteriores vários degraus abaixo. Além disso, o Titã Louco não representa o mal pelo mal. Ele possui motivações e suas ações fazem sentido, mesmo sendo concebido em CGI pela empresa ILM. A partir das feições do excelente Josh Brolin, o antagonista é absolutamente crível. Se há uma jornada do vilão a ser lembrada daqui a alguns anos nesse universo cinematográfico, será essa.

A direção de Joe e Anthony Russo é bem conduzida, nos levando a diversos núcleos e provocando momentos muito divertidos, sobretudo nas interações ainda não vistas entre os personagens. Esteticamente, nada muito artístico acontece, mas os diretores cumprem bem o propósito do filme. Há sequências de batalha e cenas que se desenvolvem em diversos cenários, desde Nova Iorque até outros planetas. Os Irmãos Russo sabem como situar os personagens em cada local, e também são eficientes ao dar um tratamento adequado a personagens que não perdem sua identidade aqui, em termos de estética e personalidade. Os Guardiões da Galáxia, por exemplo, são os mesmos personagens que James Gunn moldou nos dois primeiros filmes, assim como Thor e o Doutor Estranho por exemplo, que ainda não haviam passado pelas mãos dos Russo.

Colaboradores em diversos filmes do MCU (Universo Cinematográfico da Marvel), Christopher MarkusStephen McFeely constroem um roteiro que impulsiona a história, sempre impondo o ponto de vista de Thanos. Eles também conseguem preencher lacunas, como por exemplo, ao posicionar em pequenas  linhas de diálogo o fato de dois personagens importantes não estarem no filme. A história se move para a frente com muito dinamismo, mesmo nos momentos em que os heróis conversam para decidir alguma coisa ou arquitetam seus planos (típicos clichês do gênero). Há também um mérito muito grande na edição do filme. São mais de duas horas e trinta minutos sem que a atenção do espectador se perca. Os primeiros dez minutos são cruciais para definir o tom e você já percebe que esse filme será diferente.

Isto não quer dizer, porém, que Vingadores: Guerra Infinita construa todo esse cenário de forma perfeita. O filme é extremamente corajoso em dar ao vilão um status de protagonismo, acompanhando sua jornada em contraponto ao heróis, que correm constantemente contra o tempo. Mais corajosa ainda é a decisão de promover consequências nunca vistas em filmes de heróis, ainda mais se tratando da Marvel. Há momentos em que o drama é bem utilizado, por sinal. No entanto, é nesse ponto que Guerra Infinita perde um pouco do peso de suas decisões criativas. Analisando a série como um produto, dificilmente elas irão se sustentar até o próximo longa, ainda que esta seja apenas a metade da história.

Também é preciso destacar que, mesmo com a necessidade de fazer com que o filme seja dinâmico, não da dá para ignorar o fato de que o deslocamento entre os locais não seguem o mesmo sentido lógico. Entre o momento da primeira chegada da Ordem Negra na Terra, até o ato final, não parece haver tempo suficiente para que alguns dos Vingadores chegue até o planeta Tita, onde sabe lá fica sua localização. Isto sem levar em consideração os outros deslocamentos no espaço.

Por outro lado, há dois momentos que envolvem dois Vingadores da primeira formação que gelam a espinha do público. Ali, uma decisão mais ousada teria causado um impacto sem precedentes, maior do que qualquer uma das outras coisas que acontecem no desfecho do longa, inclusive na cena pós-créditos. Porém, o impacto que o terceiro ato provoca, tanto em relação aos heróis, quanto ao vilão, é um momento único e deve ser alvo de muitas discussões até o vindouro Vingadores 4. E não deixa de ser corajoso, por sinal.

Todos os Vingadores em tela

Ver todos os heróis em ação não era necessário, apenas. Promover uma interação satisfatória entre eles e dar importância as ações dos personagens mais secundários é um dos grandes méritos que o filme possui. Em determinados momentos vemos Tony Stark e Doutor Estranho (Benedict Cumberbatch) em um duelo de egos, Thor e Rocket formando uma inusitada e ótima dupla, além de um trio feminino se unindo em um momento empolgante. Mas nada acontece por acaso e tudo é concatenado com coerência e serve ao roteiro.

É interessante notar, também, como diversos eventos de filmes recentes reverberam nesse filme, mesmo com o senso de urgência do longa. O conflito entre Tony Stark e Steve Rogers (Chris Evans) em Guerra Civil, o gancho entre o fim de Thor Ragnarok e o início de Guerra Infinita e até mesmo eventos mais distantes de Capitão América: O Primeiro Vingador são importantes para a trama.

Os quatro núcleos, que ainda se subdividem em determinados momentos, cumprem um propósito bem definido. Até mesmo a subtrama envolvendo Visão (Paul Bettany) e Feiticeira Escarlate (Elizabeth Olsen) passa do desinteressante a um dos melhores momentos do longa. Além disso, em nenhum outro filme os recursos que os heróis possuem para lutar haviam sido explorados com tanta singularidade. A nova armadura do Homem de Ferro, o Homem-Aranha de Ferro, Doutor Estranho em sua plenitude e a jornada de Thor durante o filme são grandes exemplos disso. Outro fator também é muito bem explorado. A combinação de poderes entre os heróis, que precisam trabalhar em equipe para derrotar Thanos e a Ordem Negra, é fantástica, sobretudo no planeta Titã. São momentos extremamente quadrinescos e que merecem ser revisitados, inclusive no cinema.

Individualmente falando, Thor (Chris Hemsworth) possui grande destaque na trama. Talvez esse seja o filme em que o herói é retratado da forma que os fãs sempre quiseram. Outro herói que rouba a cena é o Doutor Estranho, alcançando níveis de poder ainda mais impactantes. O Homem de Ferro (Robert Downey Jr.) mais uma vez sofre e vemos mais Stark do que armadura. Por outro lado, esperava-se mais do Capitão América, que apesar de uma batalha empolgante em Wakanda, acaba lidando pouco com o conflito central, ao lado do Pantera Negra (Chadwick Boseman) e a Viúva Negra (Scarlett Johansson), entre outros. 

Equilíbrio no tom

Nos momentos de virada que a trama dá, sobretudo nos mais dramáticos, a atuação dos atores também é um ponto positivo. Downey Jr. (Stark), Zoe Saldana (Gamora) e Tom Holland (Homem-Aranha) rendem ótimos momentos – este último também sendo alvo de momentos de alívio cômico. O filme também possui momentos de leveza e apesar de ser diferente em sua aura, não pesa a mão demais em seu tom, não esquecendo da essência de seu universo. Uma prova disso é a presença de Groot, que aparentemente se tornou uma espécie de Chewbacca da Marvel. Além de aparentemente ter a função de ser engraçado em sua versão adolescente, ele contribuiu de maneira importante para um determinado evento.  

No que diz respeito ao humor, algo que caracteriza e impulsiona o sucesso da Marvel, Guerra Infinita consegue atingir um bom equilíbrio. Bruce Banner (Mark Ruffalo), Drax (Dave Bautista), Peter Quill (Chris Pratt) são personagens que continuam esbanjando carisma, com atuações bem conduzidas pela direção, que não deixa o filme perder o impacto mesmo com os momentos mais engraçadinhos. Esse é um filme que não poderia ter o peso dramático de um Capitão América: O Soldado Invernal ou a seriedade de Pantera Negra o tempo todo, tampouco possuir a leveza que Thor: Ragnarok e Homem-Formiga tiveram, por exemplo.

Em linhas gerais, Vingadores: Guerra Infinita tem um aspecto grandioso, é um entretenimento de excelência e merece ser visto mais de uma vez. Se possível em uma sala de cinema. Isso não isenta o filme de críticas nem o coloca como o maior filme de super-heróis já feito, tampouco no Universo Cinematográfico da Marvel. Porém, este é, com certeza, senão o maior, um das aventuras mais épicas realizadas dentro do gênero. Com muita coragem e ousadia, a Guerra Infinita representa um ponto de virada nos filmes do gênero e dentro deste universo. A pergunta que fica é a mesma que os presentes (boquiabertos e em silêncio) ao final da sessão de estreia do filme fizeram: falta muito para 2019?

Léo Barreto

Carioca, apreciador de filmes e séries em tempo integral, quando o Bernardo (filho dele) deixa. Iniciou sua admiração pela sétima arte com os clássicos da sessão da tarde e se apaixonou pelo mundo das séries quando o Voo 815, da Oceanic, caiu misteriosamente em algum lugar no meio do nada...