Crítica | ‘Perda Total’ é apenas mais uma perda de tempo na Netflix

Sabe quando você apenas quer sentar no sofá, comer uma pipoca e ver um filme no qual você não precise raciocinar, não busque nenhuma questão filosófica ou queira dar altas gargalhadas? Perda Total (Game Over, Man!), que estreou no último dia 23 na Netflix, não é um desses filmes.

Você precisa raciocinar para tentar entender de onde tiraram a ideia desse roteiro absurdamente descabido e se pergunta: como o ser humano imbuído de todo seu conhecimento é capaz de achar cenas de pau cortado (sim, tem isso no filme), gente chupando o ânus peludo de outra gente (também tem isso) e mortes explosivas misturadas com piadas gratuitas de cunho sexual engraçadas? Realmente, é uma salada de assuntos ruins batida num liquidificador e servida num copo descartável.

A história de Perda Total se passa em um hotel de luxo na cidade de Los Angeles, onde 3 camareiros (não sei se existe essa atribuição masculina à palavra, mas é o termo que usam no filme) Alexxx (Adam Devine), Darren (Anders Holm) e Joel (Blake Anderson) estão cansados de suas vidas de faxinar quartos e encontrar camisinhas usadas espalhadas por toda a parte. Um certo dia, um bilionário tunisiano Bae Awadi (Utkarsh Ambudkar), conhecido por suas ações inusitadas como fazer sexo oral em hienas ou pagar quantias absurdas em dinheiro para outros defecarem na Torre Eiffel, resolve fazer uma grande festa no hotel. Os 3 amigos possuem algumas ideias originais, mas não têm recursos para pô-las em prática, então veem aí uma oportunidade de patrocínio. Entretanto, a festa toma um rumo diferente quando bandidos altamente armados rendem todos os clientes, funcionários e convidados da festa para extorquirem o ricaço.

O roteiro do próprio Anders Holm, que claramente quis inventar um remake mais sarcástico de Duro de Matar, começa com piadas jogadas fora na velocidade da luz. Ele dá informações básicas do local e dos personagens (esses totalmente uníssonos), e começa uma sequência de acontecimentos sem nenhuma concatenação; as cenas não se desenvolvem, de repente uma pessoa morre; os personagens fazem um diálogo vazio e sem graça e de repente voa um pinto cortado; os 3 amigos se desentendem e do nada explode uma cabeça! É duro, duro de matar ter que assistir uma hora e quarenta minutos de piadas ofensivas, cenas grotescas, sangue pra todo lado, drogas e personagens rasos.

Os poucos momentos engraçados são proporcionados pelo ator mais conhecido do grupo, Adam Devine. Devine possui um carisma próprio e realmente tenta ser engraçado. Às vezes consegue. Percebemos que ele tem um timing de comédia mais elevado que os outros dois protagonistas, mas o roteiro realmente não ajuda ninguém. Fiquei imaginando Jim Carey em um dos papéis. Pelo menos ele sabe fazer um roteiro ruim ficar tão, mas tão, mas tão ridículo que você não consegue parar de rir (saudades de Ace Ventura).

A direção de Kyle Newacheck é frágil e desbaratinada. Parece que o diretor viu tanta coisa acontecendo sem nexo que achou que essa fórmula daria certo. Kyle, não deu não! Não existe quebra de ritmo durante o filme. Não é porque é um longa de ação/comédia, que não se possa dar um respiro ao espectador. Somos atacados a cada segundo com muita movimentação, piadas e sangue (já falei em sangue, não é? Pois é, tem muito). E como as piadas não funcionam, a preguiça e o tédio nos consomem!

O que era pra ser cômico se torna trágico. O que era pra ser trágico se torna oco. Perda Total é um filme que não fala nada, sobre nada e no final tentam nos colocar garganta a dentro que “quem tem amigos tem tudo”. Final feliz. Sem graça, mas feliz.

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Joel Tavares

Viciado em filmes, séries, teatro e chocolate. Se apaixonou pelo cinema quando era apenas um garotinho e viu Jurrasic Park na telona em inglês. Não entendeu uma palavra, mas os dinossauros eram demais