Crítica | ‘Collateral’: uma minissérie que vai além da investigação

Coproduzida pela Netflix e a emissora britânica BBC Two, Collateral possui um jeito bastante peculiar para lidar com sua premissa. Não que esta seja uma série que se esquive totalmente de clichês ou convenções do gênero de investigação policial. Mas a quantidade de assuntos levantados, nos quatro episódios da minissérie, são o diferencial desta narrativa.

Em Collateral, um jovem é morto a tiros entregando uma pizza no sul de Londres. ‎‎A detetive encarregada, Kip Glaspie (Carey Mulligan), rapidamente descobre que a gerente da pizzaria, inexplicavelmente, enviou o refugiado sírio Abdullah Asif (Sam Otto) na vez do motorista que estava na rota.

‎A morte parece fruto de um trabalho profissional, mas a única testemunha, uma jovem viciada em drogas na esquina da rua, dá à polícia um nome e endereço falso. Kip rastreia a casa de Abdullah, que fica em um conjunto de garagens, e  encontra suas irmãs. Eles estão assustadas e Kip se convence de que eles estão escondendo algo.‎


‎Situada ao longo de quatro dias, Collateral explora as repercussões em torno de assassinato de Abdullah. O político David Mars (John Simm) instantaneamente torna-se envolvido na trama através de sua turbulenta relação com a ex-mulher, Karen (Billie Piper), que havia pedido a pizza. Enquanto isso, Jane Oliver (Nicola Walker) é uma vigária compassiva, que se esforça para esconder o caso amoroso que possui com a única testemunha do crime.

O mistério não é o principal assunto

Toda a descrição da sinopse acontece nos primeiros trinta minutos do primeiro episódio. Desta forma, o enredo de Collateral estabelece uma série de núcleos e personagens, com subtramas que se entrelaçam e interferem umas nas outras, e na maioria dos casos, na trama principal. É preciso dizer isso porque, no fim do primeiro capítulo, diferente de obras como True Detective (2014) e The Night Of (2016), conhecemos a pessoa que comete o assassinato, e isso não passa a ser mais o interesse principal da audiência, que inevitavelmente irá se importar com os personagens. E já que estamos falando de outras séries, há uma referência a The Americans que os fãs da série do FX irão entender.

Acompanhar os passos da agente Kip passa a ter um outro significado para o público. Enquanto ela procura descobrir quem de fato matou Abdullah, nós, já possuindo a informação, procuramos entender o porquê do crime. A partir dos desdobramentos que vão interligando os fatos, pista a pista, a série utiliza sua narrativa para tratar de um conjunto de assuntos atuais, sobretudo na Europa, criticando algumas instituições de forma ácida.

A intenção de David Hare, que assina o roteiro da minissérie, é trazer para a discussão neste emaranhado, uma série de temas como terrorismo, espionagem, política de imigração, hierarquia policial e militar, política, a Igreja da Inglaterra, tráfico de pessoas e assédio sexual. É claro que, gostar ou não da série poderá até se tornar fruto de uma preferência política. Por exemplo: o personagem David, que é membro do partido socialista, compartilha uma visão muito efusiva sobre a política imigratória, e o texto, mesmo que não seja genial e, discute os temas com inteligência, embora não se furte em explicitar sua preferência.

O desenvolvimento dos personagens principais é satisfatório. O foco são as quatro noites, em quatro capítulos, então não há espaço para mostrar flashbacks. Mas a série se encarrega de nos dar as informações necessárias que precisamos, seja através de elementos presentes na própria narrativa, como a boa fotografia de Balazs Bolygo, ou  de através de linhas de diálogos entre os personagens.

Focando nas relações entre os personagens, S.J. Clarkson conduz bem a direção, em especial dos atores, com destaque para Carey Mulligan, John Simm e Jeany Spark, que interpreta uma capitã do exército em conflito psicológico após retornar da guerra. No entanto, alguns acabam perdidos em suas subtramas e desaparecem sem maiores explicações, com desempenhos um pouco caricatos. Há, de fato, pouco tempo para tanta história, embora não existam tantas pontas soltas.

Dando um caráter multidimensional á sua narrativa, Collateral pode até confundir o espectador em um primeiro momento, com muitos personagens e tramas paralelas, mas reúne as informações de forma sólida e apresenta um final aparentemente fechado, com a resolução daquilo que pretendia mostrar. Alguns dos temas discutidos conversam com a atualidade, de forma mais efusiva com o europeu, em especial os britânicos. Porém, há assuntos universais e que rendem uma boa discussão. Como suspense e drama policial, a série não compromete e é uma interessante opção no catálogo da Netflix.

Avaliação: 


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Léo Barreto

Carioca, apreciador de filmes e séries em tempo integral, quando o Bernardo (filho dele) deixa. Iniciou sua admiração pela sétima arte com os clássicos da sessão da tarde e se apaixonou pelo mundo das séries quando o Voo 815, da Oceanic, caiu misteriosamente em algum lugar no meio do nada...