Crítica | ’15h17: Trem para Paris’ é real mas não emociona

Uma verdadeira história com os verdadeiros heróis. A premissa de 15h17: Trem para Paris colocou no protagonismo do filme três amigos que, em uma viagem, tiveram um notório ato de bravura. Já tivemos casos em que o cinema possibilitou a inclusão de não atores em sua narrativa, para dar mais veracidade ao  que estava sendo mostrado. Isso pode ser um tiro certeiro, mas, há sempre o risco de se tornar um tiro no pé.

Em 15h17: Trem para Paris, acompanhamos a história verídica de três homens cujo ato de bravura os tornou heróis durante uma viagem em um trem de alta velocidade. O filme acompanha a vida dos três amigos, das dificuldades da infância, passando pela descoberta de seu propósito na vida, até a série de eventos improváveis que culminaram com o ataque.

A pitoresca forma como o veterano Clint Eastwood decide contar a sua história impressiona pela coragem, embora esse sentimento não seja o mesmo em relação ao resultado final. Seu trio de protagonistas deixa a desejar quanto a atuação, embora haja carisma e química entre Anthony Sadler, Alek Skarlatos e Spencer Stone. Para compensar, Clint conta com um bom elenco de apoio e uma equipe técnica com a qual costuma trabalhar, como o editor Blu Murray e o diretor de arte Kevin Ishioka. Ambos estiveram no recente Sully: O Herói do Rio Hudson, junto com outro colaborador frequente de Eastwood, o diretor de fotografia Tom Stern. A propósito, o filme possui uma bela cinematografia, com belas locações sendo exploradas ao longo da viagem que é retratada.

Desta forma, tecnicamente 15h17: Trem para Paris não é um filme virtuoso, porém, se mostra sólido e eficiente enquanto produção, como costumam ser os longas do diretor. Eastwood parece não se importar em mostrar os seus protagonistas e foca nos personagens. De fato, a câmera os procura a todo instante. A história gira essencialmente em torno de como eles chegaram até ali, investindo em um background que vai da infância até o momento em que os amigos viajam pela Europa. Não poderia ser diferente. O ataque em si não renderia um curta-metragem. Ou seria romantizado ao extremo, transformando o filme em um thriller de terrorismo genérico.

Entretanto, mesmo com esse comprometimento em contar somente o necessário em relação ao dia do atentado, o filme anda em círculos por algumas vezes e parece não ter foco, mesmo com apenas 94 minutos de duração. A mensagem que o longa pretende passar também possui um viés patriótico, embora zombe disso em uma divertida e inusitada cena, quando Anthony Sadler e Spencer Stone estão na Alemanha. No entanto, fica claro que a intenção do filme é destacar apenas o ato de bravura e superação de seus personagens. É o típico caso em que vemos um problema ser resolvido, sem abordar as suas causas. Não é a toa que, nos meses seguintes, a França foi devastada por uma onda de terrorismo, com ataques que mataram mais de 200 pessoas, entre 2015 e 2016.

O roteiro de 15h17: Trem para ParisDorothy Blyskal é baseado no romance “The 15:17 to Paris: The True Story of a Terrorist, a Train, and Three American Heroes”, escrito pelo próprio trio de protagonistas. No entanto, a história que acompanhamos aqui não se trata da verdadeira história de um terrorista ou um trem. O que o filme faz questão de enfatizar é a história dos três heróis americanos, desde a infância marcada por conflitos religiosos, que desembocam na vida adulta. Mal se sabe sobre cada um dos passageiros ou até mesmo o nome do atirador (pesquise no google por Ayoub El-Khazzani, marroquino de 26 anos). Mas sabemos exatamente o porquê das dificuldades de aprendizado que Stone possui, e a paixão que ele e Skarlatos nutrem pelas forças armadas.

Utilizando uma estrutura narrativa não linear, que vai mostrando algumas cenas no trem enquanto a história dos personagens vai se desenvolvendo, até chegarmos ao dia crucial, o filme consegue construir uma atmosfera de tensão. No entanto, há aqui dois fatores que podem influenciar o interesse do público. O primeiro é saber que nada acontece com os protagonistas. O segundo é, na sequência final, sobrar pouco tempo de tela para o que seria o clímax. No entanto, abstraindo o patriotismo, há uma bela questão de superação pessoal abordada, que seria melhor não fosse a forma piegas como é mostrada no fim.

Para moldar o caráter dos protagonistas, o primeiro ato nos mostra algumas situações, a partir da infância dos personagens. Enquanto road movie15h17: Trem para Paris quase se torna enfadonho no segundo e extenso ato, mas parte para o dia D na hora certa. A sequência em que eles conseguem conter o atirador é o melhor momento do filme, pois é dramática, visceral e ali chegamos, enfim, ao ponto onde o cineasta queria nos mostrar algo.

O longa demora a mostrar ao que veio mas parece não ter muito o que contar. Utilizando recursos de imagens reais (um clichê de filmes biográficos que aqui não faz tanto sentido) para reforçar o tom realista, como por exemplo a homenagem do presidente francês François Hollande, ou quando eles desfilam em carro aberto em Sacramento (heróis americanos novamente), o longa poderia ter ampliado o leque de situações, dando mais camadas a sua própria história. É claro, isso é uma decisão que cabe ao realizador, mas que ampliaria a visão do público. Saiba por exemplo que, um empresário britânico chamado  Chris Norman também interveio no atentado, e foi condecorado. E faz apenas uma ponta aqui, atuando como ele mesmo.

Como obra, o filme transita entre drama biográfico e suspense, se beneficia do carisma dos seus protagonistas, possui esse atrativo que é ver pessoa reais – quase que em uma reconstituição documental de crime – mas não chega a empolgar. E nem emociona muito, além de soar como panfletário em um desnecessário ênfase às armas e ao militarismo, da forma mais errada possível.

Se o espectador espera um filme que vai mostrar uma ação frenética e um vilão que está disposto a matar franceses, é bom esquecer. 15h17: Trem para Paris foi feito para falar de propósito de vida (com certas doses de patriotismo) e mostrar paulatinamente a construção de seus personagens até um curto mas eficiente momento derradeiro.

Avaliação: 


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Léo Barreto

Carioca, apreciador de filmes e séries em tempo integral, quando o Bernardo (filho dele) deixa. Iniciou sua admiração pela sétima arte com os clássicos da sessão da tarde e se apaixonou pelo mundo das séries quando o Voo 815, da Oceanic, caiu misteriosamente em algum lugar no meio do nada...