Crítica | The Walking Dead 8×09: ‘Honor’ é o mais importante e emocionante episódio em tempos

Nos últimos anos, a frase mais comum a ser dita sobre The Walking Dead é de que a série já não é mais a mesma. Tanto audiência quanto a recepção da crítica tem corroborado isso, embora a série ainda esteja entre as três mais populares da atualidade. A sensação de acompanharmos uma trama que anda em círculos e a ausência de mortes significativas pesaram a favor desse juízo. No entanto, Honor resgata o sentimento de perda, importância e imprevisibilidade que o show, há muito tempo, não possuía.

A forma como a história foi contada privilegiou os sentimentos expressos nos rostos dos atores. Sobretudo Chandler Riggs, que entregou uma bela atuação em sua despedida, mostrando evolução em sua carreira. O diretor Greg Nicotero e o diretor de fotografia Duane Manwiller procuraram utilizar enquadramentos fechados em primeiríssimo plano, nos rostos de Riggs, Andrew Lincoln e Danai Gurira, conseguindo extrair bons momentos de emoção. O mais interessante é notar a forma genuína como isso se dá, quase como uma extensão do adeus que os próprios atores dão ao menino que viram crescer no set de gravação, ano a ano, desde 2010.

O início do episódio conta com uma bela montagem, ao som de At The Bottom Of Everything, da banda Bright Eyes. Ali a conexão emocional já começa a ser estabelecida. Ao destacar Carl fazendo coisas do seu cotidiano, como cuidar de Judith, o público já é preparado para o que está por vir, por mais que já tenhamos consciência, como o próprio personagem, de que sua morte era inevitável a essa altura.

Além de trazer um novo componente (a misericórdia que ainda veremos no futuro) e desenvolver os demais personagens, a morte de Carl também resolve o misterioso flashfoward de Rick com sua barba grisalha. Agora entendemos o porquê daquele futuro clean, onde a paz reina em Alexandria. Aquilo nada mais é do que um futuro idealizado por Carl, a partir da consciência de que, olhar para uma realidade em que até mesmo Negan e Eugene estejam presentes seja algo aceitável. Entendemos como funciona a cabeça do menino que precisou amadurecer – e endurecer – cedo, mesmo com a brutalidade vigente no mundo pós-apocalíptico.

Além disso, a questão de como Carl foi mordido e a maneira como os Salvadores conseguiram sair do Santuário também é resolvida e explicada. Não fica claro, no entanto, se a falta de homens no Reino e o saída dos Salvadores de Alexandria atende apenas as conveniências da trama, ou indica que haverá já nos próximos episódios um derradeiro embate em Hilltop. Ainda é um pouco confuso compreender esse aspecto, sobretudo pelo fato de que, em Alexandria, não foi feito nenhum refém e todos escaparam.

Há boas linhas de diálogo presentes no roteiro Matthew Negrete e Channing Powell. Eles ainda tiveram a sagacidade de traçar um paralelo à jornada de Morgan, Carol e Ezequiel. O personagem de Lennie James encontra-se em crise, enquanto Carl aponta para a necessidade de uma trégua, pensando no amanhã. Enquanto em seu leito morte o garoto destaca que haverá uma continuação para todos (Salvadores ou não), Morgan desejar matar a todos. Os dois núcleos, portanto, conversam de formas distintas e são importantes contrapontos neste episódio. Outra prova disso é mais um garoto nascendo da brutalidade que o mundo atual se tornou. Da mesma forma como o caráter de Carl foi forjado na violência, ainda nas primeiras temporadas, Henry, que executa Gavin pelas costas sem exitar, desenvolve o mesmo instinto, com base na realidade em que vive.

Algumas coisas prejudicam Honor. O tempo de duração do episódio, por mais que haja uma justa e bela homenagem, soa como maior do que deveria, sobretudo nas cenas dramáticas. Além disso, a edição conta com alguns momentos anti-clímax, com cortes abruptos de um núcleo para outro. isto sem falar no risível momento em que Judith chora. Há, porém, boas sacadas, como quando por exemplo, uma transição de cena mostra Carl deitado e corta para um dos salvadores, morto. Alguns planos escolhidos e a fotografia, bem escura, ajudam a manter o clima soturno, onde praticamente um velório acontece. Isso soa até como uma analogia, mesmo que involuntário ao nome da série, já que a essa altura, Carl era praticamente um morto vivo.

Ao contrário de muitas e impactantes despedidas que tivemos na série, como nos casos de Shane, Andrea, Lori, Tyrese, Beth e Glenn, o que vimos em Honor é muito mais do que uma perda ou fruto de uma brutalidade inesperada. Trata-se de uma importante evolução, que sim, tem a intenção de emocionar o público, mas também faz crescer, em personagens como Rick e Michonne, uma nova perspectiva. É o que também acontece com Daryl, que aliás, se comunica no olhar de forma tocante com o menino. Há muito tempo, The Walking Dead não conseguia fornecer uma emoção tão forte na ligação entre os seus personagens.

Como há muito tempo não se via, The Walking Dead trouxe em Honor o melhor episódio até aqui da oitava temporada. A série demonstrou que, se bem trabalhada, ainda possui fôlego para apostar em momentos que tenham significado, sem precisar investir em uma ação capenga e descoordenada. Não é um capítulo perfeito, mas, é o que os fãs estavam precisando há tempos.


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Léo Barreto

Carioca, apreciador de filmes e séries em tempo integral, quando o Bernardo (filho dele) deixa. Iniciou sua admiração pela sétima arte com os clássicos da sessão da tarde e se apaixonou pelo mundo das séries quando o Voo 815, da Oceanic, caiu misteriosamente em algum lugar no meio do nada...