Crítica | ‘Pantera Negra’ é um filme maduro, atual e representativo

Desde 2008, a Marvel Studios vem lançando uma série de filmes que tem com objetivo contar uma história que engloba um universo compartilhado, o MCU (Universo Cinematográfico Marvel, traduzindo). Dez anos depois, Pantera Negra, o 18º filme da lista, chega aos cinemas como um marco na história do subgênero de super-heróis e do próprio estúdio. Afinal de contas, este é o filme mais maduro e consciente de sua mensagem já feito em dez anos.

Pantera Negra é uma continuação direta dos eventos mostrados  em depois dos eventos de Capitão América: Guerra Civil. O filme mostra o retorno de T’Challa para a isolada e avançada nação africana de Wakanda, para tomar seu lugar como rei, após a morte de seu pai. Porém, quando um velho inimigo reaparece no radar, o talento de T’Challa como rei e como Pantera Negra é testado, quando ele entra em um conflito que coloca o destino de Wakanda e do mundo em risco.

A sinopse descrita não representa nenhuma inovação em termos de estrutura e narrativa de filmes de heróis. No entanto, tanto a direção de Ryan Coogler, quanto o roteiro que ele co-escreve com Joe Robert Cole se encarregam de dar ao filme elementos que o diferenciam de uma aventura genérica e comum, algo corriqueiro nos filmes da Marvel. O longa é muito equilibrado em seus principais elementos, trazendo um humor dosado, boas sequências de ação e diálogos que em grande parte não decepcionam. Coogler dá ao filme, inclusive, um charme especial ao inserir cenas aonde sua câmera passeia pelos cenários futuristas. Além disso, ele sabe como captar o melhor de seus atores, que compõem um fantástico elenco, diga-se.

É importante também destacar a direção de arte de Pantera Negra. A tecnologia de uma nação extremamente avançada não se sobrepõe às tradições africanas, conforme vemos nos rituais mostrados, além dos costumes e dos belos figurinos que o filme apresenta. No entanto, a enorme carga de CGI mostrada em alguns momentos dão um tom que beira a artificialidade, como nas cenas de luta na cachoeira, onde nota-se bastante o uso do fundo verde, e nas cenas que conhecemos o laboratório de Shuri, irmã de T’Challa.

A civilização de Wakanda também era uma das grandes expectativas do filme. Porém, do país escondido e que possui o vibranium como matéria prima mais preciosa, não temos muito para ver, a não ser uma panorâmica no início do filme, além das belíssimas locações reais e alguns planos abertos (igualmente lindos) também no contexto real. Como o país acaba se tornando um personagem pela sua força e importância dentro do MCU, esta visão mais voltada para a população, bem como seus costumes e seu modo de interagir com a tecnologia, não aconteceu. O funcionamento político e a realeza, portanto, conhecemos o suficiente.

No entanto, Pantera Negra é notável pelo seu conteúdo. Em pouco mais de duas horas (que passam voando), o filme coloca na tela a discussão social de forma inteligente e madura, discutindo o papel continental de Wakanda, enquanto país africano, como tema relevante. Além disso, que outro filme mostrou uma quantidade tão grande de negros e mulheres em posições tão importantes em um filme de heróis? E não é de forma gratuita. Isso já existia nas HQs do Pantera Negra, primeiro herói negro com grandes poderes e protagonismo, criado por Stan Lee (que novamente aparece) e Jack Kirby, nos anos 60. O filme é representativo e muito importante para uma geração de crianças negras (e marmanjos) que terão neste herói sua fonte de inspiração.

O longa também acerta pela forma como constrói o antagonismo, que foge do convencional e apresenta motivações que podem ser perfeitamente inseridas em um contexto real. Erik Killmonger (Michael B. Jordan) é um vilão nascido da dor. Observe como ele carrega no olhar uma expressão que remete a sua infância, refletida no presente. Ele é vilão e vítima ao mesmo tempo, e podemos não concordar com suas atitudes, mas compreendemos o que ele faz e o porquê disso. Além disso, a maioria dos personagens possuem um bom desenvolvimento, com tempo de tela suficiente para mostrar o necessário.

O ator Chadwick Boseman tem a  missão de ser o protagonista e não decepciona. Ele possui carisma suficiente para atuar como rei e herói, sendo uma escalação que já havíamos comprovado ter sido um acerto desde Guerra Civil. Além disso, como herói, T´Challa mostrou que pode ser um dos grandes líderes deste universo cinematográfico da Marvel. No entanto, o grande elenco é muito bom e muitas vezes, o protagonismo é ofuscado pela limitada mas ótima aqui Danai Gurira, além de Lupita Nyong’o  e Leticia Wright. General, espiã e chefe do departamento tecnológico do reino. Essas são as ocupações que possuem as fortes e fodonas (desculpe mas não tem outro termo) Okoye, Nakia e Shuri.

O elenco de apoio conta com nomes que dispensam apresentações. Angela Bassett, Daniel Kaluuya, Forest Whitaker, Martin Freeman, Andy SerkisSterling K. Brown possuem seus momentos para mostrar talento e dizerem ao que vieram. Direcioná-los de maneira competente, no entanto, não é o grande mérito de Ryan Coogler neste longa. A maturidade em mesclar o novo e o antigo no visual de Wakanda, a alternância entre músicas africanas e o hip-hop, além de contar uma história que funciona como ação e até mesmo um drama, sem se esquecer que é um filme baseado em super-heróis, fazem toda a diferença.

A Marvel Studios, sem dúvida alguma, começa com o pé direito em 2018. Não que Pantera Negra seja perfeito, mas o longa pode ser considerado um dos melhores filmes já feitos neste universo cinematográfico integrado, pois é maduro, relevante, atual e acima de tudo, um bom filme de heróis que conversa com o nosso tempo e nos diverte. Wakanda forever!

Avaliação: 


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Léo Barreto

Carioca, apreciador de filmes e séries em tempo integral, quando o Bernardo (filho dele) deixa. Iniciou sua admiração pela sétima arte com os clássicos da sessão da tarde e se apaixonou pelo mundo das séries quando o Voo 815, da Oceanic, caiu misteriosamente em algum lugar no meio do nada...