Crítica | ‘Sem Amor’ expõe a degradação de valores do mundo atual

Representante da Russia no Oscar de melhor filme estrangeiro, Sem Amor (Nelyubov ou Loveless) é um filme difícil de gostar e ao mesmo tempo, de fácil assimilação. O retrato da sociedade russa através de uma fria Moscou nada mais é do que um reflexo do mundo contemporâneo, que coloca em primeiro lugar o seu “eu” e se esquece de elemento primordiais o convívio social e familiar.

O filme acompanha Boris (Alexey Rozin) e Zhenya (Maryana Spivak), que após anos de casamento estão se divorciando. Com o casamento desmoronado, o casal acaba negligenciando seu filho, Alyosha (Matvey Novikov). Vivendo suas vidas individualmente, entre a nova namorada do pai, que está grávida, e o novo parceiro rico da mãe, o garoto acaba desaparecendo misteriosamente.

O diretor Andrey Zvyagintsev é responsável por implementar uma atmosfera fria, sufocante e opressiva. Somos apresentados aos personagens de forma abrupta, após belas imagens e planos abertos da cinzenta e fria cidade em que eles vivem. A propósito, a frieza é algo constante no filme. Desde a ambientação escura dentro das casas até a expressão dos atores, o desamor causa uma sensação de desespero que vai atingindo níveis elevados conforme o filme avança. Se a intenção do cineasta era provocar no público os efeitos da ausência deste sentimento, ele conseguiu.

Os personagens principais são trabalhados minuciosamente. Boris e Zhenya ganham, na primeira hora do filme, um desenvolvimento com o qual estamos situados em suas vidas dentro e fora do convívio que possuem na casa que, aliás, querem vender para seguir em frente. Nem que isso custe “largar” o filho. A personalidade de cada um deles também é bem definida a partir da relação fracassada e não representa apenas um traço da personalidade dos dois. Um pai indiferente e uma mãe que desconta sua amargura no filho são apenas o começo das camadas que começam a surgir durante o filme. Ao longo das suas duas horas de exibição, Sem Amor explora as origens daquele vácuo amoroso que existe dentro do que um dia foi, ou do que era para ser, por convenção, uma família.

Zvyagintsev  também faz questão de tocar em feridas do comportamento atual, onde as tecnologias viram prioridades. Zhenya, a mãe, é o principal expoente desse modo de vida. A personagem sempre aparece em cena com o celular na mão, que é checado constantemente. Há outras distrações como as notícias da televisão que dão lugar ao chamado de uma criança; o trabalho que vem em primeiro lugar e selfies que transmitem a falsa sensação de felicidade, quando na verdade a realidade não condiz com o retrato. Quase todos os personagens carregam uma carga de egoísmo considerável. Isso demonstra uma preocupação do roteiro de Zvyagintsev e Oleg Negin em puní-los, sem que isso necessariamente signifique uma mudança para ambos, como pode ser percebido nos minutos finais do longa.

O filme ganha contornos mais investigativos a partir do momento em que o sumiço passa a ser mais preocupante. O suspense gerado com a busca pelo menino que desaparece caminha lado a lado com a crescente carga emocional imposta aos personagens. O roteiro também acerta neste ponto, não utilizando o sumiço como tema central. Na verdade, no decorrer deste processo, o ex-casal é forçado a manter uma dinâmica indesejada e amarga, sem empatia alguma de ambas as partes. O trabalho dos atores é muito competente e exige uma entrega física e emocional. Planos longos de intimidade e nudez são mostrados como uma forma de explorar aquele universo particular de cada um. Há também uma discussão entre mãe e filha que é catártica e pesada. O que vem a partir daí é absurdamente incrível.

A discussão do filme, porém, não se aprofunda em todas as suas esferas. Há um viés que explora a falta de capacidade da polícia em fazer avançar as investigações, algo que não evolui durante o longa. Da mesma forma, a situação relacionada ao trabalho de Boris e o próprio desfecho do mistério ficam em aberto, podendo frustrar uma parcela do público. Há, porém, algo muito pontual e que estabelece um contraponto importantíssimo no filme. Em determinado momento, o namorado de Zhenya, um homem mais velho, conversa com a filha pelo skype. Ele sente falta da presença da garota e faz questão de dizer que embora a veja, gostaria de te-la por perto. Anton é o contraponto exato de sua própria namorada.

Esteticamente, o filme possui um apuro muito elevado. A escolha dos planos é muito bem executada, como por exemplo em um momento em que um personagem é visto pelo retrovisor do carro por uma cena inteira. Há também uma cena em que Zhenya e Boris discutem e nela, personagens entram e saem do quadro, com o tema central do filme sendo evidenciado em um zoom de partir o coração.

Sem Amor é um filme triste e não pretende ser agradável. Certamente há uma mensagem que não pode ser compreendida em sua totalidade por causa do aspecto local da sociedade russa. Mas a universalidade da dinâmica familiar e o tema central dos desamor são absolutamente necessários e alvos de boas discussões.

Avaliação: 


Léo Barreto

Carioca, apreciador de filmes e séries em tempo integral, quando o Bernardo (filho dele) deixa. Iniciou sua admiração pela sétima arte com os clássicos da sessão da tarde e se apaixonou pelo mundo das séries quando o Voo 815, da Oceanic, caiu misteriosamente em algum lugar no meio do nada...