Crítica | Roda Gigante

Se o diretor estadunidense fosse um cientista, ele com certeza teria por escrito a fórmula de fazer bons filmes. Roda Gigante (Wonder Wheel), o novo longa escrito e dirigido por Woody Allen, segue as marcas do autor que são infalíveis: personagens neuróticos, diálogos ricos em teatralidade, além de poesia e conflitos extremamente humanos que desembocam em uma verdadeira tragédia grega.

O filme se passa na região de Coney Island, uma praia localizada em Nova Iorque, e conta a história de Ginny, uma ex-atriz fracassada que trabalha agora como garçonete. Interpretada por Kate Winslet, a personagem vive um segundo casamento com o operador do carrossel Humpty (James Belushi). Ginny vê sua vida virar uma verdadeira roda gigante após a chegada de Carolina (Juno Temple), fruto do primeiro casamento de Humpty, e ao se envolver com Mickey (Justin Timberlake), o salva-vidas da praia.

Mickey é o narrador de toda a história e recria um personagem marcante nas obras de Allen: o poeta/escritor fracassado que sonha em ser reconhecido. Carregado de referências de dramaturgos renomados como Tchekov, Górki, Strindberg e de Eugene O’Nell, muito citado no próprio texto do longa, as cenas vão se desenrolando de forma leve e inteligente, apesar de todo o peso que cada personagem carrega dentro de si.

Apesar de toda a nostalgia ao ver Jim Belushi (o protagonista de K-9 – Um policial bom pra cachorro) em cena fazendo um ótimo trabalho como o pai super protetor e alcoólatra, a atuação de Kate é um elemento fundamental para o sucesso do longa. A atriz rouba a cena interpretando a mãe/esposa/garçonete/ex-atriz/fracassada/mulher de meia idade, com seus impulsos histéricos e desejos reprimidos. Ginny apresenta todo o drama de uma personagem complexa e real, deixando o humor da família para seu filho, o piromaníaco Richie (Jack Gore).

Outro elemento que vale ressaltar é a belíssima fotografia de Vittorio Storaro. Abusando de cores fortes e quentes, Storaro faz o filme ficar lindo e elegante a cada cena. Podemos notar também, em algumas delas, como Allen e Storaro arriscaram na variação brusca dessas cores. Dando o toque imagético de uma verdadeira roda gigante, as cenas começam com uma iluminação alaranjada e forte e ao decorrer da mesma, os tons mudam para um azul escuro e frio com um toque avermelhado, quase sombrio, nos levando a mergulhar nas angústias das personagens.

Pessimismo, neurose, idealismo e humor, são elementos que Woody Allen trata não só em Roda Gigante como em outros de seus filmes, onde, mais uma vez, ele consegue apresentá-los de forma brilhante e autêntica.


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Joel Tavares

Viciado em filmes, séries, teatro e chocolate. Se apaixonou pelo cinema quando era apenas um garotinho e viu Jurrasic Park na telona em inglês. Não entendeu uma palavra, mas os dinossauros eram demais