Crítica | Black Mirror: 4º temporada é relevante mas está longe de ser memorável

Quando Black Mirror surgiu em 2011 no Channel 4 da Inglaterra, sua originalidade aliada à visão perturbadora da forma como lidamos como a tecnologia provocaram debates e levaram a aclamação da crítica. Mais do que isso, a série ainda traçou um panorama das relações sociais e em alguns casos, trouxe uma especulação dos novos rumos da ciência a partir de métodos já existentes. Foram duas temporadas de três episódios cada, além de um especial de Natal.

Em 2015, a Netflix anunciou dar continuidade à criação de Charlie Brooker. A encomenda de seis episódios, dobrando a quantidade da proposta original, animou o fãs mas deixou muitos com o pé atrás. Afinal de contas, mesmo para uma mente criativa, manter a originalidade do seriado e o frescor de ideias com uma demanda em dobro seria, em tese, uma tarefa mais complicada.

Pouco mais de um ano após o anúncio, os seis novos episódios estrearam na plataforma. Não foi uma temporada ruim mas o terceiro ano da série não teve exito em sua unidade. Isto porque há o otimista San Junipero, um enervante Shut Up and Dance e o futurista porém atual Nosedive, quando ao mesmo tempo nos foram entregues menos inspirados Hated in the Nation, Men Against Fire e Playtest.

Da mesma forma, a quarta temporada estreou na última semana com mais um conjuntos de seis episódios. A tecnologia, porém, serve apenas de adereço em alguns capítulos, como no controverso Metalhead. Não é um episódio que possa ser considerado ruim, diga-se. Como um curta-metragem o senso de urgência da história, a natureza dos robôs e a excelente direção de David Slade funcionam muito bem. O problema aqui é a ausência de um aprofundamento temático que dá lugar aos robôs que simplesmente caçam seres humanos em um futuro pós-apocalíptico. É o que sabemos, portanto.

Da mesma forma podemos classificar Arkangel, dirigido de maneira bem sólida por Jodie Foster mas com um andamento que culmina em um final previsível. A vigilância parental e a abordagem da tecnologia não são o problema, afinal de contas o uso do monitoramento é uma boa sacada de Brooker. No entanto, o roteiro lida de forma rasa com todas as discussões apresentadas e parece ter a intenção de chocar mais pela violência gráfica promovida em seus minutos finais do que com uma possível subversão de expectativas.

Primeiro episódio em ordem de apresentação, USS Callister se vendeu de uma forma completamente diferente do que realmente é. O que não é ruim. A quebra da expectativa é bem-vinda, assim como o enredo e a direção. A fotografia e a direção de arte também são importantes aqui,  dando peso aos subtemas mostrados. A forma como o personagem de Jesse Plemons (Robert) enxerga sua série preferida como propriedade (numa analogia à atualização do sistema e ao famoso dito popular “o antigo é melhor”) e a quebra do esteriótipo do “nerd que sofre” são ótimas. No entanto, seu tema central já fora discutido de forma menos plástica mas com uma profundidade emocional maior em White Christmas.

Sufocante e visceral, Crocodile é um episódio que pode dividir opiniões em suas decisões ousadas e desconfortáveis. O diretor John Hillcoat consegue extrair aqui momentos de pura tensão com as belas atuações de Andrea Riseborough (Mia) e Kiran Sonia Sawar (Shazia). Este também é o capítulo que possui a cinematografia mais vistosa da temporada, com lindos planos abertos auxiliados pela bela paisagem e o uso da luz natural. Ponto para o diretor de fotografia Low Crawley.

A tecnologia (sancionada por lei) que extrai imagens do cérebro a partir de memórias e que beneficiam companhias de seguros são um vislumbre angustiante do controle exercido por governo e corporações. O carro que entrega pizzas remotamente também é algo bacana de se ver. Mas se por um lado o fato do ser humano ir até as últimas consequências em seus piores instintos é um tema bem desenvolvido em Crocodile, é impossível não se incomodar com o fato de que, com tanta tecnologia utilizada a essa altura, será que um simples GPS ou medidor de velocidade resolveria a questão da seguradora? Em Black Mirror, presenciamos coisas que podem ser possíveis um dia. Se um hamster é a chave para desvendar um assassinato, a questão do carro pareceu um pretexto pouco plausível para o enredo fluir, embora não arruíne por completo o resultado final.

Há uma grande inventividade presente em Hang the DJ, que discretamente bebe na fonte de San Junipero. No entanto, isto acontece apenas na forma como o otimismo novamente é trazido para a série, dando um importante respiro no meio da temporada (se você seguiu a ordem). A ideia de compatibilidade dos aplicativos de relacionamentos através das simulações fazem com que o plot twist ofereça à trama, além de uma importante virada, uma prova de que sim, a tecnologia pode dar uma ajuda de maneira positiva ao melhor dos sentimentos que possuímos: o amor.

O grande acerto da temporada é Black Museum. Esse é o tipo de episódio que você pode apresentar para o seu amigo que não conhece a série, pois ele funciona como um retrato de todas as temporadas. Black Museum é uma espécie de coletânea de contos perturbadores e sim, é “muito Black Mirror”. Há uma série de referências aos episódios com vários easter-eggs da própria quarta temporadada. Repare nos aertefatos que existem na cena em que a personagem de Letitia Wright, Nish, entra no museu. Entre eles estão o tablet destruído em Arkangel, além de outros.

A transferência da dor para uma pessoa, a consciência humana que pega carona no cérebro de alguém (ou em um urso) e o ser humano que habita um software discutem um tema bastante interessante: o que é ser humano?  Afinal de contas, em alguns dos casos mostrados, as pessoas possuem emoções, sentem, pensam e expressam seus sentimentos. Da mesma forma como fomos um dia “analógicos” tecnologicamente, podemos caminhar para uma transformação virtual? Black Museum é a amplificação de todos os conceitos da série, através das consequências ruins narradas por Rolo Haynes. Aliás, o episódio também é um belo conto de terror, que possui no personagem de Douglas Hodge um misto de auto indulgência, cinismo e orgulho.

Em sua atual casa Black Mirror ainda não atingiu o mesmo brilhantismo das duas primeiras temporadas, requentando algumas ideias e deixando escapar a consequência relação homem x máquina. Contudo, pelo menos a série continua a discutir temas relevantes para o nosso tempo. O que por si só é um mérito, uma vez que caminhamos cada vez mais para os rumos mostrados por Charlie Brooker. Ou, quem sabe, já estamos vivendo isso tudo, de maneira mais primitiva, como nos primeiros experimentos de Rolo Haynes ou nas diferentes versões de testes mostradas.


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Léo Barreto

Carioca, apreciador de filmes e séries em tempo integral, quando o Bernardo (filho dele) deixa. Iniciou sua admiração pela sétima arte com os clássicos da sessão da tarde e se apaixonou pelo mundo das séries quando o Voo 815, da Oceanic, caiu misteriosamente em algum lugar no meio do nada...