Crítica | O Que te Faz Mais Forte (Stronger) – Jake Gyllenhaal e Tatiana Maslany arrebentam!

Filmes como O Que te Faz Mais Forte (Stronger) tendem a possuir uma característica em comum, que é ter nas interpretações o seu ponto alto. Este longa é todo pavimentado para que os seus protagonistas deem tudo de si, entregando ótimos momentos dramáticos. No entanto, a narrativa não se encarrega em dar força suficiente ao enredo, esvaziado ainda por um senso patriótico que sabota (mas não estraga) a produção em certo ponto.

O Que te Faz Mais Forte conta a história da vida real de Jeff Bauman (Jake Gyllenhaal), um homem comum que capturou os corações de sua cidade e do mundo para se tornar um símbolo de esperança depois de sobreviver ao bombardeio durante a Maratona de Boston, em 2013. De um mero civil a fonte de inspiração para a cidade, o filme narra as consequências do acidente na vida de Jeff, da sua ex-namorada Erin (Tatiana Maslany) e de todos ao seu retor. 

A direção do filme é de David Gordon Green, que possui alguns trabalhos na TV, como as séries Red Oaks, da Amazon, e Vice-Principals, da HBO. No cinema, ele dirigiu o mediano Especialista em Crise (2015) e o razoável Joe (2013). Em ambos os filmes, o diretor centrou suas atenções para seus protagonistas (Sandra Bullock e Nicolas Cage). Aqui, todas os holofotes estão novamente nos personagens principais, que ao contrário dos projetos anteriores do diretor, possuem atuações acima da média. Tanto Gyllenhaal quanto Maslany estão estupendos em suas interpretações, fazendo com que a direção consiga explorar momentos dramáticos de absoluta credibilidade.

Uma das cenas onde a Green acerta em cheio é quando Jeff, em recuperação após os atentados, precisa trocar pela primeira vez o seu curativo. A decisão em manter a câmera sob um determinado ponto de vista é muito inteligente e permite explorar a dor do personagem e ao mesmo tempo, nos entregar o panorama da situação. Todo o processo de adaptação ao retorno da rotina e as mudanças que ocorrem na dinâmica familiar de Jeff são bem filmados, colocando os atores, sobretudo Gyllenhaal, sempre no centro. No entanto, em alguns momentos, vemos o todo ao redor e o personagem deslocado observando a nova interação, o que é uma forma de nos situar em um novo ambiente para o qual uma pessoa não consegue se adaptar. Afinal de contas, o simples fato de ir ao banheiro ou descer da cama torna-se um desafio enorme para um recém amputado.

O valor de produção quanto aos efeitos especiais são evidentes e a sequência que envolve a explosão das bombas é muito bem feita e angustiante. As cenas onde Jake aparece sem as pernas e posteriormente com as próteses são todas muitos bem feitas e o filme possui uma credibilidade muito grande nesse aspecto. As pernas, a propósito, são vistas sem que a câmera tenha pudor em mostrá-las. No entanto, o recurso não é explorado em demasia e a dose não é cansativa ou forçada.

O roteiro de John Pollono funciona muito bem no primeiro ato e em grande parte do segundo. O filme é ágil em definir os acontecimentos que levam Jeff para o hospital e não demora até vermos a recuperação em andamento, sem que isso soe apressado. Como um retrato íntimo da recuperação física e emocional do rapaz, o filme vai muito bem e emociona em diferentes níveis, sendo muito humano e visceral em certos momentos. Durante o processo de retorno ao lar, as barreiras físicas, o inerente desânimo imputado pela dor e as limitações de uma vida que requer adaptações tomam conta da narrativa, o que é bom, uma vez que estamos acompanhando uma recuperação e quando o filme deixa de lado os acontecimentos referentes ao atentado, como perseguição aos suspeitos e capturas, tudo se torna mais agradável e tocante.

No entanto, a partir de um determinado momento, o filme opta por um caminho que prioriza a evocação de um senso de patriotismo que em primeira instância pode ser compreendido, uma vez que Jeff acaba se tornando um ícone local por sua perseverança. E não estou falando sobre o fato de que, após recuperar sua consciência no hospital, Jeff tenha sido convocado para identificar um dos criminosos. Até ai o filme também vai bem e a mensagem que Boston passou – o Boston Strong – é compreendida. A propósito, essa temática foi explorada com sucesso no recente O Dia do Atentado (2016), que estreou no Brasil este ano.

A cidade se uniu por um propósito e resistiu a dor de maneira peculiar. Porém, o filme passa a abraçar a ideia de utilizar a figura de Bauman como um herói da nação e alguém que não se rendeu ao terror. De certa forma, o filme acaba confrontando isso de forma cínica, quando o personagem nega essa vocação para si. Porém, no terceiro ato há uma cena que joga tudo isso por água abaixo e faz com que o longa tenha um desfecho menos dramático e mais panfletário. Antes disso, um diálogo maniqueísta com certo personagem introduzido para colocar essa ideia em pauta também já havia sido explorada.

Quanto as atuações, embora o enredo tenha seus bons momentos, não há como negar que é o que há de melhor em O Que te Faz Mais Forte. Jake Gyllenhaal consegue dar ao seu personagem uma profundidade notável. Ele explora isso através de uma atuação que confere um esforço físico para que possamos acreditar que ele de fato é um amputado. Da mesma forma, suas expressões de dor, desânimo, a voz embargada e a amargura em certos momentos são perfeitos e mostram que sua capacidade de atuação não somente cresce a cada filme mas evidencia sua maturidade como ator.

Já Tatiana Maslany encontra uma grande oportunidade para conquistar vôos mais altos no cinema. Na série Orphan Black, ela interpreta várias personagens com todas as nuances necessárias e que nos fazem diferenciar cada uma delas. Aqui, ele encontra em Erin uma mulher que também é despedaçada pelo acidente, não somente por conta de seu relacionamento (e o status) com Jeff mas pelo fato de que o fardo em lidar com as adaptações e as frustrações do ex-namorado fazem com que ela esteja sempre a ponto de explodir. Maslany entrega somente em uma personagem frustração, compaixão, dor, amor e raiva, em uma combinação de sentimentos que se fundem na medida certa, para que, em uma explosão que acontece num determinado momento, possamos sentir o que acontece. O filme é emocionalmente impactante e os atores entregam exatamente o que é necessário.

O elenco de apoio funciona bem, com destaque para Miranda Richardson. Ela interpreta a mãe de Jeff e é responsável por estabelecer uma tensão que percorre toda a recuperação do filho. Obcecada pela fama repentina, são constantes os atriros de Patty com Erin, não apenas pelo comportamento da mãe, mas também pela omissão do filho que em muitos momentos não admite sua vontade de estar longe dos holofotes. Essa dinâmica entre sogra e nora, em uma situação limite, poderia ir para um lado mais previsível mas assume aqui uma identidade bem real, por conta de situações que podemos identificar até mesmo em nosso cotidiano. 

Contudo, O Que te Faz Mais Forte não tem o mesmo cuidado com o seu desfecho como teve com os seus personagens principais, ao abordar temas que fogem da proposta que deveria ser mais intimista. O que não desmerece todo o processo ou torne o longa uma experiência ruim. Acompanhar as atuações de Jake Gyllenhaal e Tatiana Maslany é o melhor que se pode obter, além de ser uma experiência emocionalmente impactante.

O Que te Faz Mais Forte foi assistido durante o Festival do Rio, em 12 Outubro de 2017.


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Léo Barreto

Carioca, apreciador de filmes e séries em tempo integral, quando o Bernardo (filho dele) deixa. Iniciou sua admiração pela sétima arte com os clássicos da sessão da tarde e se apaixonou pelo mundo das séries quando o Voo 815, da Oceanic, caiu misteriosamente em algum lugar no meio do nada...