Crítica | The Walking Dead 8×08: How It’s Gotta Be

Mesmo com toda a ação e urgência que a guerra imputou à oitava temporada de The Walking Dead, nenhum episódio havia sido tão tenso quando How It’s Gotta Be. É correto admitir que, em termos de estrutura narrativa, tivemos uma certa confusão no desenrolar das tramas paralelas com uma montagem desconexa em alguns momentos. Você também deve concordar que aqueles momentos em que personagens aparecem pensando em algo tornou-se cansativo. No entanto, com Negan de volta ao ataque, as coisas parecem sempre mais enervantes e imprevisíveis.

Em quase uma hora, toda a construção da temporada permitiu um desfecho parcial para seus personagens e núcleos. Fica claro que nesta metade, há uma certa vantagem para os Salvadores, que agora retomam o posto de grupo dominante. No entanto, o roteiro de David Leslie Johnson e Angela Kang foi descuidado em não nos dar base suficiente para a fuga do Santuário. Sabemos que eles escaparam, mas como isso aconteceu? Apenas atribuir tal feito a Eugene não é o suficiente e algumas simples linhas de diálogo poderiam resolver a questão.

Da mesma forma, falando em Eugene, sua mudança de atitude enterra completamente o desenvolvimento dado a ele no episódio anterior. Se em Time of After ele firma posição sendo de fato um dos Salvadores, mesmo atormentado pela decisão, é incoerente com o próprio desenvolvimento do caráter do personagem que ele tome decisão de sabotar um guarda e abra caminho para a fuga de Gabriel e o Dr. Carson. O que nos foi apresentado desde que ele chega ao Santuário é que sua sobrevivência tende a escolher o lado em vantagem. Com uma situação controlada por lá, não haveria o porquê de tal atitude.

Tal direcionamento, é claro, passa pelas mãos do showrunner Scott M. Gimple. Sejamos justos, se a diretriz impõe a morte de um personagem importante ou que outro irá mudar de lado, o roteiro segue um pré-estabelecimento. No entanto, há uma construções que são coerentes, o que é justamente o oposto do que acontece com Eugene.

A decisão extrema que Dwight toma corrobora com o que vem sendo construído desde a 7º temporada. Se havia um momento para isso acontecer, era esse. Pena que The Walking Dead recorre mais uma vez a um clichê barato que é fazer com que a personagem Laura resolva conversar com Dwight e mesmo identificando a traição, fuja sem lhe aplicar nada mais do que um tiro no braço. Ai temos duas intenções: a primeira é ter alguém que possa contar a Negan o que aconteceu. O segundo, é claro, manter o personagem vivo e trazê-lo para o grupo de Rick, o que irá ocasionar futuras tensões e até mesmo uma possível morte redentora mais adiante.

Outro ponto de incongruência na escrita do episódio reside justamente na mordida sofrida por Carl. Há um esforço empregado em esconder isso do público da melhor forma, mas repare como o excesso de atenção a um personagem, por si só, já é um indício claro de mau presságio. A conversa com o pai, bem como carta deixada para Rick e seu discurso na entrada de Alexandria já deixavam claro o que poderia acontecer. Esconder o ferimento não é o problema, mas direcionar todo o episódio para a morte do garoto acaba diminuindo um pouco o impacto de sua condição. Isto é amenizado pela boa execução da cena que envolve a chegada de Rick, que além da sempre sólida atuação de Andrew Lincoln, conta com uma boa incursão pela passagem subterrânea de Alexandria, em um dos poucos momentos de inspiração do diretor Michael E. Satrazemis e do diretor de fotografia Duane Manwiller.

Contudo, o clima tenso criado pela presença dos Salvadores acaba rendendo bons momentos, que vão desde a estrada bloqueada que intercepta Maggie e Jesus; a resistência em Hilltop e o momento em que Jeffrey Dean Morgan consegue dar, mesmo com os trejeitos usuais de Negan, um olhar diferenciado para Carl, quando o menino se oferece para morrer. Já os Salvadores presentes no Reino não possuem o mesmo carisma de seu líder ou até mesmo de Simon, bem como os próprios figurantes que ali estão. Até mesmo o aparecimento de Ezekiel é preguiçoso e sua decisão em ficar é sem sentido. A chegada Morgan, no entanto, oferece uma boa interrogação para o retorno da série, ainda mais que agora sabemos que ele também estará em Fear The Walking Dead.

Se a morte de Carl é uma consequência natural para o que vimos, além de um Rick devastado por mais uma perda, por outro lado haverão mais questões a serem respondidas. Os 38 Salvadores presos de forma estratégica por Maggie e a forma como Enid e Aaron irão lidar com seu ato falho em Oceanside são bons exemplos disso. A fuga de Jadis (não duvide se ela mudar de lado novamente) também é algo que precisa ser revisitado em breve.

Encerrando a metade inicial de sua oitava temporada com uma decisão que é corajosa e trágica (perder um filho é sempre um elemento que comove), The Walking Dead terá que lidar com as consequências de privar sua audiência de um personagem antigo. Público que a propósito, tem andado impaciente com os rumos da série. A perda de Carl pode servir para mudar a forma como eles irão enxergar o conflito. No entanto, a presença dele ainda poderia entregar bons momentos, inclusive pelo contraponto oferecido as ideias de seu pai. Vejamos, portanto, em fevereiro, se isso servirá como impulso narrativo para a série.


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Léo Barreto

Carioca, apreciador de filmes e séries em tempo integral, quando o Bernardo (filho dele) deixa. Iniciou sua admiração pela sétima arte com os clássicos da sessão da tarde e se apaixonou pelo mundo das séries quando o Voo 815, da Oceanic, caiu misteriosamente em algum lugar no meio do nada...