Crítica | A Múmia

Definitivamente estamos em uma época de remakes e reboots em Hollywood. Disposta a reviver os monstros que fizeram sucesso nas décadas de 30, 40 e 50, a Universal Studios deu início ao seu novo universo compartilhado, o Dark Universe. O pontapé inicial acontece em A Múmia, uma produção visualmente competente mas com conteúdo abaixo do esperado.

No filme, uma antiga princesa sepultada por segurança em uma cripta abaixo do deserto (Sofia Boutella), cujo destino foi injustamente tirado dela, é despertada nos dias atuais, trazendo com ela sua malevolência e terrores que desafiam a compreensão humana. Isso acontece quando os agentes de reconhecimento Nick Morton (Tom Cruise) e Chris Vail (Jake Johnson) fazem uma importante descoberta na antiga Mesopotânia (conhecida nos dias de hoje como Iraque). 

A direção do longa é de Alex Kurtzman, em seu segundo trabalho na tela grande. Em sua estreia no bom Bem Vindo à Vida (2012), o diretor trabalhou com nomes conhecidos Chris Pine, Elizabeth Banks e Michelle Pfeiffer. Aqui ele tem a oportunidade de dirigir atores bastante conhecidos como Tom Cruise e Russel Crowe, além de alguns rostos que você já deve ter visto em outras produções recentes como Sofia Boutella, Annabelle Wallis, Courtney B. Vance e Jake Johnson. Seria bem melhor, no entanto, se o roteiro oferecesse um desenvolvimento mínimo a estes personagens. Embora seja um filme focado na aventura e com ação frenética, todos eles são bem unidimensionais. 

O ritmo do filme não é um problema, no que diz respeito ao andamento da ação. Não faltam cenas de perseguição e perigo, todas bem acompanhadas do notável talento de Tom Cruise. Aqui ele corre, se joga e tem a mesma entrega física de outros papéis com premissas semelhantes. No entanto, seu protagonismo não vai em direção a um heroísmo tradicional que a princípio seria sugerido. Algumas reviravoltas até garantem surpresas ao personagem que também possui um humor meio debochado e que lhe cai bem. Não é uma atuação inspirada mas o carisma assegura o resultado, mesmo com a visível falta de química quando a relação entre ele e a personagem da pouco inspirada Annabelle Wallis é mostrada.

Outro personagem que desempenha um importante papel no filme é o Dr. Henry Jekyll. No entanto, o personagem que caiu bem na interpretação de Russel Crowe não tem tempo de tela suficiente para mostrar todo o potencial e possui momentos de diálogo expositivo sofríveis. Um exemplo disso é uma narração sem propósito algum, no começo do longa. Sua presença que deverá constar nos próximos filmes, conectando os outros monstros que estão por vir. Talvez por isso, ainda tenhamos mais o que conhecer dele.

Em termos de design de produção, o filme não deixa a desejar. Desde a reconstrução dos cenários que contam a origem da história, passando pela paleta de cores alaranjada que toma conta das sequências no deserto, tudo é bastante crível. Isso inclui cenas que acompanham a queda de um avião, a descoberta de um tesouro arqueológico subterrâneo e até mesmo o visual da múmia. A composição visual da princesa Ahmanet inclui tatuagens bem elaboradas e a transformação da criatura até assumir uma forma mais humana também é, em grande parte, satisfatória.

Embora os melhores momentos, visualmente falando se passem durante o dia, a maior parte do tempo vemos sequências em locais fechados, escuros e a noite. Tal recurso favorece o uso da computação gráfica mas em determinado momento torna-se cansativo. Por esse motivo, assistir o filme em 3D não deva ser a melhor das opções. O 2D convencional fica de bom tamanho e não prejudica a experiência.

Há um conceito interessante em A Múmia, remetendo um pouco aos mortos-vivos, ou melhor dizendo, zumbis. As criaturas são bem feitas em CGI e também nota-se o uso de efeitos práticos. Algumas vezes o elemento tecnológico é bem utilizado, como nas grandes sequências de ação, e em poucas vezes não é tão satisfatório. Um exemplo disso é o primeiro despertar da personagem de Sofia Boutella. A vilã, a propósito, não possui qualquer motivação além da “maldade porque sim”. Não há um desenvolvimento ou motivações que possam fazer com que haja pelo menos alguma justificativa. Mesmo sendo um filme de monstro, esta múmia acaba sendo uma ameaça esquecível. Não é de se espantar que, da mesma forma, a atuação de Sofia passe longe de ser lembrada.

Tal qual em filmes de super-heróis e em franquias de sucesso, aqui também há um cuidado em conectar o filme com outras produções vindouras. O terceiro ato é a prova disso, e também é um ponto negativo. Um filme precisa, antes de tudo, fazer sentido a partir do que ele conta e não somente realizar uma ponte para uma próxima história. Desta forma, acontecimentos que poderiam soar como bem surpreendentes acabam sendo sobrepostos por essa necessidade. Mas, sejamos justos: o fim do filme não é ruim e apresenta surpresas.

Em que pese a história genérica com pouca profundidade dada aos personagens, A Múmia garante momentos de diversão, mesmo sendo esquecível. Dentro de sua proposta de entretenimento, poderá agradar quem não estiver tão interessado em um roteiro complexo e busque apenas uma diversão. Como primeiro longa no universo expandido de monstros, não parece que será um daqueles casos em que o pioneiro é o melhor. Tomara, pois já que uma nova franquia é um caminho sem volta, que tenhamos experiências trabalhadas com maior esmero no futuro.

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Carioca, apreciador de filmes e séries em tempo integral, quando o Bernardo (filho dele) deixa. Iniciou sua admiração pela sétima arte com os clássicos da sessão da tarde e se apaixonou pelo mundo das séries quando o Voo 815, da Oceanic, caiu misteriosamente em algum lugar no meio do nada...