Crítica | Corra! (Get Out)

Nada pode ser mais desconfortável do que sentir-se sem saída e pouco à vontade em um local indesejado. Ser “diferente” e ter que lidar com tentativas estúpidas de amenizar a situação também não colaboram em nada com isso. Tratando muito bem deste tema e flertando constantemente com a incerteza, Corra! (Get Out) proporciona um terror psicológico não muito convencional e inventivo.

Na trama, Chris (Daniel Kaluuya) é um jovem negro que está prestes a conhecer a família de sua namorada caucasiana Rose (Allison Williams). Quando eles vão para o interior do estado visitar os pais dela, no fim de semana, ele acredita que o comportamento excessivamente amoroso por parte da família dela é uma tentativa de lidar com o relacionamento de Rose com um rapaz negro. Com o tempo, ele percebe que a família esconde algo muito mais perturbador, em meio a descobertas surpreendentes.

Escrito e dirigido com bastante competência por Jordan Peele, conhecido por realizar e atuar em comédias como Key and Peele, o filme possui uma capacidade enorme de aguçar a curiosidade do público. Utilizando a questão racial para fazer uma crítica social de forma satírica, o roteiro se encarrega de estabelecer o clima tenso logo de início, com um plano-sequência incrível em um bairro deserto. O questionamento sobre Rose ter contado sobre a etnia do namorado, a abordagem policial e tudo que envolve a ida deles para a casa já prepara todo o terreno para que as coisas de cara já pareçam estranhas.

O terror psicológico instaurado é favorecido pela constante sensação de que algo está muito errado. Neste ponto, a família de Rose tem um papel fundamental, com o acolhimento desconcertante de seu pai Dean (Bradley Whitford), o tom sereno e ameaçador de sua mãe Missy (Catherine Keener) e a imprevisibilidade gerada pelo visível desequilíbrio do irmão Jeremy (Caleb Landry Jones).

Como se não fosse o bastante, os empregados negros Walter (Marcus Henderson) e Georgina (Betty Gabriel), que demonstram uma satisfação excessiva e enervante, são a prova definitiva de que a normalidade não é algo que se possa esperar. Há um par de cenas para cada um deles que são absolutamente angustiantes, com destaque para um momento em que Georgina proporciona confusão e dúvida a respeito de sua condição mental.

Há um elemento fantástico introduzido no filme, que faz com que a suspensão de descrença do público seja necessária, mas que funciona como uma forma de contar o que está se passando com o protagonista. Isso não incomoda, até porque o tom que o filme sugere permanece o mesmo. Desta forma, os dois primeiros atos que envolvem a ida de Chris até a casa da namorada e as descobertas feitas são muito bem executados, e vão fluindo à medida que cada nova informação é fornecida. Não é um mistério tão difícil de desvendar mas o que mais provoca angústia é o fato de que as situações criadas pelo roteiro sugerem um beco sem saída, onde Chris se vê envolto em suas descobertas.

Outra forma de lidar com a tensão e trabalhar demais camadas da situação é o humor inserido no longa. Principalmente na figura do amigo de Chris, Rod (LilRel Howery), um quase oficial da lei. Porém, isso não se dá através de piadas ou situações cômicas. O jeito e sua personalidade exagerada, além da racionalidade em enfatizar o problema para o amigo são uma prova disso.

O racismo expresso em Corra! é subjetivo e ao mesmo tempo escancarado. Ele pode ser demonstrado através de uma abordagem policial ou pelo pouco caso das autoridades com o que acontece com negros, além da forma como Chris é observado na mansão e como lida com situações desconfortáveis. Muito do que é mostrado não é necessariamente dito e ai reside um dos méritos da produção.

As interpretações são muito boas e o elenco atua de forma precisa, com cada um dos atores desempenhando papéis importantes e dando o tom certo aos personagens. Com a dose certa de pavor e incredulidade, não poderia haver um protagonista melhor. Daniel Kaluuya atua com expressividade e os olhos do ator são como palavras em muitos momentos. Suas expressões não se limitam aos olhos arregalados, diga-se de passagem. Sabe quando ficamos sem graça com alguma situação e estamos nervosos mas damos aquele riso? Em certos momentos ele também faz isso de forma perfeita.

O grande deslize em Corra! é o seu ato final. A resolução de tudo que é mostrado e desenvolvido de forma paciente se dá de maneira apressada, mas não incoerente, o que alivia um pouco a crítica nesse sentido. Isso porque não há saída para a situação apresentada e tudo aquilo que acontece é realmente algo que faz sentido (ao contrário de uma grande e importante revelação). Nesse momento, o filme assume um tom mais visceral, desestabilizando todo o suspense que gira em torno do fator psicológico. Mas em linhas gerais, analisando por outro prisma, a imprevisibilidade de alguns fatos se sobrepõem (sem apagar) algumas situações que envolvem pouca lógica, nos últimos 15 minutos.

Envolvente, assustador e original, certamente Corra! é uma das grandes surpresas em 2017 e confirma a boa safra recente de filmes de terror. Outro fato importante sobre o longa é que não existe a necessidade de um orçamento gigantesco e ideias mirabolantes para realizar um bom suspense. A coragem com qual Jordan Peele conduz a empreitada não convencional, unindo elementos distintos, é algo que por si só já merece atenção.


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Léo Barreto

Carioca, apreciador de filmes e séries em tempo integral, quando o Bernardo (filho dele) deixa. Iniciou sua admiração pela sétima arte com os clássicos da sessão da tarde e se apaixonou pelo mundo das séries quando o Voo 815, da Oceanic, caiu misteriosamente em algum lugar no meio do nada...