Crítica | O Dia do Atentado (Patriots Day)

Poderia ser apenas mais um filme para exaltar o patriotismo norte-americano. Felizmente não é. Surpreendendo ao trazer uma abordagem diferente, O Dia do Atentado (Patriots Day) retrata os eventos que marcaram a história recente dos Estados Unidos, mostrando vários pontos de vista de uma incrível busca que mobilizou uma cidade.

A história se situa no dia e após os atentados terroristas à Maratona de Boston em 2013, quando um grupo formado pelo Sargento da Polícia Tommy Saunders (Mark Wahlberg), o Agente Especial Richard Deslauries (Kevin Bacon), o Comissário da Polícia Ed Davis (John Goodman) e o Sargento Jeffrey Pugliese (J.K. Simmons) se une aos demais sobreviventes para identificar e capturar os responsáveis pelo ataque terroristas, antes que eles possam fazer novas vítimas.

A direção fica a cargo de Peter Berg, que também dirigiu outro filme estrelado por Mark Walberg, lançado em 2016: Horizonte Profundo: Desastre no Golfo. Aqui o também roteirista emprega uma direção muito segura, com um ar muitas vezes documental e utilizando bem alguns recursos como imagens de arquivo e de câmeras de segurança durante o longa e breves entrevistas no fim, com os verdadeiros envolvidos. A caracterização e a reprodução dos cenários é muito precisa e como a cidade em si é também um personagem ativo na história, são frequentes planos aéreos entrecortando estradas e vias de acesso de Boston. Outro fato que colabora para a imersão na realidade do filme são gravações realizadas durante a própria maratona, ocorrida em 2016.

Haveria uma possibilidade enorme do filme desandar para um tom excessivamente patriota, tipicamente presente em filmes americanos, até mesmo levando-se em conta o título da produção. O dia do Patriota é um feriado tradicional naquela região norte-americana mas o que se vê ao longo de quase duas horas é um sentimento local e de ajuda mútua, e não necessariamente algo relacionado somente a uma soberania da nação. É como se os fatos estivessem sendo mostrados sem tomar partido, embora haja um senso de justiça muito grande em torno do local.

Há muitos personagens no filme, a maior parte deles inspirados em pessoas que estiveram presentes nas mais de 90 horas entre a explosão das bombas e o fim da perseguição. Quando isso acontece, há um risco que se corre, que é o de desenvolver de forma rasa muitos deles, o que acontece em alguns casos. Personagens como o Comissário Ed Davis, o sargento Jeffrey Pugliese e a esposa de Tommy, Carol Saunders (Michelle Monaghan), não vão muito além de uma camada, enquanto outros até conseguem ganhar um tempo de tela maior como o Agente Especial Richard Deslauries, porém, com a mesmo tipo de desenvolvimento.

   

A estrutura básica do filme se configura em mostrar os personagens antes das explosões e a consequente perseguição, numa espécie de antes e depois. Neste ínterim, acompanhamos com maior destaque Tommy Saunders. O protagonista vivido por Mark Wahlberg não existiu e representa os policiais que estiveram envolvidos diretamente com o caso. A atuação de Wahlberg, é bom que se diga, não compromete e embora não seja um ator virtuoso, seus últimos trabalhos vem dando a ele uma capacidade de desenvolver seus personagens de uma maneira mais sensível.

O filme tem momentos que são absolutamente viscerais, ao mostrar as consequências das bombas. As perseguições também conferem um clima de apreensão enorme, e embora seja difícil, se algum espectador nunca tiver ouvido falar desse atentado, é uma experiência bem angustiante. Os terroristas Dzhokhar Tsarnaev (Alex Wolff) e Tamerlan Tsarnaev (Themo Melikidze) conferem um ar de convicção e ao mesmo tempo um misto de medo e ignorância, conferindo uma notável instabilidade emocional. Outro personagem que assume um papel importante e se destaca nesse processo é Dun Meng, vivido por Jimmy O. Yang, da série Silicon Valley. E ele não é a único rosto conhecido das séries de televisão. Melissa Benoist (Supergirl) e Rachel Brosnahan (House of Cards) assumem papéis distintos como mulheres que sofrem as consequências do atentado, ambas de formas diferentes.

A violência mostrada em O Dia do Atentado não é gratuita e embora seja chocante ao retratar o lado ruim de um extremismo, mostra o senso comunitário e o envolvimento que a cidade demonstrou ao lidar com o problema. A cooperação entre as autoridades também é evidenciada e a mensagem final, embora possa parecer ser somente de união, vai além e consegue ser um necessário lembrete de como a violência e a ignorância são nocivos e transformam vidas, muitas vezes de maneira indesejada.


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Léo Barreto

Carioca, apreciador de filmes e séries em tempo integral, quando o Bernardo (filho dele) deixa. Iniciou sua admiração pela sétima arte com os clássicos da sessão da tarde e se apaixonou pelo mundo das séries quando o Voo 815, da Oceanic, caiu misteriosamente em algum lugar no meio do nada...