Crítica | Cães Selvagens

Logo nos primeiros minutos de Cães Selvagens (Dog Eat Dog), a sensação de estarmos diante de um filme insano é evidente. Soando quase como experimental, o longa apresenta um grupo de sujeitos desajustados e vários clichés do cinema de ação e assalto como a última missão, um trio de criminosos e é claro, as coisas que dão errado.

A trama acompanha três homens que recém saíram da prisão e agora tentam se adaptar à vida civilizada. Troy (Nicolas Cage) procura uma vida limpa e sem complicações, mas não consegue deixar de lado o ódio pelo sistema; Diesel (Christopher Matthew Cook) perde a cada dia o interesse na rotina suburbana e na esposa; e Mad Dog (Willem Dafoe), o mais insatisfeito, e que ainda sonha que um crime perfeito será a salvação de todos.

A direção é de Paul Schrader, nome conhecido em Hollywood por escrever roteiros de diversos filmes desde a década de 70. Em seu currículo estão boas parcerias com Martin Scorsese, como Taxi Driver (1976), Touro Indomável (1980), e A Última Tentação de Cristo (1988). No entanto, quem assina o roteiro, que é uma adaptação do livro Dog Eat Dog (1997)de Edward Bunker, é Matthew Wilder, pouco conhecido do grande público. 

É inegável que a mão de Schrader pesa bastante na direção. Logo na primeira cena há um festival de cores quentes (e berrantes) que se juntam ao sangue, que acompanha todos os atos do filme. O ritmo é frenético e a ação é constante, embora o filme permita uma pausa lá pela metade, um pouco exagerada é bem verdade. Há momentos em que o diretor opta pelo preto e branco indiscriminadamente, sem atender um propósito claro e o mesmo acontece com alguns enquadramentos meio inusitados. No entanto, o resultado não é ruim e esteticamente falando, digamos que o filme esteja mais para pitoresco.

Outro fator bastante presente é o humor negro que acompanha o longa. Há uma violência gráfica bem acentuada e situações cômicas. O filme ainda dá espaço para alguns diálogos mais sérios mas isso não faz parte do que é proposto de maneira geral. Curiosamente, há uma crítica social interessante ao abordar a questão do ex-condenado mas não há humanização suficiente para despertar empatia do público com o trio, tamanha selvageria e descontrole do grupo.

Existem muitas inconsistências no roteiro e isso fica evidente através de personagens que simplesmente são esquecidos ao longo do filme e conveniências que não passam despercebidas nem se a atenção do espectador for pouca para o que se passa na tela. No entanto, os personagens, mesmo com todo desajuste e antipatia despertadas são o ponto forte aqui. Não há um desenvolvimento grande do histórico dos mesmos, que vemos além de suas ações no presente somente através de alguns rápidos flashbacks.

Se você viu o cartaz do filme e torceu o nariz quando viu Nicolas Cage como um dos protagonistas, não deve estar sozinho. Há um declínio evidente na carreira do ator mas em Cães Selvagens, pode-se afirmar que é a sua melhor atuação em anos. Sua interpretação para Troy não possui os exageros característicos e a única nota que o acompanha insistentemente. Ele consegue transmitir o tom insano mas que é a liderança nata do grupo, que o faz negociar os trabalhos e que possui uma espécie de loucura mais controlada entre os três. Ainda não é Cage em seus melhores dias mas está longe de ser o que ele vem entregando ultimamente.

Um pouco mais contido mas igualmente louco está Christopher Matthew Cook como Diesel. A força bruta do grupo é o pavio curto em pessoa, e ao mesmo tempo, consegue transmitir certa calma, como quando em um diálogo com uma mulher, sugere uma certa serenidade. Há certos momentos no filme em que suas ações tornam-se elementos chave para algumas situações, o que equilibra a importância dos três personagens centrais no longa, que no final das contas gira em torno do trio e de suas incursões por bares, clubes de strippers e os trabalhos sujos pelos quais se dispõem a fazer.

Willem Dafoe entrega uma de suas melhores atuações. Sabe-se que todo tipo de personagem insano lhe cai bem. No entanto Mad Dog transcende isso, explorando uma bipolaridade que se une a psicopatia. Ele é o tipo do personagem que não hesita em explodir a cabeça de uma pessoa com uma arma ou de se drogar alucinadamente com as mesmas substâncias que poderiam dopar um cavalo. A direção também consegue extrair, além das expressões mais insanas de Dafoe, ângulos e momentos em que a fisicalidade de sua atuação prevaleçam. E sim, não há como deixar de dizer que ele está a cara do Seu Madruga.

Certamente Cães Selvagens não é um filme para muitos pois pode soar como grosseiro, um tanto quanto vulgar e anárquico. Não há sutileza e sobra violência. No entanto, é sim uma comédia (mesmo que não pretenda ser) desajustada que trás uma ação regada a toques “tarantinescos “e personagens sem qualquer noção do politicamente correto.


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Carioca, apreciador de filmes e séries em tempo integral, quando o Bernardo (filho dele) deixa. Iniciou sua admiração pela sétima arte com os clássicos da sessão da tarde e se apaixonou pelo mundo das séries quando o Voo 815, da Oceanic, caiu misteriosamente em algum lugar no meio do nada...