Crítica | The Discovery

O que você faria se uma prova científica atestasse o seu destino depois de morrer? É a partir dessa curiosa premissa que o filme original da Netflix The Discovery desenvolve, por meio de tramas paralelas, uma interessante visão sobre como encarar tal situação.

No filme, devido a uma descoberta científica inovadora do Dr. Thomas Harbour (Robert Redford), há uma prova definitiva de que há vida após a morte. Enquanto inúmeras pessoas começam a se suicidar para redefinir a sua existência, outros continuam tentando entender o que tudo isso significa. Entre eles está Will (Jason Segel), filho de Harbour, que chegou ao isolado complexo de seu pai com uma misteriosa jovem chamada Isla (Rooney Mara). Lá eles conhecem os estranhos ajudantes que cooperam com Thomas em seus experimentos.

A direção é de Charlie McDowell, que também escreve o roteiro ao lado de Justin Lader. Tal parceria já havia acontecido no primeiro longa do diretor, o curioso Complicações do Amor (2014). A direção aplicada em The Discovery se caracteriza por muitos planos estáticos e centralizados, além de movimentos de câmera lentos. De fato, não há urgência em mostrar os acontecimentos e a carga densa do tema também é expressa em tela através de sua cinematografia, com o uso de uma paleta de cores fria, onde o azul predomina. A região de praia, a propósito, remete ao igualmente denso e gelado Manchester à Beira-Mar (2016). Só que neste caso, a ilha tem um status mais misterioso do que apenas triste e despenha um importante papel lá na frente.

Os primeiros minutos do filme trazem uma entrevista com ótimos diálogos, onde o Dr. Harbour, entrevistado, define o foco da narrativa. A discussão que aborda o significado da morte e a prova da existência do que vem depois motiva uma onda de suicídios em massa não parece incomodar o cientista, a ponto de sentir-se culpado, mesmo com desdobramentos trágicos de sua descoberta. O personagem é uma figura controversa, obcecado pelos estudos que proporcionaram o conhecimento obtido. A atuação de Robert Redford dá o tom exato e por si só já é um dos elementos principais do longa.

A trama, porém, vai perdendo o foco durante o seu desenvolvimento. O que parecia se desdobrar única e exclusivamente em um conto de terror psicológico ao melhor estilo Black Mirror acaba subvertendo as expectativas do público, ao focar na curiosa e desajustada relação entre Will e Isla. Não que isso seja ruim mas as implicações das discussões filosóficas e até religiosas acerca do tema nunca adquirem profundidade. Até há uma interessante abordagem no conceito de culto. Na mansão, pessoas desesperançosas e que tentaram se matar vestem macacões coloridos, participam de terapia e palestras sobre o que está por vir.

Outro problemas recorrentes são algumas situações que o roteiro apresenta. Soluções fáceis e conveniências acontecem, mas dada a notoriedade da descoberta, fica difícil crer em uma falta de interesse de uma grande corporação ou até mesmo do próprio governo no experimento. Ainda mais quando isso envolve mais de 2 milhões de suicídios. Desta forma, a sensação de clandestinidade em algumas passagens faz com que a suspensão de descrença seja necessária por parte do espectador.

Já o título do filme, a descoberta, move a trama à medida em que se os protagonistas se conectam. Afinal de contas, mesmo sabendo que há um outro plano, a incerteza sobre o que é e do que se trata confere uma interessante discussão. A perspectiva também é abalada. Por vezes você pode achar que se trata de realidade alternativa, plano espiritual ou que nada daquilo realmente existe. Nesse ponto a direção e o roteiro acertam, sobretudo no terceiro ato do filme que reserva um grande plot twist. Essa virada poderá não agradar alguns mas há grandes chances de surpreender. Se o espectador conseguir passar pela fase de adaptação no segundo ato, onde a premissa inicial dá lugar a um novo desenvolvimento, grandes são as chances de um impacto e reflexão sobre o final. Pode haver até uma certa falta de entendimento inclusive.

No que diz respeito as demais atuações, Jason Segel mostra que podemos superar (pelo menos aqui) sua associação com a comédia e o Marshall de How I Met You Mother, com uma boa atuação no viés dramático. O mesmo pode se dizer de Rooney Mara, trazendo um loiro platinado nos cabelos e com uma boa interpretação. Tal qual Redford, ambos se encaixam em seus personagens e o elenco em si ainda trás as boas atuações de Jesse Plemons como Toby, irmão de Will, e Riley Keough como Lacey, uma das diversas pessoas que moram na mansão e foram acolhidas após tentarem suicídio. Aliás, um dos momentos mais interessantes e que poderiam ser mais explorados são estas pessoas e o culto em torno do cientista.

Em linhas gerais, The Discovery é um filme instigante mas que, ao contrário do que poderia se supor, não aprofunda suas questões primordiais de maneira satisfatória. Trata-se de pessoas buscando significado e paz a partir do desconhecido e misterioso destino após o inevitável evento que é a morte. Vale uma conferida, sobretudo, se você é um entusiasta do tema.


Se você gostou dessa publicação, deixe sua opinião, comente e participe. Para acompanhar as publicações do Quarta Parede, siga as redes sociais do blog e receba notificações de novos posts!

Léo Barreto

Carioca, apreciador de filmes e séries em tempo integral, quando o Bernardo (filho dele) deixa. Iniciou sua admiração pela sétima arte com os clássicos da sessão da tarde e se apaixonou pelo mundo das séries quando o Voo 815, da Oceanic, caiu misteriosamente em algum lugar no meio do nada...