Crítica | Silêncio

Através de sequências silenciosas e um dilema espiritual intenso, onde expressões e imagens tem muito a dizer, Silêncio faz jus ao seu nome. Uma obra feita com notável esmero e que beira a reverência, não rendendo-se a parcialidade religiosa, no entanto.

A história se passa no século XVI, quando dois padres jesuítas portugueses, Sebastião Rodrigues (Andrew Garfield) e Francisco Garupe (Adam Driver),  viajam para o Japão na tentativa de localizar seu mentor, o padre Cristóvão Ferreira (Liam Neeson), acusado de ter cometido apostasia (negar a fé cristã) e deixar de propagar o catolicismo no país. Numa época em que a fé católica era proibida, e a presença de missionários também, é um verdadeiro teste de fé para os dois.

A direção de Martin Scorsese, embora fuja das usuais tramas urbanas que envolvem crimes, músicas e armas de fogo, tem muito de sua marca pessoal. É um filme longo (quase três horas) e não é o primeiro longa do católico diretor, que trata de religião. Além disso, há muitos planos estáticos, auxiliado pela linda fotografia de Rodrigo Prieto, indicado ao Oscar por este trabalho. É um projeto pessoal de décadas, quando o consagrado diretor leu o livro O Silêncio (1966) de Shûsaku Endô, que relata cartas de missionários portugueses quando estavam no Japão.  O épico religioso é muito visceral em suas consequências e confere uma visão interessante aos dois lados mostrados.

O roteiro é escrito pelo próprio Scorsese, em parceria com Jay Cocks. Ambos já haviam trabalhado juntos em A Época da Inocência (1993) e Gangues de Nova Iorque (2002). Em Silêncio, há um desenvolvimento gradual da narrativa, com um ritmo lento porém instigante. A trama flui aos poucos e os personagens são apresentados sem pressa e podemos compreender o papel de todos. A trama possui ares claustrofóbicos quando a clandestinidade predomina, em solo japonês. A partir da segunda hora de projeção, a situação muda completamente e a narrativa ganha contornos mais abertos, assim como os planos mostrados em tela, mas não menos dramáticos.

Historicamente, no início o Japão era um país acolhedor ao cristianismo. Aos poucos, o ato de professar a fé ocidental passou a ser motivo de perseguição e inquisição. Não é o foco do longa mas muito disso se deu por questões políticas que envolviam, entre outras coisas, a influência da religião no poder. O enfraquecimento do budismo fez com que o movimento passasse a ser inverso. Com isso, os cristãos passaram a ser obrigados a pisar na imagem de Cristo ou da Virgem Maria, e se registrarem em templos budistas. Aos poucos, os padres passaram a ser torturados e mortos, quando a renúncia da fé não era atendida. O filme então, poderia facilmente ir pelo caminho do martírio cristão, a partir da ótica da liberdade religiosa. Porém, o questionamento passa a ser o papel da própria religião, sendo ela qual for, no controle das pessoas e o temor causado pela figura divina.

O título do filme se faz presente de várias maneiras. A voz de Deus e a ausência da resposta divina é constantemente colocada em questão pelo personagem de Andrew Garfield, o protagonista. Com pouquíssima trilha sonora, o longa possui muitos sons que vem da natureza e o trabalho de edição de som é primoroso. As ondas do mar, cigarras, pássaros e tudo que provém do ambiente é ouvido e torna o longa uma experiência sensorial muito agradável. E angustiante em certos momentos, se nos guiarmos pela perspectiva de Sebastião Rodrigues.

Curiosamente, também em 2016, Andrew Garfiled estrelou outro filme cuja provação divina se fez presente. Em Até o Último Homem, ele esteve na pele de Desmond Doss, que salvou 75 soldados americanos sem disparar um tiro, durante a Segunda Guerra Mundial. A última coincidência é que o conflito se passa no Japão. É necessário dizer isso porque, em Silêncio, seu personagem possui um tom mais perturbador, sendo testado a todo momento no país hostil à sua crença e devido a ausência de respostas para as seus questionamentos.

Há também um dilema quanto a negação da fé. Pisar em uma imagem de Jesus significa renunciar o cristianismo e a questão da adoração da imagem é explícita. Afinal, um simples gesto é o suficiente para negar a Deus ou isso, em nome da sobrevivência, tem o perdão dos céus? O personagem também não é mostrado como um redentor ou herói. Aqui temos alguém que, invariavelmente, precisa assumir escolhas que vão de encontro aos seus princípios.

Quem também entrega uma boa atuação é o questionado Adam Driver. Garupe é um homem mais rígido na fé do que Rodrigues, levando a questão da apostasia muito  a sério. Além disso, seus trejeitos são os mais críveis e fisicamente, o ator tem o desgaste bastante condizente com a situação que vive. Liam Neeson também possui bons momentos. Presença inicial na tela, Ferreira permanece apenas em suspensão, no imaginário do espectador por muito tempo. Saber ou não se ele renunciou mesmo a fé e se está vivo, de certa forma, move a trama em paralelo à jornada de Rodrigues com os cristãos locais.

O elenco de apoio se destaca pelas atuações que são muito boas. Shin’ya TsukamotoYoshi Oida são Mokichi e Ichizo, dois camponeses convertidos que passam por um chocante teste de fé. Yôsuke Kubozuka é Kichijiro, personagem instigante que vê na fé e no perdão de Deus, motivos para se ajustar as situações em benefício próprio, em um papel que exige uma entrega física muito grande. É difícil, porém, apontar aquele que se sai melhor. Issei Ogata e Tadanobu Asano também tem atuação muito destacada, além de serem presenças temidas, atuando como um pitoresco inquisidor e seu intérprete.

Sem dúvidas, Silêncio é uma jornada de provações e sofrimentos, sendo uma verdadeira obra de arte em sua concepção. Com atuações primorosas e uma cinematografia impecável, Scorsese não teve o prestígio das premiações (leia esse artigo sobre os esquecidos do Oscar 2017),  mas alcançou outro grande feito, que foi personificar na figura dos padres um sofrimento que torna a fé, ambiguamente, um instrumento de acesso ao próprio inferno. Não há aqui uma figura redentora ou heróica. O sofrimento é igual para todos, sejam eles sacerdotes ou camponeses que professam sua fé clandestinamente.

A única coisa que não deve ter incomodado, sobretudo os americanos, mas que tira um pouco da realidade da história é o fato dos padres falarem em inglês. Aliás, muitos diálogos com os japoneses catequizados e o próprio tradutor do inquisidor não são feitos na língua nativa, mas sim em português. Ou melhor, inglês. Outro traço bem Hollywoodiano é o final do filme. O terceiro ato como um todo é primoroso mas o desfecho poderá não agradar a muitos. Isto posto, não há muito o que dizer.

Não restam dúvidas quanto a qualidade de Silêncio, nem que seja uma das obras de maior qualidade de Scorsese. Mas não é um filme fácil de assistir. Toda sua dureza mostra o melhor e o pior da religião, sem deixar de apresentar motivações de ambos os lados. Não há uma tentativa de justificar e sim mostrar, até onde pode resistir um teste de fé, e se de fato ele é necessário.


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Léo Barreto

Carioca, apreciador de filmes e séries em tempo integral, quando o Bernardo (filho dele) deixa. Iniciou sua admiração pela sétima arte com os clássicos da sessão da tarde e se apaixonou pelo mundo das séries quando o Voo 815, da Oceanic, caiu misteriosamente em algum lugar no meio do nada...