Crítica | Fome de Poder (The Founder)

Que todo império se faz com muita persistência, é um lugar comum admitir. Já os meios e a forma como isso se estabelece são variados. Em Fome de Poder (The Founder), a trajetória de um homem em busca do sucesso é mostrada sob a ótica do sonho americano e boas doses de ambição.

Na trama, Ray Kroc (Michael Keaton) é um vendedor do estado de Illinois, Estados Unidos, que conhece os irmãos Mac (Nick Offermane Dick McDonald (John Carroll Lynche fica impressionado com a velocidade com que eles operam uma hamburgueria no Sul da Califórnia, nos anos 50. Kroc vê potencial para a criação de uma franquia e com muita insistência, adquire uma participação nos negócios. Pouco a pouco ele assume a rede, transformando a marca McDonald’s em uma das mais expressivas do império alimentício. Porém, o que impressiona é a forma como isso acontece.

Com uma boa direção de John Lee Hancock (Walt nos Bastidores de Mary Poppins Um Sonho Possível), o filme começa focando no protagonista em um plano fechado no rosto de Michael Keaton. De cara já sabemos quem será o centro das atenções. A cena faz inclusive uma rima com um outro momento importante, no final da projeção. Durante o longa, é possível perceber a maneira inteligente como os enquadramentos são dispostos, com o protagonista sendo acompanhado por uma paleta fria que aos poucos vai dando lugar a cores mais quentes, sobretudo o amarelo, sempre com a presença de algum item vermelho. Alusão clara a marca, que ficaria mundialmente conhecida anos depois.

O roteiro de Robert D. Siegel desenvolve de forma breve a história de Ray Kroc antes de conhecer a lanchonete dos irmãos McDonalds. A partir daí, a discussão em torno das franquias e o desenvolvimento da conturbada relação tomam conta da narrativa. Há um certo desequilíbrio em mostrar figuras importantes como Ethel (Laura Dern), a primeira esposa do empresário. Ao invés disso, a história gira bastante em torno do empresário, a expansão das rede de lojas e a tomada da marca mundialmente famosa nos dias de hoje. Há uma certa semelhança com A Rede Social (2012), pela maneira como é retratada a controversa figura do protagonista e pela forma como os meios utilizados se relacionam com os objetivos. Entretanto, não há aqui uma densidade tão grande nos diálogos.

É notório que os últimos trabalhos de Michael Keaton o elevaram a um patamar diferenciado em Hollywood. Após as boas atuações em Birdman (2014) e Spotlight (2015), em Fome de Poder ele está hipnótico e rouba para si os holofotes a todo instante. Sua atuação é convincente e cínica, o que poderia até soar como canastrona. A construção do controverso personagem é muito bem feita e a medida em que o longa avança, a percepção que se tem do mesmo é alterada, graças as mudanças e acontecimentos que são apresentados.

Ray Kroc é uma figura que até então se conhecia muito através das histórias de empreendedorismo. Um homem de sucesso que pagou e também determinou o preço a ser pago por outras pessoas. Por trás do êxito, inevitavelmente existem baixas de ambos os lados. No filme, percebe-se um homem que após 52 anos de vida precisa realizar algo grandioso. Não basta ser bom afinal. O personagem em questão é impiedoso e persistente, o que faz com que sua relação familiar seja estremecida pelo desejo de criar uma potência em escala nacional. O contraste evidente com os verdadeiros fundadores da maior rede de fast food do mundo, que no final das contas, só queriam fazer bons sanduíches, é o que move a trama de maneira até cruel em alguns momentos.

O elenco de apoio funciona bem, em especial os contidos irmãos que deram início ao império de Kroc. Carroll Lynch e Offerman estão ótimos como os pequenos empresários que deixam o novo sócio entrar em suas vidas e desfrutar de seus segredos. A explicação da fórmula do sucesso da loja, simulando uma linha de produção e a maneira como eles apresentam o funcionamento dela rende um dos melhores momentos do filme. Há ainda uma pequena mas boa participação de Patrick Wilson e Linda Cardellini, embora houvesse necessidade de um maior tempo de tela para os atores e seus respectivos personagens. Sobretudo Linda, uma vez que Joan desempenha um papel fundamental na trama e é subaproveitada, assim como Ethel, primeira esposa de Kroc.

Algumas imagens de arquivo e fotos de época também são utilizadas, não somente no final mas durante o filme. É um recurso que por vezes pode até soar como documental e a narrativa por si só bastaria. Mas é interessante notar o cuidado que a direção de arte teve em reproduzir alguns cenários e figurinos, como por exemplo a roupa dos trabalhadores do primeiro restaurante e o próprio local em si. Outro especto importante é a maneira como a figura de Kroc é retratada. Em alguns momentos você irá querer devorar um Big Mac, e em outros, jurar nunca mais pisar em um restaurante da rede. Outro ponto interessante é que, apesar de ser um filme onde o surgimento de uma marca esteja sendo mostrada e referenciada a todo momento, não soa como propaganda gratuita.

Pode-se dizer que Fome de Poder é um filme que expõe um curioso ponto de vista sobre o avanço de uma das marcas mais famosas de nossa época. É inevitável dizer o sucesso obtido através de meios duvidosos não é algo inédito mas que surpreende em certo ponto. Não é uma obra que vai afastar o público alvo do consumo, pois haveriam meios mais contundentes para isso. Mas refletir e pensar sobre os meios que justificam (ou não) os fins é algo válido assim que o longa se encerra.

 

FOME DE PODER | THE FOUNDER
3.5

RESUMO:

Fome de Poder é bem dirigido e conta com atuações bastante convincentes, além de provocar uma importante reflexão sobre negócios.

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Léo Barreto

Carioca, apreciador de filmes e séries em tempo integral, quando o Bernardo (filho dele) deixa. Iniciou sua admiração pela sétima arte com os clássicos da sessão da tarde e se apaixonou pelo mundo das séries quando o Voo 815, da Oceanic, caiu misteriosamente em algum lugar no meio do nada...