Crítica | Um Limite Entre Nós (Fences)

Caso você queira assistir um filme baseado em atuações fortes e bons diálogos, Um Limite Entre Nós é uma indicação válida. Sobretudo pelo protagonista verborrágico e hipnotizante. O longa chegou a se chamar Cercas, em adaptação livre, mas recebeu de forma estapafúrdia este nome. Há um significado para isso mas não era preciso fazer desta forma.

No anos 50, Troy Maxson (Denzel Washington) é um homem de meia idade e mora com a esposa Rose (Viola Davis) e o filho mais novo Cory (Jovan Adepo). Em Pittsburgh, ele trabalha como coletor de lixo enquanto tenta uma promoção como motorista do caminhão. Seu maior desgosto foi não ter conseguido se tornar jogador profissional de beisebol, pelo fato de ser negro. Por esse motivo, ele estimula o filho a não se tornar um esportista, ao passo em que o garoto está sendo cobiçado por um recrutador.

Dirigido pelo próprio Denzel Washington, o filme possui um jeito bem peculiar pois trata-se da adaptação de uma peça de teatro escrita pelo já falecido autor August Wilson, cujo nome é o mesmo que dá o título ao longa (Fences). De fato a projeção segue um caminho pelo qual se pode observar a presença de muitos diálogos, em grande parte longos. Por mais de duas horas, percebe-se uma teatralização que não somente é vista nas atuações mas também nos enquadramentos e na dinâmica da narrativa. Certamente isso pode causar um incômodo no público que está acostumado a uma condução mais tradicional. A direção não faz muita questão de desfazer essa impressão, é bom que se diga. Há uma extensa quantidade de falas na primeira metade do longa, enquanto que a segunda parte concentra os acontecimentos mais impactantes.Por

Denzel rouba a cena, com um carismático personagem que possui um arco dramático muito interessante. Ele é capaz de conquistar o público e ao mesmo tempo provocar repulsa, devido a muitas situações mostradas. Troy é um homem cansado e amargurado pela vida. Ao mesmo tempo, um contador de histórias que faz questão de enaltecer sua suposta luta com o diabo. A falta de oportunidades, o preconceito racial latente nos anos 50 e a ausência de estrutura familiar são elementos fundamentais para este tipo de comportamento. O carisma vem de seu jeito descontraído e falastrão. Nesse terreno Denzel Washington brilha como ninguém e garante o show. Muitos davam como certa a sua terceira estatueta no Oscar 2017, que acabou ficando com Casey Affleck.

Quem brilha como nunca aqui é Viola Davis. Sua atuação é impecável e as emoções afloram a medida em que os desdobramentos da história acontecem. Esposa dedicada, mãe e cristã, todas as suas facetas são expostas e há um punhado de cenas com dramaticidade e energia que são únicas. Como já o fez em outras oportunidades em que também foi indicada ao prêmio da Academia, aqui ela rouba a cena, o que garantiu sua indicação e por isso, merecidamente levou a estatueta de melhor atriz coadjuvante para casa no Oscar deste ano. Em uma narrativa que privilegia a atuação, ela o faz com magnitude.

O elenco de apoio funciona muito bem e aparece de forma pontual. Destaque para Stephen Henderson como Jim Bono, amigo de longa data de Troy e que trabalha com ele na mesma empresa há anos. Há uma química muito grande entre os dois e a relação é muito crível. Outros dois personagens tem boa participação, embora com um tempo mais reduzido. Irmão do ex-aspirante a jogador, Gabriel (Mykelti Williamson) vive um homem com problemas mentais devido a guerra e é presença constante na casa da família. Filho mais de velho de Troy, Lyons (Russell Hornsby) tem uma situação semelhante a do irmão, tentando a carreira musical mas que na casa dos trinta anos, ainda pede dinheiro ao pai. Por fim, Cory é o um dos grandes elementos propulsores que transformam a narrativa e sua interação com o pai é enervante e tensa.

Muito do que é mostrado em Um Limite Entre Nós é movido pelo senso de responsabilidade e proteção. Não é uma história tão grandiosa mas que pelas brilhantes atuações, possui uma capacidade de inebriar e prender a atenção. É um filme sobre transformações causadas pelas circunstâncias, que porém, nem sempre são responsáveis por moldar quem somos e o que queremos nos tornar.


 

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Léo Barreto

Carioca, apreciador de filmes e séries em tempo integral, quando o Bernardo (filho dele) deixa. Iniciou sua admiração pela sétima arte com os clássicos da sessão da tarde e se apaixonou pelo mundo das séries quando o Voo 815, da Oceanic, caiu misteriosamente em algum lugar no meio do nada...