Crítica | Os Capacetes Brancos (The White Helmets)

A guerra civil na Síria e os bombardeios que atingem o país diariamente já causaram milhares de mortes e continuam a devastar de forma impiedosa a população local. O conflito desencadeia uma crise humanitária que também tem como consequência milhares de refugiados e externamente, coloca em lados opostos potências como Rússia e Estados Unidos. Em Os Capacetes Brancos (The White Helmets) todo esse âmbito é deixado de lado para dar lugar apenas a história de um grupo dedicado a salvar vidas.

Dirigido por Orlando von Einsiedel e produzido Joanna Natasegara, o documentário da Netflix ganhou o Oscar de Melhor Curta-Metragem no último dia 26. O filme segue um grupo de voluntários que em tese não defende nenhum lado, dedicando-se a salvar vidas no meio do caos que arrasa o país. Formado por pessoas que não possuem formação específica em resgate ou enfermagem, estima-se que a organização civil tenha salvo mais de 60 mil vidas e tenha tido 130 baixas. Número esses até a época em que o documentário foi produzido (2015). O nome do grupo se origina do acessório utilizado por eles durantes os resgates. A história desperta tanta atenção que o ator e produtor George Clooney está em negociações para produzir um longa-metragem sobre o tema.

É necessário introduzir e contextualizar a guerra na Síria pois uma das coisas que o filme faz é se abster de explicar  todos os lados da moeda. O regime do ditator Bashar Al-Assad começou a sofrer investidas de grupos rebeldes em 2011. Resumindo, os conflitos foram ficando cada vez mais violentos. Ambos os lados são apoiados por interesses internos e externos, o que envolve países e até grupos terroristas. Em 2013, o ex-oficial do Exército britânico James Le Mesurier decidiu buscar as finanças e infra-estrutura para formar um serviço de tempo integral, apoiado por governos e ONGs internacionais. Porém, nada disso acaba sendo mencionado no curta-metragem.

O documentário começa de maneira impiedosa, retratando uma missão de resgate e mostrando o modo de ação do grupo. Dessa maneira, podemos ver uma ação que se desenvolve com a câmera acompanhando o início do chamado após o bombardeio, o deslocamento e a missão de resgate. De forma bem imersiva e cruel, todo horror provocado pela guerra pode ser sentido. Ver as baixas de forma impactante é desagradável mas há um senso esperançoso ao ver o trabalho realizado por eles.

Em determinado momento, um dos membros do grupo diz que “salvar uma vida é salvar a humanidade”. Tendo como objetivo aparente apenas enaltecer a atuação dos voluntários mas sem se aprofundar nas questões ao redor, o curta-metragem peca em não expor também de forma mais ampla a história do grupo, mesmo que fosse um simples apanhado com a menção ao fundador, os apoios externos e internos. Tal decisão pode ser compreensível pelo fato de que o filme não tem aparente pretensão de tomar partido e isso poderia criar algum questionamento. No entanto, o sentimento de uma visão superficial é inevitável.

Há uma controvérsia sobre o envolvimento dos White Helmets com grupos terroristas. Tanto o governo sírio quanto a Rússia tem insistido no fato de que os resgatistas seguem uma agenda específica com outros fins. Entretanto, é inegável que o trabalho realizado na zona de guerra é de fundamental importância, sobretudo em um momento de colapso civil e extrema pobreza provocada pela absurda guerra.

A segunda parte do curta se dedica a mostrar um treinamento do grupo, realizado na Turquia, país simpatizante a causa rebelde. Lá eles aprendem técnicas de resgate e acompanham com apreensão os desdobramentos da guerra pela internet e televisão. Muitos dos depoimentos também são colhidos ali e há um momento que é bastante emocionante por sinal. Entretanto, toda tensão e o conflito acompanhado pela câmera na mão dão lugar a uma filmagem mais controlada e imagens de arquivo, em especial um salvamento do qual eles se orgulham muito.

Tecnicamente o documentário não é muito inventivo e apresenta as convenções habituais do gênero. Em 40 minutos, o que se vê é a destruição captada por câmeras amadoras mas também há muitas filmagens da equipe em zona de guerra e alguns momentos onde a fotografia é valorizada. Embalado por uma trilha sonora simples mas que mantém o espectador no clima do horror e apreensão, a atenção para o filme é garantida pela natureza impactante do material.

Por fim, o filme atende o seu propósito que é retratar o trabalho realizado pelos White Helmets. Não se prendendo a questões políticas e até pelo fato de ser um curta-metragem, a ajuda humanitária é o centro das atenções. Os efeitos provocados pela guerra também podem ser sentidos e outro sentimento que fica é que, muito além da nossa realidade, existem situações que de tão assustadoras poderiam ser ficção mas infelizmente são reais.


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Carioca, apreciador de filmes e séries em tempo integral, quando o Bernardo (filho dele) deixa. Iniciou sua admiração pela sétima arte com os clássicos da sessão da tarde e se apaixonou pelo mundo das séries quando o Voo 815, da Oceanic, caiu misteriosamente em algum lugar no meio do nada...