Crítica | Sonhos Imperiais (Netflix)

Veio bem a calhar a época em que Sonhos Imperiais foi lançado. Sobretudo em tempos onde o cinema independente tem aparecido com autoridade no Oscar, com produções como Moonlight e Manchester à Beira-Mar, entre outras. O filme foi exibido no festival de Sundance em 2014 e desde então rodou em alguns circuitos alternativos, até ser distribuído comercialmente em 2016 nos EUA. Em Fevereiro deste ano chegou ao Brasil, pela Netflix.

Possivelmente você já deve ter visto ou ouvido falar de John Boyega, ator britânico que ficou conhecido por interpretar Finn em Star Wars: O Despertar da Força. Antes disso ele protagonizou este filme dirigido por Malik Vitthal. É o primeiro longa do diretor que também deu ao ator seu primeiro papel como protagonista. O resultado é um filme cru em sua abordagem, tendo como mérito contar uma história pessoal palpável e relevante.

O filme mostra o retorno de Bambi (Boyega) ao seu bairro Whatts, depois de passar um tempo na cadeia. Mesmo com a liberdade ele se vê preso em um sistema que não parece lhe oferecer alternativas para fazer o que é certo. Vivendo em uma família desfuncional e com uma vocação para atividades ilícitas, ele foi moldado desde cedo para ser um deles. Seu tio Shrimp (Glenn Plummer) é um traficante; sua mãe Tanya (Kellita Smith) viciada em crack; o primo Gideon (De’aundre Bonds) envolveu-se recentemente em um homicídio; a esposa Samaara (Keke Palmer) é uma presidiária; além do irmão Wayne (Rotimi), o único que apesar sonhar com a faculdade mantém em aberto as opções do caminho fácil da família.

Em meio a tudo isso temos o desenvolvimento central da trama. O roteiro de Malik Vitthal e Ismet Prcic foca na relação entre Bambi e seu filho Day (Ethan Coach), exposto a toda situação circunstancial que é difícil e sofrida. Com a mãe na cadeia e o pai recém-saído do sistema prisional, a esperança de uma figura paterna amorosa surge, assim como a oportunidade de mudança através do sonho de Bambi: ser escritor. Motivação essa que se choca com os desejos de seu tio. Permanecer ao lado dos negócios da família aceitando alguns “trabalhos” é o caminho mais rápido para obter dinheiro e estabilidade. O filme também explora a influência sofrida por um indivíduo, no meio em que ele convive. Além do molde de caráter, a dificuldade de ser um jovem negro em um bairro perigoso também é evidenciada.

O desejo de que uma vida de crime não acabe tragando o menino move a jornada de Bambi. E isso não sai barato, o que inclui passagens que lembram À Procura da Felicidade. Só que aqui temos um universo construído de forma mais minimalista e menos emocionalmente guiada. Os diálogos são verdadeiros e as situações são aceitáveis. Estar nas ruas significa vivenciar aquilo que ela tem de pior. Entretanto, o filme não se prende a clichês tampouco pretende explorar grandiosas sequências de ação. Tudo é construído de maneira plausível e esse é um dos méritos de Sonhos Imperiais.

Em uma Los Angeles onde as luzes brilham em meio a bairros escuros e ermos, o perigo parece contrastar com a ponta de esperança que surge, como os versos no caderno de Bambi. Algumas questões importantes também são levantadas, como a burocracia que faz o sistema entrar em um círculo vicioso, ruim para quem deseja uma nova oportunidade. A relação entre Bambi e os detetives que circulam no bairro também reforçam um pouco da implicância e o peso nas costas que uma ficha criminal confere à uma pessoa. Porém, isso é abordado de forma tão insistente que pode gerar um certo incômodo depois de algumas situações. Já um fato desconexo com a realidade mostrada foi o comportamento de Day. Uma criança, por melhor que seja o temperamento, não consegue ser tão passiva como acontece em muitas passagens. Tanto o roteiro quando a própria atuação falham um pouco nesse sentido. Felizmente isso não compromete o resultado como um todo.

O filme é embalado por uma trilha sonora bem pontual e sutil em vários momentos. Seria fácil se prender as convenções do gênero, através de canções de rap e hip-hop. Aqui o som opta por um caminho menos glamouroso e mais melancólico em alguns momentos. Porém, o drama também tem pitadas de momentos esperançosos, com um desfecho agridoce e um pouco inconclusivo, mas coerente com as situações que se acumulam.  A narrativa não ocupa muito tempo e o filme tem apenas 80 minutos, com um ritmo que embora seja lento é constante.

De maneira geral, Sonhos Imperiais não é uma joia rara mas é um filme sincero, tem boas atuações e um protagonista que rouba a cena, como deve ser. Com bastante simplicidade, as ruas e os sonhos se cruzam de maneira que se manter-se no caminho certo pode ter seu preço, assim como o contrário.


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Carioca, apreciador de filmes e séries em tempo integral, quando o Bernardo (filho dele) deixa. Iniciou sua admiração pela sétima arte com os clássicos da sessão da tarde e se apaixonou pelo mundo das séries quando o Voo 815, da Oceanic, caiu misteriosamente em algum lugar no meio do nada...